Sobre diferenças, ‘Preto’ é um ensaio, um registro das reflexões do grupo

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro III do CCBB, “Preto”, espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro, com dramaturgia de Grace Passô,Nadja Naira e Marcio Abreu e direção de Marcio Abreu, é resultado de uma série de “residências” (oficinas, palestras, debates…) realizadas em Curitiba, sede do grupo, no Sudeste do Brasil e na Alemanha, sobretudo entre maio e agosto de 2017.

O espetáculo se configura exatamente como um conjunto de reflexões. Por meio de “loopings” (repetições), vemos a mesma cena acontecer de formas diferentes, as mesmas frases sendo ditas por atores diferentes, ou em ordem diferente.

O palco é vazio, exceto por uma grande mesa (com cadeiras e um copo d’água), interpretada pelos atores como uma barreira entre palco e plateia, a ser quebrada. A primeira cena pede ajuda aos espectadores para mover esta longa mesa um pouco mais para frente, e muitos atores estão sentados na primeira fileira, dando a impressão de que o espetáculo será, de fato, uma espécie de debate interativo. Mas não é.

Um telão exibe “closes” dos atores. Por vezes ao vivo, enquanto proferem textos em cena; por vezes apenas “closes” já gravados, enquanto outras cenas acontecem. É, de longe, o recurso mais interessante que a peça utiliza, não pelo vídeo em si, tão presente em inúmeros espetáculos, mas pela maneira como a peça explora a relação visual entre palco e vídeo.

Um ponto positivo é que o debate sobre as diferenças se dá numa esfera muito mais ampla e conceitual do que o lugar comum normalmente visto por aí. Um ponto negativo é que este debate é muito mais interno ao grupo do que inclusivo à plateia por meio de uma obra teatral.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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