‘Romeu & Julieta’ – Como uma viagem por mais de quatro séculos termina em sucesso

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Há temas que nunca sairão da moda, que existem desde que o Homem é Homem e continuarão a existir por toda a eternidade. Merecem, por isso mesmo, ser cantados, louvados, soprados aos quatro cantos do vento, principalmente se esse tema é o AMOR, já tão decantado pelos maiores escritores, compositores, artistas, em geral, em prosa, em verso e em todas as mídias. Junto com ele, infelizmente, vêm sempre as suas mazelas, o preço altíssimo que ele, muitas vezes, cobra, para vencer seus inimigos e obstáculos. Amar é muito bom, mas não é fácil. Mantê-lo vivo é mais difícil ainda.

Talvez, com 99,99999…% de chance de acertar, a mais linda, triste e conhecida história de AMOR, o sentimento mais nobre que a Humanidade conhece, date de mais de quatro séculos (não se sabe, exatamente, quando foi escrita, mas calcula-se que tenha sido concebida entre 1591 e 1595), surgida do inquestionável gênio da poesia e da dramaturgia universalWILLIAM SHAKESPEARE, o BARDO inglês.

Minhas críticas costumam ser bem extensas, porém esta, sobre “Romeu & Julieta”na medida do possível (não garanto), não terá, proporcionalmente, a extensão dessa comovente história de amor e, menos ainda, a magnitude desta brilhante montagemuma produção de nos deixar orgulhosos do nosso TEATRO, mormente o MUSICAL. Não há nenhuma razão especial para tentar ser breve, a não ser que estou precisando exercitar o meu poder de síntese, prometendo, entretanto, não omitir uma vírgula de elogios que o espetáculo mereça e não garanto que vá conseguir conter as minhas emoções.

Pensei até em omitir a sinopse da peça, pois é, praticamente, impossível imaginar alguém que não conheça este clássico da literatura dramática universal, contudo, para não fugir à estrutura que utilizo nos meus escritos, aqui vai ela, a mais condensada possível (Não riam; não é piada.):

 

SINOPSE

 

ROMEU (TIAGO MACHADO) E JULIETA (BÁRBARA SUT) são os protagonistas dessa história de amor, que se passa na encantadora cidade de Verona, na Itália, no século XVI.

Dois jovens adolescentes se apaixonam profundamente, mas não sabem quem são; um e outro pertencem a famílias arquirrivais, com um longo histórico de lutas, por conquistas, as mais diversas, e muito ódio recíproco de seus ascendentes. Mas o fato é que os dois se enamoram.

ROMEU, que pertencia à família dos MONTECHIO, pretendia se casar com a jovem Rosalina, que não aparece, fisicamente, na história, a quem jurava amor eterno, entretanto o destino cuidou de mudar o rumo das coisas, quando o rapaz conhece JULIETA, a única e formosa filha do casal CAPULETO, mudando, imediatamente, de ideia, com relação a desposar Rosalina. Amor fulminante (Ou seria paixão juvenil?), de adolescentes, tão logo se “conhecem”, decidem se casar.

O encontro do jovem casal ocorreu num baile de máscaras, na casa dos Capuleto, o último lugar do mundo em que ROMEU seria bem-vindo, tanto que penetrara no baile de forma clandestina, mascarado, como pedia a indumentária.

Mal sabiam os dois que “o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões” (Tunai).

Vendo, naquela relação, que parecia a mais sincera possível, o único caminho para terminar com a guerra entre as duas famílias, para que a paz voltasse a imperar em VeronaFREI LOURENÇO (CLÁUDIO GALVAN), grande amigo e confidente de ROMEU, no dia seguinte, celebra, secretamente, o casamento dos dois apaixonados, após uma combinação, que contou com a participação da AMA (STELLA MARIA RODRIGUES) de JULIETA, sua confidente e “alcoviteira”.

