‘Suassuna – O Auto do Reino do Sol’ – Uma justíssima e bela homenagem a um gênio imortal

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Um dia, fizeram-me uma pergunta: “Se você pudesse pedir a Deus que lhe concedesse a graça de conversar, por uma hora, com alguém que você muito ama ou admira e que já morreu, quem seria essa pessoa?”. A resposta saiu em frações de segundo: ARIANO SUASSUNA. Poderia, dessa forma, dar prosseguimento a um ligeiro colóquio, de quinze minutos, que tive o prazer e o privilégio de ter com ele e sua querida esposa, Dona Zélia, na noite de 11 de junho de 2007, antes da abertura de uma exposição, no SESC Flamengo, no Rio de Janeiro, sobre a sua obra, em comemoração aos seus 80 anos de idade.

ARIANO, certamente, é uma das maiores aquisições que o céu ganhou e, de lá, deve estar muito feliz com todas as justíssimas homenagens que lhe fazem, a toda hora, havendo ou não um motivo especial. Aliás, há um perene e eterno motivo especial: ARIANO SUASSUNA.

Uma das mais recentes homenagens que vêm sendo prestadas, no Rio de Janeiro, a tão ilustre brasileiro vem na forma de um musical, que estreou, em 2017, no lindo Teatro Riachuelo e já fez outras tantas temporadas, estando, no momento, em cartaz, no Teatro Carlos Gomes e que é mais uma obra-prima da grife A BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS, com o aval da SARAU AGÊNCIA DE CULTURA BRASILEIRA, na figura de ANDREA ALVES, sem dúvida alguma, uma das maiores produtoras de TEATRO deste país.

O espetáculo se chama “SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL”, idealizado por ANDREA, com texto de BRAULIO TAVARESmúsica de CHICO CÉSAR, BETO LEMOS e ALFREDO DEL-PENHOdirigido por LUIZ CARLOS VASCONCELOS.

Escrever sobre esse musical é, paradoxalmente, fácil e difícil. Fácil, por se tratar, como já foi dito, de uma obra-prima; difícil, porque precisarei me conter, para não me estender nos comentários, visto que material, para isso, não me falta e, como sou muito detalhista, nas minhas críticas, e só escrevo sobre o que me toca, sobre os espetáculos de que gosto – e adorei “SUASSUNA…” –, todo o meu poder de síntese está sendo requisitado agora.

O espetáculo homenageia os 90 anos do grande escritor e dramaturgo paraibano, radicado em Recife, onde morreu, em 23 de julho de 2014.

ARIANO nasceu na cidade de Parahyba, atual João Pessoa, e, além de dramaturgo, também foi romancista, ensaísta, poeta e professor. Foi o idealizador do Movimento Armorial, que tem como objetivo criar uma arte erudita, a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Tal movimento procura orientar, para esse fim, todas as formas de expressões artísticas: música, dança, literatura, artes plásticas, TEATRO, cinema, arquitetura, dentre outras expressões. É, sem a menor dúvida, um dos maiores dramaturgos brasileiros de todos os tempos, reconhecido, nacionalmente, como um grande defensor da cultura popular nordestina.

Em 1930, mudou-se, com a família, para Taperoá, cidade presente em suas obras, onde voltou a morar mais tarde. A partir de 1942, passou a viver em Recife.

Em termos de religião, teve uma formação calvinista e, posteriormente, agnóstico, converteu-se ao catolicismo, o que viria a marcar, definitivamente, a sua obra.

Para o TEATRO, escreveu, dentre tantas outras, as seguintes peças mais conhecidas e encenadas: “O Castigo da Soberba” (1953), “Auto da Compadecida” (1955), “O Santo e a Porca” (1957), “A Pena e a Lei” (1959), “Farsa da Boa Preguiça” (1960) e “As Conchambranças de Quaderna” (1987). Como romancista, é mais conhecido pelo livro “O Romance d’A Pedra do Reino” e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (1971).

 

SINOPSE

 

Sertão da Paraíba.

Época: mais ou menos atual, mas sem menção ao resto do Brasil, nem às tecnologias modernas.

Um Circo-Teatro viaja pelo Sertão, parando em cada cidade e distrito, para uma noitada. O Circo pertence a MADAME SULTANA (ADRÉN ALVEZ), astróloga, bailarina, clarividente, consultora tântrica e microempresária.

