Tauã Delmiro critica falhas no processo de formação de artistas no Rio: ‘Fui muito desincentivado’

Do Rio Encena

Hoje aos, Tauã Delmiro começou no teatro com nove anos

Hoje aos, Tauã Delmiro começou no teatro com nove anos

Assim como no caso de qualquer profissional, a formação é fundamental para o bom crescimento do artista. A verdade, no entanto, é que no Brasil de uma forma geral, e principalmente no Rio de Janeiro, essa base está bem longe de ter a estrutura ideal. Prova desse processo falho, Tauã Delmiro, apesar dos poucos 23 anos de idade que tem, já vivenciou e testemunhou muitas experiências desagradáveis desde que começou a dar os primeiros passos nos palcos.

– Eu fui muito desincentivado pela escola que, conteudista, tratava as artes como algo menor, e isso fez com que a minha formação estética e poética ficasse bastante comprometida durante muitos anos – reconhece Tauã Delmiro, em entrevista para a seção Perfis, do RIO ENCENA.

Natural de Niterói, Tauã começou nas artes cênicas muito cedo, aos nove anos, e desde então tem convivido com tais adversidades. Nesse período, participou de 17 espetáculos, sempre transitando entre diferentes funções. Somente em 2015, por exemplo, ele escreveu “O Edreedom”, atuou em “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” e agora é diretor residente em “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece”. Já para 2016, Tauã garante que está pronto para encarar novos desafios e disposto a superar velhas dificuldades.

Cite um espetáculo inesquecível que você tenha participado.

“O Edredom”, meu primeiro projeto autoral, para crianças e jovens que fala sobre identidade de gênero, e “O Primeiro Musical a Gente Nunca Esquece”, por me apresentar as felicidades e possibilidades de um mundo que até então apenas especulava.

Tem algum fracasso na carreira? Pode nos contar?

Talvez já tenham existido momentos de grande insatisfação artística com o projeto que estava desempenhando, mas de fato não posso chamar estes de fracassos.

O que ainda deseja fazer para considerar sua carreira completa no teatro?

Tenho a sensação de que nunca vou conseguir completar os meus desejos. Sinto a mesma aflição de quando entro numa livraria e vejo aquelas coletâneas “1001 livros que você precisa ler antes de morrer” e aí me dou conta de que uma vida não é tempo suficiente para ler todos aqueles livros. Uma vontade é ter cada vez mais autonomia sobre o meu trabalho e ser chamado para participar de projetos que me instiguem de alguma forma.

Prefere produzir, dirigir ou atuar? Por quê?

Gosto de desempenhar qualquer função que me possibilite fazer teatro.

Ator ou atriz você que tem como referência no teatro?

Júlio Adrião, Michel Melamed, Felipe Rocha, Dani Barros e meus queridos amigos da UniRio.

Tauã Delmiro (D) em ação no espetáculo "Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória" Foto: Divulgação

Tauã Delmiro (D) em ação no espetáculo “Todo Vagabundo Tem Seu Dia de Glória” Fotos: Divulgação

Cite um diretor (a) que você admira?

Henrique Dias e Karen Acyolli

Um gênero em que prefere atuar?

Teatro musical e Teatro para crianças e jovens.

Um profissional com quem tenha mais afinidade para trabalhar no teatro?

Muitos. No entanto, não poderia deixar de citar Manuela Hashimoto, que dirigiu “O Edredom” e que às vezes acredito me conhecer mais do que eu mesmo. E o Rodrigo Nogueira que com o seu trabalho em “O primeiro musical…” se tornou um referencial pra mim. A forma como ele conduziu o espetáculo foi de fato um grande aprendizado pra mim.

Na sua opinião, qual é o maior desafio na carreira de quem trabalha com teatro?

O primeiro deles é encontrar um ensino de artes gratuito e de qualidade. Fui muito desincentivado pela escola que, conteudista, tratava as artes como algo menor e isso fez com que a minha formação estética e poética ficasse bastante comprometida durante muitos anos. Acho um problema também a falta de políticas públicas que torne possível a arte no nosso país. Se pensarmos em jovens artistas e novas companhias, podemos dizer que o incentivo a estes é praticamente inexistente no Estado do Rio de Janeiro. Isso é extremamente problemático, por ser um desperdício de jovens talentos e inviabilizar uma renovação e diversidade de conteúdos necessária para a nossa cena teatral.

Se não trabalhasse com teatro, que profissão teria escolhido?

Marceneiro, pintor de paredes (aqueles que pintam áreas externas que ficam naquelas cadeiras de segurança), romancista (ainda estou tentando), historiador, arquiteto (como daqueles de programa de “transformação total”, que a gente nem sempre está prestando atenção, mas deixa a TV ligada pelo hábito).

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