Tudo poderia ter seguido às mil maravilhas, mesmo com uma posterior possível, e esperada, reação de desaprovação e indignação de ambas as famílias, o que de nada adiantaria, visto que o casamento já teria acontecido, não fosse um duelo, ocorrido, na praça central da cidade, entre TEOBALDO (PEDRO CAETANO), primo de JULIETA, MERCUCCIO (ÍCARO SILVA), amigo de ROMEU, e este próprio, o qual tentava, a todo custo, apartar a briga.

O resultado dessa contenda foi o tombamento de MERCUCCIO, ferido de morte por TEOBALDO, e este, em represália, também morto, por ROMEU, que se desespera, diante daquele duplo homicídio.

Surge, então, o PRÍNCIPE DE VERONA (KADU VEIGA) e, como castigo, decreta o exílio de ROMEU. Este, contrariando as ordens do PRÍNCIPE, à noite, escala todos os muros dos jardins da residência de JULIETA, para um encontro furtivo, que durou toda a noite, durante o qual, o casamento, propriamente, se consumou. Foi uma linda e feliz noite de amor, antes de o rapaz ir para Mântua, seguindo os planos de FREI LOURENÇO.

Como era próprio da época, havia os casamentos “de arranjo” e JULIETA já estava prometida ao jovem PÁRIS (DIEGO LURI), um nobre, jovem de boa cepa e, ainda por cima, amigo do PRÍNCIPE.

O pai queria que a cerimônia se realizasse o mais rápido possível, mas a filha, já casada, ainda que na clandestinidade, com ROMEU, tentava, de todas as formas, “adiar o casamento indesejado”, sem ser bem-sucedida.

Sem saber como sair daquela enrascada, a moça resolve procurar FREI LOURENÇO, para que ele a ajude a resolver o problema. O sacerdote oferece-lhe uma bebida, uma espécie de elixir do sono, que, supostamente, quando ingerida, iria fazer com que ela parecesse morta, “ressuscitando”, após um tempo. Assim a família sepultaria a “falecida” no jazigo dos CAPULETTO.

Ato contínuo, o FREI enviou um emissário a ROMEU, com uma carta, na qual revelava o que estava acontecendo, o seu plano. Assim, o rapaz voltaria e poderia viver, fora de Verona, com sua amada.

Ocorre, porém, que o portador da missiva não consegue entregá-la ao seu destinatário e ROMEU fica sabendo, por intermédio de um criado, que sua jovem e adorada esposa estava “morta”.

Desesperado, o infortunado procura um boticário e compra um veneno mortal, para dar cabo à própria vida e se encontrar com o seu amor na eternidade.

De posse da droga letal, ROMEU, dirige-se à cripta da família CAPULETO, e, lá, encontra JULIETA “morta”, ou seja, ainda sob o efeito do sonífero. Também estava no local PÁRIS. Os dois postulantes ao amor de JULIETA lutam e ROMEU o mata. (A cena foi cortada da peça, de forma bastante acertada, já que nada acrescentaria à história.)

Para dar fim ao seu sofrimento, o atormentado “viúvo” bebe todo o veneno, até a última gota, e, obviamente, morre. Quando JULIETA desperta e toma sentido do que acontecera, desesperada, apropria-se do punhal de seu marido e se mata.

E as famílias voltam a conviver pacificamente; não se sabe até quando, mas tudo indica que para sempre, à custa do sangue de dois inocentes, cujo “pecado” era o AMOR.

Pena que essa aparente união não se tenha dado, de verdade, por obra do AMOR, mas pelo caminho do ódio, ambos separados por uma tênue linha.


texto clássico nos é apresentado sob a forma de um MUSICAL e confesso que essas inovações me deixam apreensivo. Já assisti a algumas montagens da peça, com “leituras modernas, contemporâneas”, verdadeiros martírios, uma vez que foram cometidas as mais cruéis heresias contra SHAKESPEARE, que deve ter dado cambalhotas homéricas no seu túmulo, na Church of the Holy Trinity, Stratford-upon-Avon, Reino Unido.