A principal atração do Circo é o seu grupo de jovens atores e artistas: são eles MOSQUITO (FÁBIO ENRIQUEZ), CHICO DE ROSA (BETO LEMOS),ESCARAMUÇA (EDUARDO RIOS), POETA LEÓN (RICCA BARROS) e CABANTÕE (RENATO LUCIANO).

Além dos habituais números circenses, eles encenam quadros, esquetes e entremezes (representações teatrais burlescas ou jocosas, de curta duração, que servem de entreato da peça principal) de grande sucesso junto ao público do Sertão. Cantam músicas, sozinhos ou em grupo, recitam, fazem números de gracejo ou de habilidades.

Eles se dirigem a Taperoá, na Paraíba, onde devem encenar um espetáculo nas festividades em homenagem ao “poeta Ariano Suassuna”.

Na estrada, cruzam com bandos de retirantes. Ficam sabendo que, além de estar havendo uma seca intensa na região, duas famílias tradicionais estão em pé de guerra, uma contra a outra, e, todo dia, há tiroteio em algum lugar dali.

De um lado, há a família FORTUNATO, de criadores de gado, e, do outro, o MAJOR ANTÔNIO MORAES, o implacável comerciante de minérios, que aparece em “Auto da Comparecida” e que é o vilão principal no “Romance da Pedra do Reino” e em “As Infâncias de Quaderna”.

Na fazenda de ANTÔNIO MORAES, a família está em crise. Além do conflito armado com os FORTUNATO, eles descobrem que IRACEMA (REBECA JAMIR), sobrinha do MAJOR, fora vista, fugindo de casa, naquela noite, com um rapaz, e o MAJOR está uma fera. O rapaz é LUCAS FORTUNATO (ALFREDO DEL-PENHO), neto bastardo de DONA EUFRÁSIA FORTUNATO, da família rival.

No caminho, o Circo recebe a visita do casal, que pede para se juntar a eles. A equipe os aceita, porque simpatiza com os dois. O Circo continua a viagem e começa a ser abordado por jagunços, à procura do casal.

A viagem vai mostrando os ensaios dos entremezes que a trupe está montando. Neles, aparecem cenas entre Dom Quixote e Sancho Pança ou entre duplas de palhaços, fazendo, de vez em quando, uma menção aos perigos que correm.

Nas estradas, aumenta o número de retirantes, os quais estão indo para um lugar que eles chamam de o “Soturno”.

Numa região cheia de escavações abandonadas, surgiu um vale fértil, para onde estão convergindo as pessoas. Num encontro com fugitivos, LUCAS fica sabendo que alguns irmãos de criação seus, que ele não via havia anos, estavam refugiados no “Soturno”, junto com outros retirantes. Ele vai reencontrá-los. A presença dele ali vai desencadear uma reação violenta, por parte dos jagunços das famílias em guerra.


Acertaram, em cheio, os envolvidos no projeto, quando não optaram por prestar a devida homenagem a ARIANO, simplesmente, montando um de seus textos clássicos, o que seria bem mais fácil e simples, ou produzindo um musical biográfico, que, na maioria das vezes, gera desastres, com raras exceções. SUASSUNA, certamente, não aprovaria.

Optou-se por um texto novo, inédito, em que o preito é prestado apenas na motivação, encerrada pelo deslocamento de uma companhia itinerante de Circo-Teatro a Taperoá“fazer um espetáculo em homenagem ao grande poeta SUASSUNA”. Isso, num ótimo texto, em que o talento de BRAULIO TAVARES utiliza, sem economizar, elementos do universo suassuniano, como personagens que levam nomes de outros, criados por ARIANO, frases e citações desses personagens, localidades que aparecem em suas peças e outros detalhes afins.

Um dos melhores exemplos disso é a cena que envolve EDUARDO RIOS e RENATO LUCIANO, em que este, como CABANTÕE, conta, ao outro, como seu avô construíra uma bicicleta, feita apenas com talos de mamona e, num determinado momento da mentira, equivoca-se e fala em uma parte do veículo, que teria sido feita com bambu, ao que o outro questiona: “Mas não era de mamona?”. E a resposta vem logo, na ponta da língua: “Não sei; só sei que foi assim!” (Saudade de João Grilo e Chicó.).

Até a figura da Compadecida, numa bela cena, se faz presente no espetáculo, adentrando o palco, sobre um andor, empurrado por um ator, caracterizado de ARIANO SUASSUNA (Emocionante!), detalhe que nem todos conseguem perceber, já que as atenções estão voltadas para a Santa. Parece que foi feito de propósito, seguindo o comportamento discreto do homenageado.

