Sensível, ‘Bibi, uma Vida em Musical’ consegue envolver e trazer, ao mesmo tempo, atrativos do musical americano

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, “Bibi, uma Vida em Musical” tem toda a estrutura do grande musical americano tradicional, e é neste sentido que mais surpreende: texto e direção não diluem a personagem em momentos cruciais e apoteóticos, de forma a abrigarem lindos números musicais, e ponto. Pelo contrário: mesmo longo, o espetáculo não tira o foco da relação de Bibi com seus pais e suas matrizes cênicas, que corre paralela ao processo que, em sua carreira, a levou a atuar nos mais diferentes gêneros.

Com formação musical materna e teatral paterna, Bibi é apresentada desde o início como uma menina prodígio, potencialmente preparada para diferentes tipos de cena. Outra referência importante é o circo, que funciona dentro do espetáculo como um pano de fundo, como se permeasse o imaginário de Bibi (gostei desta escolha), mantendo-a com um pé no teatro popular, extraoficial e mambembe.

Cenário e figurino esbanjam cores e vivacidade, o que casa perfeitamente não só com as épocas retratadas no espetáculo mas com a própria noção de espetáculo que perpassou a carreira de Bibi Ferreira.

A direção de movimento conseguiu a façanha de recuperar corpo e trejeitos de ícones do teatro do século XX sem esvaziá-los de sentido, destacadamente Procópio Ferreira, vivido por Chris Penna. Sua caracterização consegue instaurar o ator em cena sem reduzi-lo ao que hoje é considerado “exagerado” ou “canastrão”.

O elenco é a cereja que completa esse bolo preparado com preciosismo. O trio protagonista formado por Bibi Ferreira (Amanda Acosta) e seus pais (Simone Centurione e Chris Penna) carrega o espetáculo com segurança, em um equilíbrio de difícil elaboração e manutenção: envolver o espectador e quebrar este envolvimento com tiradas cômicas. Amanda Acosta não deixa a peteca cair por um segundo sequer: sua Bibi é firme e a atriz é carismática, bonita de se ver em cena.

Ao basear a narrativa na relação familiar e estética entre Bibi e seus pais o espetáculo consegue fazer 3 em 1: homenagear a atriz, colocando em cena momentos emblemáticos de sua carreira; passar em revista parte do teatro brasileiro de meados do século XX; e contar uma história de uma família de artistas e as implicações de suas escolhas e da carreira que escolheram.

Ícones de gerações teatrais diferentes, apesar de cronologicamente coladas, Procópio e Bibi Ferreira representam momentos bastante distintos de nossa história teatral, em uma estrada que acabou levando a um “profissionalismo” inexistente tanto para Procópio Ferreira quanto para a tradição circense (materna). Tudo isso aparece no espetáculo, na minha opinião, da melhor forma: a partir da trajetória da atriz, sem didatismos, inserido na narrativa.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

 

 

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