Aguardei, com muita ansiedade, esta montagem, fruto da LEME PRODUÇÕES ARTÍSTICAS, em parceria com a AVENTURA ENTRETENIMENTO, mas confesso, com toda a sinceridade, que temia pelo resultado, por dois motivos, que passarei a expor.

O primeiro deles era pela grande “ousadia”, coragem, destemor, de transformar um modelo clássico de tragédia universal, um dos textos mais encenados no mundo, se não for o mais, num MUSICAL, principalmente porque “se tornou moda” e, hoje em dia, tudo acaba virando MUSICAL, sem que, muitas vezes, seus autores, diretores e produtores tenham a menor noção do que seja um nem de como se construir um, o que, absolutamente, não é o caso de GUSTAVO GASPARANI, que assina este, ao lado de EDUARDO RIECHE.

O segundo dizia respeito a quem caberia a adaptação e o roteiro musical, uma vez que, a meu juízo, e manterei sempre esta minha opinião, embora tenham atingido grande sucesso popular – e que bom que isso tenha ocorrido –, os dois últimos textos, para musicais, de GASPARANI tenham deixado muito a desejar, se comparados a tantos espetáculos maravilhosos com os quais ele nos vem brindando ao longo de vários anos. Isso acontece e, se não agradaram a mim, muitos os aplaudiram. Há plateia para tudo e para todos. Mas isso são águas que um rio já carregou e se diluíram no oceano. O que importa é “ROMEU & JULIETA”.

Reputo de perfeita a adaptação, a releitura da dupla de autores, para o clássico shakespiriano. A dupla foi extremamente cirúrgica, em respeitar o texto original, mantendo o que seria possível da linguagem do Bardo, fazendo pequenas e ótimas adaptações e, o mais importante, cortando todas as gorduras, totalmente “cortáveis”, que, se mantidas fossem, tornariam o espetáculo muito longo e, provavelmente, enfadonho, de tanto que já assistimos a elas. Tudo o que era necessário, para que a história fosse contada, sem mutilações, com dinamismo e despertando o interesse do público para a próxima cena, foi conservado, e muito bem conservado. Foram felicíssimos GASPARANI e RIECHE.           

É claro que, cercado por um exército de excelentes profissionais colaboradores, GUILHERME LEME GARCIA, realizou uma direção impecável, trabalhando o potencial de cada ator, dos protagonistas aos que interpretam personagens coadjuvantes, e nada sobra ou falta em cena. Suas marcações são excelentes, o perfil de cada personagem, dos principais, na trama, está revelado na medida certa; não há estereotipias, não há pieguice, não há falsidade. Tudo soa verdadeiro e, por conseguinte, emociona e faz o público acreditar naquela história, tão bem contada por um elenco de profissionais de grande estirpe.

Há cenas, que, mais por conta das ideias da direção, ficarão marcadas, para sempre, nas nossas retinas, como a do casamento, que encerra o primeiro ato. Com relação a esta, veio-me à cabeça um ensinamento, que aprendi, com dois magos desse gênero de TEATRO: “Num MUSICAL, a última cena do primeiro ato deve ser muito ‘para cima’, para que o espectador não se levante, vá ao banheiro e tome o caminho de casa”. Já tive a oportunidade de fazer este comentário em outra crítica. “O ideal é que o espectador se levante, para esticar as pernas, vá ao banheiro, tome seu cafezinho rapidamente, ávido para voltar ao seu lugar, a fim de ver onde aquele rio vai desaguar. É preciso que ele sinta interesse pelo segundo ato, fique curioso pelo prosseguimento da trama e pelo final da história”.

GUILHERME faz exatamente isso. A tal cena do casamento é de arrepiar, de uma beleza plástica indescritível, ao som de uma canção belíssima (“Vilarejo”), na qual se destaca o incomensurável talento vocal de CLÁUDIO GALVAN. É difícil conter as lágrimas.