É interessante ver que BRAULIO TAVARES, dentro da homenagem, criou um momento em que o personagem ANTÔNIO MORAES, vivido por RICCA BARROS, não reconhece o talento de ARIANO, fala mal deste, menospreza-o, pelo fato de ser pobre, não ter dinheiro, já que, para o “MAJOR”, que nada tem a ver com a patente militar, o poder e o valor pessoal estão restritos às riquezas materiais acumuladas. É bem inteligente a ideia de chamar a atenção para o valor moral, intelectual e interior de ARIANO, pelas palavras vãs de um pobre de espírito, como ANTÔNIO MORAES.

Ainda sobre o texto, há nele a fusão de duas histórias, que se amalgamam ajustadamente e caminham em paralelo. Uma delas é o conflito resultante da paixão de dois jovens, LUCAS e IRACEMA, pertencentes a famílias rivais e que se odeiam, bem ao estilo Romeu e Julieta, temperado pela fuga do casal, e a consequente caça aos dois, ordenada por ANTÔNIO MORAES, principalmente ao “seqüestrador” de sua sobrinha. A outra é a lida, o dia a dia de uma companhia mambembe de Circo-Teatro, com suas mazelas próprias, e à qual vão ter, pedindo abrigo, os dois fugitivos.

Considero bastante original a ideia de BRAULIO, e são muito bem entrelaçadas as tramas. Na primeira vez em que assisti à peça, achei um pouco complicado o enredo, de início, porém essa impressão se desfez, um pouco, ao longo do espetáculo, e, totalmente, quando a vi pela segunda vez. Também achei, e continuo achando, que o texto é mais bem saboreado e assimilado pelos que têm afinidade com a obra de ARIANO, os que já conhecem o seu mundo, o que, de forma alguma, gera algum grande prejuízo aos não iniciados naquele universo.

Infelizmente, ainda há quem pense que musical se faz apenas com uma história e algumas canções, como apêndice, soltas, que até poderiam ser substituídas por outras. É claro que não é assim! Num musical, é necessário que as letras das canções também ajudem a contar a história, havendo, portanto, a necessidade de serem ajustadas ao enredo, como ocorre em “SUASSUNA…”. São excelentes as canções, assinadas por CHICO CÉSARBETO LEMOS e ALFREDO DEL-PENHO, embora se saiba que também houve colaborações de BRAULIO e dos atores do elenco.

Pode-se dizer que o espetáculo tem um quê de criação coletiva e que foi desenvolvido durante um longo processo criativo, texto e canções surgindo, gradativamente, durante os ensaios.

No que tange à direção, de LUIZ CARLOS VASCONCELOS, não lhe posso poupar aplausos, pelas ótimas soluções encontradas, criativas e simples, para todas as cenas, levando o público a imaginar e “ver” o que não está, materialmente, exposto no palco. VASCONCELOS é um profundo estudioso e conhecedor da obra de ARIANO, motivo pelo qual soube decodificar seu pensamento e criar um espetáculo lúdico, irrepreensível, do ponto de vista plástico, daqueles que ficam na nossa memória afetiva, para o resto da vida.

LUIZ explorou, com muita propriedade, tudo o que podia e devia ser resgatado da obra do dramaturgo homenageado e criou um espetáculo bastante dinâmico, com um ritmo que não arrefece, em momento algum, além de saber extrair, das profundezas do talento de cada elemento do elenco, o que ele/ela tinha de melhor, revelando, talvez, um lado oculto de alguns, agora, felizmente, conhecido.

Merecem destaque, pelo trabalho de direção, algumas cenas, como as que misturam, no mesmo espaço, resguardando-lhes os limites físicos, no palco, os diálogos entre o MAJOR ANTÔNIO MORAES e seu capanga CASIMIRO (FÁBIO ENRIQUEZ) e DONA EUFRÁSIA e seu advogado (BETO LEMOS)CASEMIRO, armado até os dentes; o advogado, “armado” apenas de palavras.

Outra é o hilário número de ventriloquia, adicionado, ao espetáculo, após as primeiras sessões, entre EDUARDO RIOS e RENATO LUCIANO (Sempre eles!), assim como são lindas e ternas as cenas do par romântico LUCAS e IRACEMA.

