‘Segredo de Justiça’ chega a discurso direto por meio de narrativa múltipla

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro SESC Ginástico, “Segredo de Justiça” consegue unir vetores bastante diversos dentro do universo teatral em um discurso uno e divertido.

A peça baseia-se no livro da juíza Andréa Pachá. O espetáculo, dirigido por Marco André Nunes, ao invés de encenar os casos narrados no livro, expõe a própria reflexão sobre como se faria esta encenação, começando com uma conversa entre o elenco. Posteriormente, algumas histórias tomam o palco, e através delas aborda-se o que parece ser, de fato, o tema central da peça: nosso processo de tomada de decisão. O ápice desta poética revela-se ao final, quando o público é colocado no papel de juiz.

O cenário de Marcelo Marques e Marco André Nunes abriga esse acúmulo de referências e sentidos, e o palco é, grosso modo, dividido em duas metades: à direita, uma mesa de reunião, uma estante com água, chá, café e um quadro para anotações. À esquerda, um sofá e um espaço vazio onde acontece a maioria das cenas. Ao fundo, um arco que serve de coxia e de base para projeções (recurso, aliás, muito bem utilizado nesta peça).

Outro recurso do qual a peça se utiliza muito bem é o diálogo direto com o público. Isso acontece tanto em quebras assumidas de quarta parede quanto em apartes e na criação de cumplicidade, sobretudo do narrador, com a plateia. Achei muito interessante! Normalmente isso não é tão explorado por espetáculos “adultos”.

Os atores, apesar de não explorarem tudo que a peça oferece, não comprometem, e conseguem alcançar alguma comicidade em certos momentos, especialmente aqueles a cargo de um humor mais veloz, que para funcionar dependem da boa dinâmica do espetáculo como um todo.

“Segredo de Justiça”, portanto, além da boa dinâmica e da utilização inteligente e original de diferentes recursos teatrais normalmente desvalorizados, propõe uma reflexão importante e bem elaborada, que além de envolver diretamente a plateia, virtualmente traça um paralelo com um momento do Brasil em que a Justiça vem protagonizando as notícias que chegam a nós. Vale a pena!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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