Pensam que eu ia deixar de mencionar a famosa cena do balcão e a do despertar da noite de núpcias? Como omitir duas das mais belas cenas da peça e, em especial, desta montagem? Mas não vou me deter nelas, para não lhes roubar o prazer de vê-las ao vivo.

“VILAREJO”

Há um vilarejo ali, / Onde areja um vento bom.

Na varanda, quem descansa / Vê o horizonte deitar no chão.

Pra acalmar o coração, / Lá, o mundo tem razão.

Terra de heróis, lares de mãe, / Paraíso se mudou para lá.

Por cima das casas, cal; / Frutas em qualquer quintal.

Peitos fartos, filhos fortes, / Sonhos semeando o mundo real.

Toda a gente cabe lá: / Palestina, Shangri-lá.

Vem andar e voa / Vem andar e voa / Vem andar e voa…

Lá, o tempo espera; / Lá, é primavera.

Portas e janelas ficam sempre abertas, / Pra sorte entrar.

Em todas as mesas, pão. / Flores enfeitando

Os caminhos, os vestidos, os destinos / E essa canção.

Tem um verdadeiro amor, / Para quando você for.

(Compositores: Carlinhos Brown / Marisa Monte /

Pedro Baby / Arnaldo Antunes


Por sua natureza, a peça, originalmente, é um pouco arrastada, com exceção das cenas de lutas de espada, mas GUILHERME imprime um ritmo moderno, de quem tem pressa, para contar a história, sem sacrificar – REPITO – o original do roteiro. É coisa de quem sabe enxergar, com os olhos do século XXI, um clássico do século XVI.

“ROMEU & JULIETA”a montagem aqui analisada, é daqueles espetáculos que acontecem de vez em quando. Não é todo dia que se vê uma produção em que o que não está bom está ótimo, e o que estaria ótimo está… Alguém sugere algum superlativo novo?

equipe técnica brilha, nas suas áreas.

DANIELA THOMAS assina um cenário fantástico. Ela faz, do óbvio, o máximo, utilizando, apenas, resistentes estruturas de madeira, caixas enormes, de tamanhos variados, em forma de cubos e retângulos, na cor cinza, imitando paredes, das construções e das ruas de Verona, que, também, movimentadas pelos próprios atores e o pessoal de apoio, se transformam em interiores de casas, igreja e palácios, com o acréscimo de outros mínimos, porém indispensáveis, detalhes, como a enorme cama, para a noite de núpcias e uma “chuva” de flores, as quais pendem do teto, para ornamentar uma bela cena de amor entre o casal de amantes. Se não me equivoco, é quase uma marca de DANIELA a utilização de formas geométricas, nos seus trabalhos cenográficos, o que muito me agrada, pela simplicidade e criatividade, como, no caso, em que peças ganham uma utilidade e beleza, em cena, o que é difícil de ser explicado. É lindíssimo o seu cenário. Esse toque sombrio é quebrado por alguns elementos, nos momentos exatos para tal.

JOÃO PIMENTA, um dos principais nomes da moda masculina e sustentável, estava inspiradíssimo, quando desenhou os figurinos da peça. São uma atração à parte. De verdade. Um encanto, um bálsamo, para os olhos e para a alma. TODOS, sem nenhuma exceção, tanto na beleza plástica quanto na qualidade do material empregado, assim como, também, no fino acabamento das peças. Um dos meus muitos defeitos é não saber descrever, com detalhes, o que desejo, o que me causa muita frustração. Talvez seja por não saber por onde começar, diante de tanta beleza. Todos os muitos figurinos trazem um requinte e um encantamento que, em muito, contribuem para deixar a plateia boquiaberta, com tanto apelo visual de finíssimo bom gosto.

Os figurinos põem em relevo uma das cenas mais bonitas e ousadas da peça, que é a do baile de máscaras, do qual ROMEU desfruta, na condição de “penetra”. Todos os figurinos são brancos, a cor da paz, com muitos brilhos e bordados, sendo que o único que destoa, na cor, apenas, cinza, por motivos óbvios (era o único indesejável naquela festa), o único “estranho no ninho”, é o de ROMEU, também de um deslumbramento ímpar.

