‘Solo’ – Um desafio para um espectador desavisado

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Dentre tantas coisas boas, no campo da cultura, que nos oferece o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), há um concurso de dramaturgia, chamado “Seleção Brasil em Cena”, que se propõe a escolher o melhor texto teatral, dentre os inscritos em todo o Brasil. O prêmio, para o vencedor, é a montagem da peça, sob o patrocínio do Banco, com temporadas em todas as cidades em que existam células do CCBB (Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte), podendo, depois, o espetáculo ser encenado, às expensas de uma produção particular em outros teatros e praças.

Em 2018, o vencedor foi o texto “SOLO”, que, apesar do título, não se trata de um monólogo. Seu autor é o muito jovem dramaturgo FABRÍCIO BRANCO. A peça, dirigida por VINÍCIUS ARNEIRO, está em cartaz no CCBB – Rio de Janeiro.

O concurso “SELEÇÃO BRASIL EM CENA” é de âmbito nacional e tem como principal objetivo “fomentar a criação de obras teatrais inéditas por meio de novos dramaturgos. Criado em 2006, o projeto recebeu, até a mais recente realização, mais de 2018 textos de autores de todo o Brasil. Em sua oitava edição, em 2018, foram 418 textos de 17 estados e do Distrito Federal, dos quais foram selecionados 12 finalistas, de três estados (um do Paranáquatro de São Paulo e seis do Rio de Janeiro), analisados, “no escuro”, por uma comissão de profissionais da área de artes cênicas. O júri só conheceu os nomes dos autores após a escolha dos 12 finalistas.

 

SINOPSE

 

Um homem solitário, criado entre lápides de um cemitério, tem uma profunda devoção pela terra. Uma verdadeira simbioseHOMEM / TERRA.

É nela que ele encontra aceitação e afeto e é por ela que ele se transforma.

No cemitério onde trabalha, como COVEIRO, o homem, anônimo, (KADU GARCIA) percebe que os sepultamentos diminuíram, enquanto o número de cremações aumentou.

Ele resolve, então, despir-se de suas máscaras sociais e passa a ouvir seu instinto primitivo: começa a alimentar a terra que o acolheu até ali.

As relações da solidão e do homem com a terra se misturam, através da apresentação de diferentes personagens, que contam a história de vida de um homem moldado pela morte.

Em suas mãos, a valorização do único afeto que recebeu em vida: o amor pela terra.


No elenco, além de KADU GARCIA (COVEIRO), o protagonista, estão ALINY ULBRICHT (GORDA)BÁRBARA ABI-RIHAN (MENDIGO) e JANSEN CASTELLAR (PASTOR)“Cada personagem fala sobre suas mazelas, sem máscaras. Em comum, eles têm o mesmo sentimento: o de “não pertencimento”, ou seja, o de não se encaixar em tudo que o rodeia, seja entre amigos, entre desconhecidos, entre colegas de trabalho ou, até mesmo, em casa, sozinho. Trata-se daquele sentimento de que algo não faz sentido e tudo parece falso, quase a desmoronar, o que, evidentemente, não é nada bom, não causa nenhum prazer ou satisfação ao ser humano.

Inicialmente, escrito sob a forma de monólogo, os personagens, que funcionam como “satélites” do COVEIRO, ganharam voz, graças à sugestão de VINÍCIUS ARNEIRO“O texto do FABRÍCIO levanta uma poeira que a gente tenta baixar. Ele retrata arquétipos sob o olhar do senso comum”, diz o diretor.

Segundo o “release”, enviado por BIANCA SENNA (ASSESSORIA DE IMPRENSA)“A peça apresenta uma narrativa de terror psicológico, tendo como referência inicial o monólogo “Cine Monstro”, do premiado autor canadense Daniel MacIvor. “Os livros ‘Intermitências da Morte’, de José Saramago, e ‘Teoria Geral do Esquecimento’, do angolano José Eduardo Agualusa, também serviram como inspiração para o texto”, lembra o FABRÍCIO. “SOLO” traz uma reflexão sobre questões contemporâneas e apresenta diversas referências atuais. “Considero o teatro um local de denúncia, e esta peça levanta questões ligadas às minorias, aos excluídos”, continua o dramaturgo.

Estamos diante de um espetáculo que exige o máximo de atenção do espectador, uma vez que não se trata de nada que leve ao mero entretenimento. Predomina o terror psicológico, que mexe com os nossos nervos, da primeira à última cena. Durante todo o tempo de duração da peça, a plateia se sente “oprimida”, meio sufocada, como se estivesse sob aquele monte de terra que faz parte do interessantíssimo cenário, concebido pelo premiadíssimo artista FERNANDO MELO DA COSTA.

COVEIRO, solitário, vai desfiando suas reflexões e lamúrias, interrompido, aqui ou ali, por personagens bizarros, que fazem parte de uma “identidade coletiva”; todos nos vemos um pouco refletidos neles. São seres marginalizados, que parecem voltar, para cobrar algo, uma cobrança de um resgate da dignidade do ser humano.

texto é, profundamente, hermético e, por vezes, tive de fazer um exercício muito grande de atenção e concentração, para discernir o que era real do que parecia ser alucinações. Mas isso, longe de desvalorizá-lo, mais o torna rico. Não vá assistir à peça, se procura algo fácil de digerir ou leve.

direção potencializa o clima e a mensagem propostos pelo autor, com soluções e ideias muito incomuns; originais, por isso mesmo, provocando, por vezes, até asco, no espectador. Repito: não é um espetáculo de ou para lazerÉ uma obra muito provocativa e, até certo ponto, chocante.

KADU GARCIA vive um personagem bastante diferente de todos aos quais eu o vi dar vida. Sua interpretação é visceral e comovente. Da mesma forma se comportam os três atores em papéis coadjuvantes. Todos, no conjunto, formam um elenco merecedor de rasgados elogios.

cenário é bastante simples, entretanto muito criativo e impactante, formado por uma extensíssima mesa. O COVEIRO está sentado em frente a ela. No meio da referida mesa, vê-se um monte de terra, de dentro do qual o protagonista vai retirando “coisas” (Não darei “spoiler”.) surpreendentes.

Há um clima de mistério e, mesmo, de terror, durante toda a encenação, para o qual muito contribui a ótima direção musical, assinada por MARCELLO H.

TICIANA PASSOS também deixa a sua colaboração, nesta montagem, com figurinos bem adequados a cada personagem.

Quanto à iluminação, de BERNARDO LORGA, além de bastante correta, cria alguns momentos de suspense, com alguns “black-outs”, totalmente integrada à proposta da peça.

Não cheguei a me “arrepiar”, nem pelo terror, nem pela peça, em si, contudo não posso negar que se trata de um espetáculo bem diferente de tudo o que está em cartaz, no momento, além de bem montado, com bastante esmero e profissionalismo, merecendo, assim, a minha recomendação, acima de tudo, pela atuação do elenco.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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