Existe um  momento de interação maior com a plateia, quando o personagem de ALFREDO DEL-PENHO solicita, ao público, que lhe diga uma palavra, a título de mote, para que ele faça repentes. Divertido momento.

Se ARIANO SUASSUNA é a cereja do bolo, quem seria o bolo? Só pode ser o elenco, composto pelos sete elementos que formam a Companhia BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS (pela ordem alfabética: ADRÉN ALVEZ, ALFREDO DEL-PENHO, BETO LEMOS, EDUARDO RIOS, FÁBIO ENRIQUEZ, RENATO LUCIANO e RICCA BARROS), enriquecido pelas valorosas participações de REBECA JAMIRCHRIS MOURÃO e PEDRO AUNE 

A BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS é um grupo que se formou durante as muitas viagens com o musical “Gonzagão – A Lenda!”, de 2012. Depois desse grande sucesso, o grupo se manteve junto, atuando em “Ópera do Malandro!”, em 2014. A ideia da formação oficial da Companhia amadureceu, até que criaram seu primeiro espetáculo autoral, “AUÊ”, junto com Duda Maia, que foi a grande sensação teatral de 2015/2016, sucesso absoluto de público e de crítica, vencedor de muitos prêmios, incluindo quatro, no PRÊMIO BOTEQUIM CULTURAL, a cujo júri tenho a honra de pertencer: MELHOR ESPETÁCULO, MELHOR DIREÇÃO (Duda Maia), MELHOR AUTOR (Duda Maia e A BARCA DOS CORAÇÕES PARTIDOS) e MELHOR ATOR (COLETIVO DE ATORES – cada um deles foi agraciado com uma estatueta, troféu conferido pelo PRÊMIO).

O grupo é formado por magníficos multiartistas, que executam e exercitam, maravilhosamente bem, tudo o que sabem fazer: representar, dançar, cantar e tocar instrumentos musicais.

Não é minha intenção estabelecer comparações entre “SUASSUNA…” e “AUÊ”, até porque são espetáculos completamente diferentes, em sua essência e propostas, entretanto, em termos de atuação, posso, seguramente, afirmar que, em “AUÊ”, não consegui estabelecer nenhum destaque entre os sete artistas. O mesmo não posso afirmar com relação ao espetáculo em tela. Ainda que, como era de se esperar, todos tenham uma atuação brilhante, na peça, não posso negar que, estando sob a mira de uma arma de fogo ou com o pescoço encostado à lâmina de uma arma branca, na iminência de morrer, caso não conseguisse apontar um destaque, eu não hesitaria em destacar o nome de ADRÉN ALVEZ, que é digno de muitos aplausos, de pé, por suas incríveis e inesquecíveis composições de personagens, duas mulheres, a MADAME SULTANA e DONA EUFRÁSIA, esta representando o poder matriarcal no Sertão, tipo encontrado em outras grandes obras da literatura brasileira.

Todos os adjetivos a que eu recorresse, para reconhecer o talento de ADRÉN e sua marcante atuação neste espetáculo seriam insuficientes. O que ele faz com a sua privilegiada voz é algo raro, brincando com os registros, passeando por eles, do soprano ao barítono, com a maior naturalidade e perfeição. Já o fazia em “Auê”.

Ao apontar o nome de ADRÉN, ficaria, porém, com pena de não ter podido escolher três nomes. Se tal oportunidade eu tivesse, na situação acima suposta, logo acrescentaria os nomes de EDUARDO RIOS e RENATO LUCIANO, que formam uma impagável dupla, que já era boa, porém se revelou melhor ainda nesta montagem. A química que existe entre eles é incrível, uma cumplicidade que os leva a merecer, também, muitos aplausos. Seus números, como “clowns”, uma arte dificílima, são irretocáveis. E aqui, vejo mais um mérito, também, no diretor, que enxergou essa cumplicidade e esse talento, durante o processo, e os incentivou, a ponto de termos algumas das melhores cenas do espetáculo sob a responsabilidade da dupla.

Mas todos merecem seus aplausos. FÁBIO ENRIQUEZ dá um “show” de interpretação, em qualquer personagem que faz, no espetáculo. Seu cavalo ROCINANTE é um achado. RICCA BARROS não fica atrás; uma presença mais que marcante em cena, principalmente na pele do MAJOR ANTÔNIO MORAESALFREDO DEL-PENHO arrebata a plateia, em todas as suas intervenções. Junto com BETO LEMOS, que vem se revelando também um bom ator, forma a dupla que mais trabalha a parte musical do grupo. Ambos têm um talento raro, como musicistas; ou melhor, mutimusicistas.