A ideia de transformar um imenso lençol, que cobria o leito nupcial, num esvoaçante e sensualíssimo vestido para JULIETA, é um dos pontos altos deste figurino, que, na maior parte da peça, aparece em tons escuros e pastéis: marrom, bege, cinza e, até, preto, com lugar para os brilhos, dourados e prateados, acompanhados de uma verdadeira “orgia” de requintados bordados, aplicações de rendas e adornos de metais.

Poderia ficar, aqui, dissertando sobre esse importantíssimo elemento da montagem, tentando descrevê-lo, e jamais conseguiria passar, a quem me lê, a emoção e o prazer que causaram aos meus olhos. Confiram!

desenho de luz, criado por MONIQUE GARDENBERG e ADRIANA ORTIZ, a experiência e a soma do cinema com o TEATRO, respectivamente, se encarrega de pontuar, com precisão, cada uma das cenas, de acordo com as necessidades impostas pela situação. A luz dialoga com a cenografia. Os cubos e os demais sólidos se deslocam, muitas vezes, e a luz vai formando sombras, exigidas, para criar um clima de suspense e/ou de perigo, da mesma forma como ganha brilho e intensidade, além de colorido, nas cenas de amor, de felicidade. Para iluminar as passagens de lutas, há uma luz diferente, móvel, que acompanha os bruscos movimentos dos contendores, ampliando-os. A luz encontrada para a cena da noite de núpcias é um achado, de uma lindeza e funcionalidade a toda prova. Corresponde a um bom percentual para o clima da cena. Um belíssimo trabalho de iluminação!!!

Na parte musical, muitos aplausos são direcionados a alguns profissionais. À boa direção musical, de APOLLO NOVE, passando pela excelente seleção das canções que formam a trilha sonora, de responsabilidade de GUSTAVO GASPARANI, com as letras de todas as canções se encaixando perfeitamente nas cenas (É muito importante que fique bem claro que a trilha não é feita, exclusivamente, de canções compostas por MARISA MONTE. A maioria sim, por ela, sozinha, ou com seus parceiros, entretanto a verdade é que as 25 canções são do repertório da consagrada cantora.), chegando aos fantásticos arranjos vocais, da lavra de um dos mais competentes profissionais do ramo, JULES VANDYSTADT, que também fez alguns arranjos adicionais, junto com GABREIEL GRAVINA. Os dois e APOLLO NOVE assinam os arranjos musicais.

Uma característica da obra de arranjador vocal de JULES VANDYSTADT, que me agrada profundamente, pelo trabalho de pesquisa e pelos resultados finais alcançados, é a utilização do chamado “mashup”, que consiste em “misturar duas ou mais canções, normalmente utilizando-se a transposição do vocal de uma música em cima do instrumental de outra, de forma a se combinarem”JULES fez isso, de forma primorosa, em “Beatles num Céu de Diamantes”, completando dez anos em cartaz, este ano, com as canções “Yesterday” e “Let It Be”, dos Beatles; repetiu a dose, em “O Homem no Espelho”, atualmente em cartaz, com canções de Michael Jackson; agora, descobre como utilizar tal recurso, mesclando “Infinito Particular” (Marisa MonteCarlinhos Brown e Arnaldo Antunes) e “Cérebro Eletrônico” (Gilberto Gil)Ficou lindo!!!

As vinhetas, que são utilizadas para dar tempo às mudanças de cenários, são de grande utilidade e bom gosto. A música é fundamental, obviamente, em qualquer espetáculo de TEATRO MUSICAL; aqui, porém, ela ganha um relevo acima das expectativas.

Na sombra da música, vem a coreografia, outro elemento de destaque num musical. Gostei bastante da que vi, assinada por TONI RODRIGUES, que foi bastante parcimonioso, porém competente, no seu trabalho, já que a peça não exigia uma coreografia muito sofisticada. Seu trabalho se faz mais presente na já citada linda cena do baile, na qual TONI abusa dos rodopios e mergulha, de cabeça, na ousadíssima ideia da direção, de inserir um pouco de “funk” num baile medieval. Acreditem que a cena funciona muito bem. E quem está dizendo, eu, é suspeito, pois tenho total aversão a isso a que chamam de música. A brincadeira de GUILHERME, contudo, quebra a pompa do original e vem como uma proposta inovadora e muito interessante.

Para as cenas de luta, a direção contou com o correto trabalho de RENATO ROCHA.

Parabéns, também, merecem o craque FERNANDO TORQUATTO, pelo excelente visagismo, com destaque para os penteados e a “ousadia”, que ficou excelente, na utilização de “dreads”CARLOS ESTEVES, pelo desenho de som; e VICTOR HUGO, pelo desenho gráfico. A propósito, o programa da peça é uma joia, com textos elucidativos e belíssimas fotos. É para ser guardado para sempre, e continuo achando que, nos prêmios de TEATRO, deveria entrar a categoria “programação visual”.

Não me lembro de ter visto, em críticas – nem nas minhas – o nome do/a responsável pela produção de elenco, a pessoa que tem o “faro” certo, para identificar quem pode e deve fazer qual papel. Aqui, o mérito vai para MARCELA ALTEBERG, que tantos serviços já vem prestando ao TEATRO MUSICAL BRASILEIRO.

Gosto de deixar para o final, como a cereja importada do mais decorativo bolo, o elenco, aqui atuante sem a menor restrição, seja por parte dos protagonistas, seja com relação aos demais personagens principais, seja ao que cabe a cada um dos personagens coadjuvantes ou elenco de apoio.

Em primeiro lugar, é fantástica a ideia de escolher, para a protagonista, uma atriz negra, BÁRBARA SUT. Tenho certeza de que não foi para causar discussões, provocar celeumas. Penso que, em primeiro lugar, vem um desejo de mostrar que o AMOR enxerga a alma, não a pele. A cor da pele é um mero detalhe. Mas também serve para esbofetear, com luva de pelica, os preconceituosos de plantão.

BÁRBARA foi escolhida pelo seu potencial de artista, quer como atriz, quer como grande cantora, dona de uma afinação perfeita e uma voz encantadora, sem falar na sua presença de palco. Para a atriz, deve ter sido um grande desafio compor a personagem, já tão “estigmatizada”, no bom sentido, se é que ele existe, como a cândida, ingênua e pura donzela de priscas eras. BÁRBARA encontrou o tom exato da pureza de sua personagem, da verdade do seu sentimento e do destoar, na medida certa, das atitudes e posições de uma adolescente, numa Itália medieval. Impressionou-me o detalhe dos movimentos com as mãos, um recurso que a atriz encontrou para passar toda a delicadeza da personagem. Merece todos os aplausos que lhe são dirigidos, durante o espetáculo e ao seu final.

THIAGO MACHADO é um dos mais completos atores de musicais deste país. Seu currículo é extenso e só comporta grandes espetáculos, em muitos dos quais ele foi o protagonista ou um dos personagens principais. É um grande ator, excelente cantor e dono de um carisma só dele. Ganha a plateia logo na cena inicial, em que atua sozinho, cantando, no proscênio, “Ontem ao Luar”, de Pedro Alcântara Catulo da Paixão Cearense, ainda com as cortinas fechadas. Saber encontrar o tom exato de atuação para ROMEU, assim como já me referi à personagem JULIETA, é um grande desafio para qualquer ator. THIAGO parece ter sido talhado para este ROMEU. É excelente a “química” entre ele e BÁRBARA.

Ator tem cor? Não! Ator tem talento. Acertadíssima a escolha de ÍCARO SILVA, um grande ator negro, para viver MERCUCCIO, um dos principais personagens da trama. Que domínio de cena tem o ÍCARO! Como sabe dizer um texto e como domina a arte de falar só pelas expressões faciais! Grande talento!!!

STELLA MARIA RODRIGUES talvez fosse, do elenco, quem mais cuidado deveria tomar, para que sua personagem não caísse no vulgar ou, no mínimo, no estereótipo do “gaiato”. Já vi muitas atrizes, no papel, sendo ridículas. Isso porque a personagem, AMA, carrega um grande componente de humor, porém tem de ser refinado, não escrachado. STELLA está brilhante no papel, sem falar de seus atributos como cantora, com destaque para um lindo dueto com CLÁUDIO GALVAN.

O humor da personagem não é exagerado e ela, como sempre, cai no gosto do público, por ajudar a “mocinha”. Nesta versão, que, nas entrelinhas, passa toda uma crítica social aplicada aos dias de hoje, cabe espaço para que STELLA, numa determinada cena, cujo teor me escapa, mas a essência não, solta um “NÃO É NÃO!”, bordão que se tornou um termo de resistência contra o machismo, em defesa das mulheres, de grande apelo popular, muito bem proferido pela atriz, e que, merecidamente, arranca muitos aplausos do público.

Já me referi, mais de uma vez, nestes escritos, a CLÁUDIO GALVAN, de quem aprendi a gostar e cujo talento passei a admirar muito desde o inesquecível musical “Império” (2007), de Miguel Falabella e Josimar Carneiro, no qual GALVAN interpretava o pintor Debret. De formação em canto lírico, atuando em óperas, CLÁUDIO também representa, dignamente, todos os personagens que lhe caem às mãos, como já o vi em tantos outros musicais e, agora, muito feliz, o reencontro neste “ROMEU & JULIETA”.

KACAU GOMES faz uma corretíssima SRA. CAPULETTO, submissa ao marido e dedicada à filha. Atriz e cantora das mais requisitadas para musicais, é bastante emocionante a pequena cena em que ela faz um solo “a capella” e quando, também, sola, de modo marcante, acompanhada pelos colegas de cena, “Panis Et Circenses”.

MARCELLO ESCOREL, não tão habituado a musicais, executa uma boa “performance”, como o SR. CAPULETTO. Pode, e deve, se arriscar a outros.

Encantou-me, profundamente, o trabalho de PEDRO CAETANO, como TEOBALDO. Já o vira em outras atuações, em papéis de menor relevância, mas ele já estava por merecer um bom personagem, como o de primo da protagonista. Permito-me, aqui, uma repetição: Ator tem cor? Não! Ator tem talento. E que mal há em escalar um negro numa família de brancos. Achei maravilhosa a ideia, pelo rendimento de PEDRO, em cena, como ator e cantor. E de que linda e potente voz ele é dono! Desde sua primeira aparição de peso, passei a esperar por suas novas cenas. Lindo trabalho!

BRUNO NARCHI, na pele de BENVOGLIONEUSA ROMANO, como a SRA. MONTECCHIO e ELENCOMAX GRÁCIO, o SR. MONTECCHIO e ELENCOKADU VEIGA, o PRÍNCIPE e ELENCODIEGO LURI, PÁRIS e ELENCO; e SAULO SEGRETO, PEDRO e ELENCO, acenam com seus talentos nas cenas em que tomam parte mais diretamente.

Completam o numeroso e talentoso elenco, de 24 atores, todos dando conta de suas funções, FRANCO KUSTERGABRIEL VICENTELAURA CAROLINAHLUCI SALUTESTHIAGO LEMMOSVÍTOR MORESCOGABI PORTOSANTIAGO VILLALBANATÁLIA GLANZ e DANIEL HAIDAR.

Se for analisada “comme il faut”, uma tragédia é “pesada”, principalmente quando os envolvidos, as vítimas maiores, são um casal de adolescentes, os quais morrem por AMOR, entretanto o que se vê, nesta montagem, é de uma imensa leveza, lirismo, poesia, e muitos fatores contribuem para isso.

