Texto e atuações fazem de “Os Javalis” um belo exemplo do Teatro do Absurdo.

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz como parte do “Festival Verão com Arte”, no Teatro Glaucio Gil, “Os Javalis” foi uma grata surpresa. Inspirada em “O Rinoceronte”, de Eugène Ionesco (meu dramaturgo preferido do gênero que foi denominado posteriormente “Teatro do Absurdo”), a peça consegue congregar dinamismo e comicidade com um diálogo consistente e personagens interessantes.

O texto de Gil Vicente Tavares se desenvolve em um apartamento onde o anfitrião é surpreendido por um vendedor histérico que lhe passa a notícia de que a cidade foi tomada por javalis. Entre o incômodo gerado pela visita e a inquietude provocada pelas coisas que ela conta, inclusive sobre sua mãe, o anfitrião fica entre acreditar ou não no vendedor, expulsá-lo de sua casa ou trata-lo como um aliado na situação surreal que ele expõe, em que os dois são os últimos remanescentes da espécie humana. São incontáveis reviravoltas, construídas gradativamente e criando a apreensão sobre os desdobramentos possíveis para um enredo que soa, ao mesmo tempo, cada vez mais grave e mentiroso.

Os atores Lucas Lacerda e Junior Vieira dão o tom desta constante mudança de paradigma. E fazem isto muito bem! À vontade em cena, conduzindo a expectativa do espectador, brincam com as alterações de status, encontrando a comicidade nos momentos mais sutis.

Figurinos, sonoplastia e cenário trouxeram uma contradição que me chamou a atenção: enquanto os figurinos e um efeito sonoro similar a um curto-circuito sugerem um ambiente urbano e contemporâneo, o cenário caracteriza-se por elementos rurais e antigos. Diante da atmosfera absurda tão bem estabelecida tanto pelo texto quanto pela cena, esta incoerência espacial e temporal me pareceu fazer “total sentido” (com o perdão do trocadilho), corroborando para o contexto geral.

Por fim, há que se fazer duas críticas exteriores à cena: em primeiro lugar, sugiro que o Teatro Glaucio Gill abra suas portas com, pelo menos, 15 minutos de antecedência do início do espetáculo, de modo que o público não fique esperando na rua… como aconteceu no dia 11/01/2019, em que entramos no hall do teatro depois das 21h (hora marcada para a peça começar). Em segundo lugar, a peça começou com 23 minutos de atraso.
A gente vive reclamando que “as pessoas não vão ao teatro”. Se queremos maior afluência, precisamos começar respeitando quem vai.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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