Quanto aos três convidados, para completar a trupe, um destaque vai para a única presença feminina em cena, REBECA JAMIR, totalmente inserida no “Clube do Bolinha”, talentosa atriz e cantora. CHRIS MOURÃO e PEDRO AUNE, os dois outros convidados, respondem, à altura, quando são solicitados a fazê-lo, e desempenham, competentemente, as suas funções.

A dinâmica do espetáculo deve muito ao ótimo trabalho de direção de movimento, uma preparação corporal, a cargo de VANESSA GARCIA, também assistente de direção. Nessa área “semântica”, incluem-se a preparação circense, feita por RODRIGO GARCEZ, e a preparação da cena de luta, cujo responsável é CLÁUDIO FERNANDES.

Se o espetáculo não valesse a pena, pelo textodireção e atuação, creio que ficar admirando a beleza criativa dos cenários e dos figurinos já seria suficiente para compensar o gasto com o ingresso.

cenografia, de SÉRGIO MARIMBA, é uma atração a mais no espetáculo. Linda e muito criativa. O palco fica, pode-se dizer, livre, para a atuação do elenco. É utilizada uma engenhosa carroça, que serve de marca do Circo-Teatro. É como se fosse o meio de transporte da trupe e, ao mesmo tempo, o local que lhes serve de abrigo. Em resumo, representa o universo circense. Construída com uma estrutura de ferragens, transporta toda sorte de tralhas, instrumentos musicais, cenários, figurinos e, evidentemente, pessoas. Um belíssimo trabalho de engenharia cenográfica. Também, sem a carga que transporta, serve de “fortaleza” do MAJOR ANTÔNIO MORAES.

Toda vez que a referência é o Circo-Teatro, que há uma cena envolvendo esse universo, ergue-se, ao fundo do palco, sem interferir no espaço cênico, uma “lona”, como marca registrada daquele espaço. É uma tenda simbólica aquela “lona”. Outro grande achado da cenografia.

E o que dizer dos lindos, magníficos, exuberantes, criativos e coloridos figurinos, idealizados por KIKA LOPES e HELOÍSA STOCKLER? Os adjetivos utilizados na pergunta já servem como resposta. Todos primam pelo bom gosto, nos mais variados sentidos, entretanto um deles merece um destaque. Trata-se da roupa da personagem DONA EUFRÁSIA, um traje que comporta uma saia com longa cauda, a se arrastar pelo palco, sendo que o ator ADRÉN ALVEZ, para ficar mais alto e passar, ao público, uma imagem de importância, força e o empoderamento da personagem, caminha sobre duas espécies de plataforma, o que lhe exige um esforço físico enorme, para se equilibrar e manter o corpo curvado, de uma anciã.

Para não fugir à regra, RENATO MACHADO brilha – sem trocadilhos infames – na iluminação do espetáculo, criando uma luz adequada a cada cena. Assim, podemos diferençar a mais sóbria, que ele idealizou para as cenas que envolvem mais dramaticidade, das mais quentes e coloridas, que se justificam para realçar o entretenimento, para as cenas envolvendo o Circo-Teatro. Ao mesmo tempo que está a serviço das cenas, também é de uma beleza, que ajuda a intensificar a plasticidade do espetáculo.

Um espetáculo musical não comporta erro no som, não admite falhas. O desenho de som tem de ser perfeito, tanto para as cenas de texto falado como para a execução das canções. Se tal tarefa for confiada a GABRIEL D’ANGELO, como em “SUASSUNA…”, o espetáculo não corre risco de sofrer qualquer prejuízo. Excelente trabalho!

SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL” é um magnífico espetáculo, uma verdadeira obra-prima, para toda a família e se propõe a ser uma celebração; e o é, em sua plenitude.

Já assisti à montagem quatro vezes, e ainda pretendo vê-la outras, se tiver disponibilidade para isso, uma vez que a peça é, sem sombra de dúvidas, o que de melhor foi apresentado, em termos de musicais, no Rio de Janeiro, no ano de 2017.

A minha recomendação é total, na certeza de que os que a aceitarem irão me agradecer pela dica. Mas não precisam!!!

O importante é homenagear e celebrar ARIANO SUASSUNA!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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