GUILHERME LEME GARCIA pensou num espetáculo que agradasse aos mais velhos e aos jovens também. Com certeza, atingirá seu objetivo, desde a estreia até o final das temporadas (merece várias e longas). As canções parecem ter sido compostas para o espetáculo. Aliás, ANIELA JORDAN disse isso, a MARISA MONTE, ao final da sessão para convidados, como se MARISA e seus parceiros fossem visionários e pensassem: “Vamos compor isto para ser usado, futuramente, no musical “ROMEU & JULIETA”. Uma das provas disso é quando JULIETA, que só tinha 13 anos, canta a canção “Já Sei Namorar”, querendo demonstrar, com determinação, “já saber das coisas” (“Já sei namorar / Já sei beijar de língua / Agora, só me resta sonhar…” – Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes). Outra é “Panis Et Circenses”, do antológico álbum “Tropicália, da autoria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, uma das canções executadas durante o baile de máscaras.

Outro fator que vai agradar aos “novinhos” é a inclusão de um pouquinho de “funk” (Creiam: isso, no contexto do musical, não constitui uma heresia!), caracterizando uma certa atemporalidade, um ar puxado para o “pop”. Isso pode, até mesmo, se alguém exigir, encontrar uma explicação no desejo explícito de SHAKESPEARE, de escrever para o povo, de ir até o povo. Por que, então, não se aproximar das massas? Chega de “elite teatral”!

O peso de arranjos melodramáticos, mais clássicos, nesta peça, cede à leveza de sons mais atuais, ainda que não sejam abandonados, nos arranjos instrumentais, que utilizam muitas cordas, instrumentos tradicionais, encontrados em orquestras sinfônicas, como uma harpa e, até mesmo, um harmônio, instrumento de difícil execução.

Encontro, aqui, um “gancho”, para falar da excelente banda que atua, às escondidas, sendo mostrada, apenas, na cena do baile de máscaras, formada por CLÁUDIA ELIZEU (maestrina e harmônio)GABRIEL GRAVINA (teclados)ANDRÉ BARROS (violões e bandolim)TÁSSIO RAMOS (baixo acústico)ARTHUR PONTES (violino e viola)FÁBIO MEG (cello acústico)GABRIEL GUENTHER (percussão orquestral) e GELTON GALVÃO (harpa).

Considero “ROMEU & JULIETA” uma obra-prima, que veio trazer um frescor, um pouco de alegria a um povo tão massacrado, como o carioca, por tanto de mal que nos tem acontecido. O musical é uma válvula de escape, para um respirar mais puro. Durante o tempo do espetáculo, o “mundo mau” fica lá fora e, apesar de estarmos assistindo a uma tragédia, constatamos, bem ou mal, a vitória do AMOR.

Obviamente, não poderia faltar uma exaltação à produção do espetáculo – LEME PRODUÇÕES ARTÍSTICAS e AVENTURA ENTRETENIMENTO –, pelo esforço hercúleo que possibilitou a concretização de um sonho, há tanto tempo, acalentado por GUILHERME LEME GARCIA e que encontrou eco na AVENTURA. A produção não mediu esforços para erguer o espetáculo. Foram muitos meses de trabalho diário, da formação do elenco, passando pelos ensaios, até chegar à linda estreia. Um belíssimo trabalho de uma produção que administra os ofícios de mais de uma centena e meia de bravos e competentes profissionais.

Várias traduções existem para a obra, mas termino esta crítica com quatro, que conheço, das que foram feitas para a(s) última(s) frase(s) da peça:

“Uns serão perdoados, outros serão punidos, pois jamais história alguma houve mais dolorosa do que a de JULIETA e do seu ROMEU.”!

“O sol, magoado, não aparecerá, pois nunca houve história tão triste como esta de JULIETA e seu ROMEU!”.

“O amor é dos suspiros a fumaça; puro, é fogo, que os olhos ameaça; revolto, um mar de lágrimas de amantes… Que mais será? Loucura temperada, fel ingrato, doçura refinada!”.

“Jamais história alguma houve mais dolorosa / Do que a de JULIETA e a do seu ROMEU!”.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

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Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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