Só pela ambientação, ‘Grande Sertão: Veredas’ já vale o ingresso

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), “Grande Sertão: Veredas”, que tem concepção, adaptação e direção de Bia Lessa, se define como um “espetáculo-instalação”, o que faz jus ao que, no meu entender, é o grande mérito da montagem: sua ambientação, que remete ao sertão no que ele tem de mais peculiar. E isto se deve ao espaço, adereços, figurinos e som (inovador e sensível).

A peça se passa no roll principal do CCBB, em uma estrutura de semi-arena, com palco no centro e plateia em duas laterais. Uma dezena de bonecos cinzas em formato humano estão amontoados no centro do palco, com uma cruz em cima, simulando uma cova. Ao lado dela, o livro “Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa. Está instaurado o clima ermo que tomará conta da encenação, na qual os mesmos bonecos, somados a uma infinidade de outros, dispostos nos limites da estrutura e nas coxias, serão manipulados por atores e contrarregras, como objetos descartáveis. Vidas descartáveis de um “lugar nenhum”.

Quando os atores entram, com seus figurinos negros, neutros, formam entre si, também, uma massa de manobra. As cenas são compostas em uma estética que distingue solista(s) e coro, este assumindo as mais variadas formas, entre rebanho, revoada e bandos de jagunços.

O som coroa toda esta estética de grupo, de ambientação, ao se dar a partir de fones de ouvido que recheiam a encenação de toda espécie e variedade de sons, desde aqueles característicos do sertão até músicas e narrações que colorem, como pano de fundo, a cena que vemos no palco.

Os atores estão muito bem, tanto vestindo a camisa da lógica de conjunto quanto como personagens, ainda que nuances, em geral, sejam suavizadas por um peso que se quer imprimir o tempo todo. Caio Blat e Luiza Arraes são exceções, ambos no corpo do protagonista/narrador Riobaldo: Caio, a cargo do personagem a maior parte da peça, encontrou um tom “de centro” que assimila tanto sua doçura quanto seus arrebatamentos, carregando a peça com lucidez e, por incrível que pareça, não cansando o espectador em mais de 2h de espetáculo; são suas também as narrações em off.

Luiza Arraes transborda carisma, dotando Riobaldo daquilo que fica ausente da interpretação de Caio Blat– sobretudo pela extensão que o ator precisa dar conta: relevo, distinções… vemos os arroubos emocionais, o entusiasmo, tudo que diz respeito mais ao personagem que ao narrador. Em Caio é o oposto. Se complementam. Muito bom!

Minha única ressalva é o que me pareceu um exagero na percepção de “grupo”: a falta de nuances. De diferenciação, em uma obra que tem em seu título “veredas”. Não compromete o espetáculo, mas diminui a riqueza que ele poderia ter, e que está super presente na paisagem sonora, por exemplo. Citando um caso: todos fumam e todos ficam nus. Sem exceção. Mesmo quando desnecessário.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE