Secretário Ruan Lira revela metas para os teatros estaduais e diz que ‘caminho’ para Villa-Lobos sai ainda em 2019

Luiz Maurício Monteiro

Ruan Lira foi anunciado pelo governador Wilson Witzel como secretário de cultura em outubro do ano passado

Ruan Lira, Secretário Estadual de Cultura, recebeu o RIO ENCENA para uma entrevista sobre o teatro no estado e a cultura de um modo geral no prédio anexo do Theatro Municipal, um dos escritórios da secretaria. Sem fugir de qualquer pergunta, o carioca de 31 anos, formado em Relações Internacionais pela PUC, conversou com a reportagem por cerca de 40 minutos e indicou que sustenta suas ideias e projetos numa palavra-chave: integração. Promover o trabalho em conjunto com os mais diversos agentes – como produtores culturais – e setores – como esporte e turismo – é seu propósito para reverter o quadro e superar desafios de uma pasta – que foi rebatizada para Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa (Secec) numa ação exatamente de integração – que, assim como todo governo, sofreu nos últimos anos com gestões inoperantes e corruptas.

Indicado pelo então recém-eleito governador Wilson Witzel (PSC) em outubro do ano passado, Ruan está há apenas cinco meses no cargo – recém-completados nesta sexta-feira (31/05) – mas garante que a Secec já conseguiu avanços, principalmente, contribuindo para enxugar a máquina pública. Neste período, já foi possível também iniciar um longo e árduo processo para devolver ao público fluminense e à classe artística um importante palco teatral no Rio de Janeiro: o Teatro Villa-Lobos, em Copacabana, fechado desde 2011 devido a um incêndio e encontrando-se atualmente em estado de caos, com direito a ruínas e água parada.

Segundo Ruan, a reforma do teatro ficaria perto dos R$ 30 milhões, verba da qual o governo estadual está longe de dispor hoje em dia. E é aí que entra uma das propostas de integração do secretário, que já vem conversando tanto com o Governo Federal, quanto com empresas privadas, a fim de reabrir o equipamento. A expectativa é definir um “caminho”, no caso, uma solução, ainda em 2019.

— Isto já está sendo construído. Ou seja, estamos caminhando nas duas frentes, e a que avançar primeiro, eu acho que será a mais interessante para a população, no sentido de que o teatro reabra, sem perder sua qualidade e sua característica. Tenho muita convicção de que ainda no segundo semestre, possamos bater o martelo a respeito de um dos dois caminhos — ressalta.

Na entrevista, Ruan Lira revelou também planos para outros teatros que estão sob responsabilidade do Estado. Mais uma vez a ideia é contar com parcerias privadas para revitalizar aqueles que mais demandam melhorias, inclusive os que se situam fora da capital. Para estes, inclusive, há a ideia de promover uma sinergia entre agentes culturais e comunidades locais, além de chegar à marca de pelo menos uma teatro em cada uma das 92 cidades fluminense. Saiba mais na entrevista abaixo:

Que balanço você faz destes cinco primeiros meses da Secec sob sua gerência?
Primeiro, queria agradecer a oportunidade, é sempre válido dar publicidade ao trabalho que é feito. Bom, foram meses de muito trabalho, primeiro arrumando a casa… Encontramos um governo de cabeça para baixo, com as gestões anteriores não tendo agido de uma forma eficiente na organização da máquina pública e não entendendo o setor cultural como um setor de investimentos para o desenvolvimento de uma sociedade como um todo. Então, foram os dois primeiros meses olhando para dentro, desde a avaliação do quadro funcional até as estruturas administrativa, financeira, jurídica, organizacional… Fizemos uma mudança do eixo de atuação da Secec para a área da economia criativa, que agora faz parte do nome da secretaria, em que deixamos de olhar somente o desenvolvimento humano do setor cultural, que já é feito muito bem, mas olha também para o desenvolvimento econômico para gerar desenvolvimento social e fazer com que o agente cultural se enxergue como empreendedor, com sua arte gerando emprego e renda e sendo também um transformador social. Nossa ideia é ajudar, através de capacitação e mudança de conceito do agente cultural, a sociedade a enxergar essa entrega do setor cultural como uma secretaria que é um dos pilares do desenvolvimento do estado do Rio. Não só como uma secretaria superficial, mas transversal, que não só dialoga com todas as outras pastas, mas gera resultado se bem trabalhada. E acredito que o caminho para tirar o Rio da crise é a partir da indústria criativa, que hoje é a segunda em termos de PIB, perdendo só para óleo e gás, em termos de geração de emprego e renda. Então se não começarmos essa potencialidade da cultura, vamos perder a oportunidade de colocá-la em outro patamar. É nossa missão, são nossos valores. Em cima disso, arrumamos a casa, enxugamos custos, despesas e a folha de pagamento em R$ 1 milhão. Hoje, o governo economiza mais de R$ 400 milhões por mês só enxugando máquina pública, e, proporcionalmente falando, a cultura foi quem mais contribuiu para isso. Uma gestão eficiente e séria, um modelo organizacional bem delimitado, e sem perder um serviço, uma entrega, continuando com equipamentos abertos. Em 100 dias, conseguimos fazer a modernização da legislação da lei de incentivo à cultura, integrando esporte e cultura, para que se pense no governo como um todo, com menos burocracia e mais facilidade para a sociedade. Trabalhamos no resgate do circo com o pequeno e médio artista circense trabalhando na formação; voltamos a ocupar a Praça XI, depois de 11 anos, com uma atividade gratuita para alunos de escolas públicas, além do resgate de outros equipamentos em termos de ocupação cultural. Quem quiser saber mais, é só entrar nas redes sociais da Secretaria, onde nós elencamos todas as medidas dos primeiros 100 dias de governo. Diante do caos que o governo estava, acho que conseguimos entregar muito mais do que planejou.

Ruan tem buscado PPPs para melhorar os teatros sob responsabilidade do Estado Fotos: Arthur Tezolim

Sobre a sinergia entre cultura, educação, esporte e lazer mencionada na campanha do governador, e que você também acabou de comentar, o que de concreto foi feito até o momento?
Temos hoje parcerias desde a polícia militar, polícia civil, secretarias de Esporte, Ciência e Tecnologia, de Saúde, de Fazenda, de Educação… Dialogamos com praticamente todas as pastas, como eu comentei. Especificamente a de esporte, hoje trabalhamos de forma integrada nos equipamentos públicos desde o Complexo Esportivo da Rocinha até o Parque Julio Delamare, e outros equipamentos públicos. Estamos levando atividades culturais para serem integradas ao setor do esporte, estamos batalhando com Governo Federal para resgatarmos um programa chamado Praça, para resgate das praças públicas. A ideia é proporcionar para a população, de forma gratuita, espaços públicos esportivos junto com atividades culturais, em diversos locais com praças abandonadas. Fui a Brasília recentemente conversar com o Secretário (Especial da Cultura no Ministério da Cidadania) Henrique Pires sobre esse projeto, e ele se mostrou interessado em tocar isto para frente. E com a secretaria de Turismo, o governador fala muito bem que o turismo é o novo petróleo. E se o turismo é o novo petróleo, a cultura é o novo ouro branco do século XXI, porque sem cultura, o turismo não anda. Nossa ideia é que o turismo seja, como eu costumo brincar, o grande marqueteiro do setor cultural. Que ele possa fazer circular cidadãos de outros municípios, mas também os que vêm de outros países. Então, trabalhamos de uma forma integrada. E também na construção de corredores culturais oficiais do Estado, para que possamos resgatar os grandes eventos, de feiras, festivais. Estamos de olho em todos os nichos culturais, temos um estado riquíssimo e estamos mapeando e criaremos oficialmente os corredores cultuais por região. E através da tecnologia, com aplicativo e o nosso site, vamos revitalizar o mapa da cultura, que já existe, mas está meio parado

E o que seriam exatamente estes corredores culturais?
Por exemplo, você vem para o Rio passar duas semanas para curtir o Rock in Rio. Nesse meio tempo, você tem uma semana sem eventos. Nossa ideia é que, sempre que o turista vier – o que é normal, por se tratar da grande vitrine do país – possamos oferecer de forma contínua e fixa os grandes eventos do interior do estado. Eu fui recentemente para o Norte e o Noroeste fluminense, e a quantidade de festivais que acontecem na cidade é grande, mas não tem tanta publicidade. Desde o Festival do Vinho e de Jabuticaba de Varre-Sai até o Festival do Quibe de Italva, tem a Festa do Boi de Itaperuna… Então, nossa ideia é dar publicidade a estes locais, de uma forma organizada, planejada. Vamos criar um calendário oficial destes corredores culturais para que possamos, através da Secec também, dar maior visibilidade neste aplicativo. Para que o turista venha e saiba os corredores que ele pode percorrer. Assim, daremos maior fluxo de turismo para as 92 cidades do estado. Essa é a ideia de integração.

Agora falando especificamente sobre os teatros do estado, como eles entrariam nessa proposta de atrair turismo?
Temos três desafios e já estamos caminhando para solucioná-los. Primeiramente, a revitalização dos teatros estaduais. Nestes últimos anos do governo anterior, que era muito incompetente, foram abandonados alguns equipamentos, como, por exemplo, o Teatro Mário Lago, na Vila Kennedy. O encontramos num estado triste de se ver devido ao descaso de gestões anteriores. Nossa ideia é revitalizar estruturas, dar nova roupagem. Em segundo lugar, colocar estes teatros de volta nos grandes cronogramas do circuito teatral do Rio, trazendo bons espetáculos. E os grandes espetáculos só vêm quando se tem um teatro estruturado para receber isso. Com licenças em dia e ocupação pronta para ser usada em sua totalidade. Além disso, trabalhar uma formação e capacitação dos pequenos e médios produtores artísticos, fomentando a cadeia teatral como um todo. Para que estes agentes trabalhem na sua comunidade e cresçam de dentro para fora. E que a comunidade local também tenha um sentimento de dono com estes espaços, ocupando-os com manifestações artísticas da região. Assim, conseguimos dar mais opções de cultura, primeiro para o cidadão fluminense, depois para o turista que queira usufruir destes teatros.

Sobre parcerias com empresas privadas para investir nestes teatros, houve avanço?
É nossa prioridade máxima trabalhar com o setor privado e sociedade civil. Hoje com o rombo na máquina pública, sem o apoio do setor privado, fica muito difícil andarmos para frente a curto e médio prazo. Nossa ideia é, sem perder valores, diretrizes e missões do equipamento público, trazer o setor privado para resgatar as estruturas dos espaços abandonados, fazendo assim com que o setor privado e agentes culturais conversem cada vez mais, e o setor público seja um incentivador deste diálogo. Assim como acontece nos grandes países do mundo, onde isto já é feito de uma forma muito avançada. E gera retorno para os dois lados. E quem ganha é o estado, com um espaço democrático com a cultura pulsante. Parcerias público-privadas estão no nosso radar, é uma prioridade nossa. Temos conversado com parceiros do setor privado, alguns estão mais avançados, outros ainda em conversas iniciais. Mas estamos trabalhando em todas as frentes, com todos os equipamentos, para que possamos cada vez mais resgatar estes equipamentos públicos com apoio do setor privado.

O Villa-Lobos em ruínas em 2018, sete após ser fechado depois de um incêndio Foto: Luiz Maurício Monteiro

Você disse que algumas conversas estão avançadas. Consegue adiantar alguma coisa em relação à revitalização do Teatro Villa-Lobos?
O Teatro Villa-Lobos, há quase 10 anos fechado, é um caso emblemático. Poderia falar vários outros, mas este é simbólico. Eu seria leviano se desse uma data, mas ainda no segundo semestre deste ano, já teremos um caminho definido para o teatro. Estamos construindo os caminhos possíveis. A prioridade é que o teatro reabra. Em cima disso, estamos desenhando todos os caminhos possíveis para que isso aconteça. Infelizmente, o Estado não tem dinheiro em caixa para reconstruir o teatro. A obra gira em torno de R$ 30 milhões. Com a crise financeira, o Estado com um rombo de R$ 8 bilhões no orçamento público, com dificuldades para arcar com segurança pública, saúde, educação e cultural no geral, fica complicado fazer um investimento desse porte. Então, precisamos do apoio de alguém. E esse alguém tem que ser o governo federal, num convênio, e já estamos conversando com Ministério da Cidadania nesse sentido. Porém, não podemos esperar a vida inteira para que isso aconteça. Então, além desse caminho, estamos tocando junto com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, com a Sub-secretaria de Parcerias Público-Privadas para conseguirmos uma PPP para o Villa-Lobos, para reabri-lo. Isto já está sendo construído. Ou seja, estamos caminhando nas duas frentes, e a que avançar primeiro, eu acho que será a mais interessante para a população, no sentido de que o teatro reabra, sem perder sua qualidade e sua característica. E sem ser apenas o teatro, mas que seja um grande centro multicultural, que entregue além do teatro. Acho que essa é a ideia de qualquer espaço público moderno. Tenho muita convicção de que ainda no segundo semestre, possamos bater o martelo a respeito de um dos dois caminhos. Estamos desde o primeiro dia de gestão em busca desses caminhos para não ir por nenhum outro que não seja eficiente. Por isto, tomamos o primeiro semestre para desenhar as soluções, e o segundo, para acertar qual será o caminho.

Atualmente, apenas quatro teatros da esfera estadual estão localizados fora da capital. Há um desejo se se aumentar este número?
A questão não seria aumentar o número de teatros ou construir novos. Temos dois pontos, fora da capital: primeiro, seria fazer um mapeamento de todos os teatros que existem, e isso já está sendo feito nas 91 cidades, fora a capital. E em cima disso, naquelas cidades que ainda não possuem um teatro atuante, com capacidade para gerar o desenvolvimento do setor, o Estado entraria como parceiro, promovendo a revitalização, aumentando a capacidade, naquele sentido dos corredores culturais que eu falei. E em segundo, naquelas cidades que não possuem nenhum teatro, aí sim, queremos desenhar ao longo dos quatro anos de governo, um programa para que possamos construir teatros. Assim como já existe o programa Cinema para Todos, um convênio com o Governo Federal, a Caixa Econômica Federal e a Ancine (Agência Nacional de Cinema), nós já estamos em vias de iniciar as construções de cinemas em cinco cidades, como São Fidélis, Mirecema, São Pedro d’Aldeia e outras. Então onde mapearmos que não há teatro, vamos correr atrás de um convênio. Nossa prioridade é que toda cidade tenha um teatro.

Sobre projetos, são três atualmente. Há o desejo de criar mais projetos?
A Lei de Incentivo funciona muito bem. Não à toa, já investimos em projetos incentivados, só neste ano, aproximadamente R$ 32 milhões. Então, vem funcionando bem. Sobre o edital de ocupação dos teatros, quem quiser fazer ocupação já pode fazer pela Funarj. O que vamos fazer é o lançamento do novo edital. Estamos trabalhando nestas duas frentes, que estão funcionando bem. Acho que são as duas grandes plataformas do setor. Mas temos uma superintendência de artes muito interessante, que está trabalhando de forma intensa para fazer uma ocupação, principalmente, daqueles teatros da periferia e do interior, para os quais devemos olhar com mais carinho. Zonas Nortes e Oeste contam com maior índice populacional, mas, infelizmente, não têm uma programação teatral adequada. Mas a superintendência vem trabalhando nesse resgate.

Você mencionou a relação com o Governo Federal. De que forma, medidas, como o corte de patrocínios da Petrobras a festivais de cinema e teatro, podem atingir a cena teatral do Rio? E como é a relação entre os governos estadual e federal?
Nossa relação até então tem sido muito cordial, satisfatória, com diálogos abertos e ideias trocadas. As nossas demandas são passadas, são solicitadas. Já fui a Brasília conversar com o secretário Henrique Pires, que sempre foi muito solícito às nossas solicitações. E queremos cada vez mais estreitar laços, porque sem o Governo Federal fica muito complicado qualquer ente do Brasil sobreviver. Queremos ser parceiros. Esse é o primeiro ponto. Estamos de braços abertos para todo tipo de convênio que seja em prol da população. Quanto à Petrobras, acho que é uma pena que tenha acontecido, mas tenho certeza que a nova gestão vai pensar com carinho, mais equilíbrio e sabedoria, para voltar com os patrocínios aos eventos culturais. Porque colocar dinheiro no setor cultural, seja no teatro, no circo, música ou economia criativa, não é um gasto, é um investimento. A cada R$ 1 investido na indústria criativa, são R$ 7 de retorno para o estado. Isto nos estudos conservadores. Nos mais progressistas, são até R$ 17. Vide o Carnaval! Acho que a Petrobras vai repensar, vai reavaliar para voltar a ser a grande investidora do setor cultural como sempre foi.

Tem algum projeto, algum programa direcionado ao teatro que você tem em mente desde que assumiu o cargo e gostaria de tirar do papel?
Acho que temos que pensar numa ocupação do teatro fora das quatro paredes. Quando visitei o interior do estado recentemente, Norte e Noroeste, percebi que as praças públicas ainda são um grande centro de convivência social para a população local. Precisamos pensar num projeto em que o teatro possa resgatar como era antigamente, um teatro aberto, público, democrático. Seria sensacional! Estamos pensando neste projeto de teatro itinerante em todas as cidades, através de ocupações de praças públicas, e seria algo muito ímpar de se realizar. Como secretário, vejo que seria um marco. E também desafio os produtores culturais, para que eles nos provoquem, com projetos via lei de incentivo. O produtor tem que nos provocar. Geramos editais, fomentos, mas queremos ser provocados com novas ideias de produtores com capacidade para realizá-las. Estamos de portas abertas para quem quiser puxar essa bandeira. E que artistas queiram se apresentar nestes locais mais distantes, porque muitas vezes não há esse interesse.

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