‘Rio Diversidade’ – nem melhor, nem pior; apenas um grande trabalho: oportuno e feito com amor e competência

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Está em cartaz, no Teatro Ipanema, um excelente espetáculo, em sua terceira temporada no Rio de Janeiro.

Na verdade, é uma experiência teatral, já que se trata de uma ocupação temática, comportando quatro pequenos monólogos, de cerca de vinte minutos cada, intercalados por intervenções de uma “drag queen”, a qual canta, “a capella”, e diz uns pequenos textos, nos intervalos, entre cada “performance”.

Em tempos em que, a despeito de algumas poucas conquistas, ainda nos vemos lutando, diariamente, contra os homofóbicos, os misóginos, os intolerantes, que não conseguem enxergar a legitimidade da diversidade, principalmente de gêneros, e num panorama caótico, em que nos chegam notícias, a toda hora, de pessoas, que “nasceram em corpos errados”, sendo agredidas, física e moralmente, até a morte, desrespeitadas, vilipendiadas, como cidadãos e seres humanos, nada mais importante, construtivo e oportuno do que um grupo de artistas se juntar e propor uma OCUPAÇÃO TEATRAL, que tem como tema a diversidade de gênero e a proposta de discutir sobre ela, sob todos os aspectos.

Isso é o que está esperando por você, que ainda não viu ou que quer rever, o espetáculo “RIO DIVERSIDADE – OCUPAÇÃO FORA DO ARMÁRIO”, em cartaz, até o dia 16 de agosto de 2017, no palco do Teatro Ipanema.

E é bom que se diga que esta ocupação foi indicada a um importante prêmio de TEATRO, no Rio de Janeiro, na categoria “inovação”, “por fomentar a discussão em torno da identidade de gênero, através do TEATRO”.

A ideia da OCUPAÇÃO surgiu depois que, em 2013MARCIA ZANELATTO, idealizadora do projeto, esteve em Londres, para uma mostra de dramaturgia brasileira, a “Red Like Embers”, no Theatre503. Lá, pôde constatar a eficácia da peça curta, formato, até então, pouco explorado no Brasil, e do evento temático, como propulsor de novas dramaturgias, o que serviu de inspiração para montar uma ocupação LGBTQ

O espetáculo, como já foi dito, é dividido em quatro monólogos e será, aqui, comentado e analisado na ordem em que eles foram apresentados, todos girando em torno da diversidade sexual e de gêneros:

“GENDERLESS – UM CORPO FORA DA LEI”

Texto: Marcia Zanelatto

Direção: Guilherme Leme Garcia

Atuação: Larissa Bracher

SINOPSE: A inspiração para este texto veio de um caso real. Em 2010, depois de travar uma luta burocrática contra o Estado da Austrália, NORRIE MAY-WELBY se tornou a primeira pessoa do mundo a ser reconhecida como “sem gênero específico” (genderless).

A partir do fato, a peça reflete, poeticamente, como muito bem sabe fazer MARCIA ZANELATTO, em seus textos, alguns premiados, sobre os gêneros masculino e feminino e os conflitos entre as identidades sexuais e as estruturas sociais.

A abertura do espetáculo já é de causar grande impacto, pela grandeza do texto, de MARCIA ZANELATTO, e a brilhante interpretação de LARISSA BRACHER, que faz o que quer, com a voz e o corpo, sentada numa cadeira, com um “tablet” nas mãos, o que lhe garante 95% da iluminação da cena (os outros 5% vêm de um acanhado canhão). O/A personagem questiona-se, o tempo todo, acerca do porquê de ter “nascido num corpo errado”, e vai relembrando todo o seu sofrimento; primeiro, pela própria aceitação, o que, até, não custou tanto, já que afirma, repetidas vezes, que tinha a certeza daquele “erro genético”; depois, a fase pior, da aceitação alheia, sofrendo “bullying” e toda sorte de discriminação. O minimalismo predomina neste monólogo e é lindamente explorado.

A qualidade do texto, a irretocável interpretação da atriz e a brilhante direção, de GUILHERME LEME GARCIA, levam o espectador a se projetar naquela figura em cena, entendendo e sofrendo por, e com, ela. É o TEATRO, promovendo a reflexão. O objetivo da proposta da OCUPAÇÃO já começa a dar certo. 

“COMO DEIXAR DE SER”

Texto: Daniela Pereira de Carvalho

Direção: Renato Carrera

Atuação: Kelzy Ecard

Assistente de Direção: Pedro Uchoa  

SINOPSE: Uma mulher de meia idade está presa, dentro do “armário-sala”, herança da mãe, que perdera havia 87 dias, simbolizando sua prisão interna.

Durante 20 minutos de exasperação, ela divide, com a plateia, o peso de não ter a coragem de assumir quem é, verdadeiramente, revelando seus pensamentos e desejos mais profundos, reprimidos pela sociedade, ainda nos dias de hoje.

Aqui, o problema tratado é o do arrependimento da personagem, por não se ter permitido ser feliz, por não ter assumido sua sexualidade. Lamenta a felicidade que poderia ter conhecido, relacionando-se, homoafetivamente, com uma antiga colega, professora como ela.

Ela fala, o tempo todo, com um gato invisível (e revolta-se contra ele), cuja identidade acaba sendo assumida pelos espectadores. É conosco que ela fala. E a nós que ela lança, ainda que de forma velada, seu pedido de comiseração.

Uma vida (vida?) perdida, não vivida; uma felicidade jogada na lata do lixo, por falta de coragem.

O monólogo mexe muito com a sensibilidade dos espectadores, quer por identificação com a personagem, quer pela consciência de que, talvez, no lugar dela, tivesse o mesmo comportamento, já que é difícil, para todos, criar coragem e enfrentar os medos e as incertezas.

De qualquer forma, é uma situação muito triste e tão próxima a cada um de nós…

Desnecessário é dizer que KELZY ECARD, com toda a sua experiência de grande atriz, premiada tantas vezes, incorporou a personagem intensamente, contando com uma bela direção, de RENATO CARRERA, apoiada num texto muito bem alinhavado, por DANIELA PEREIRA DE CARVALHO, já tantas vezes premiada, em que a autora não se preocupou em poupar nada nem ninguém, menos ainda apontou possíveis culpados por aquele fracasso.

E continua o TEATRO a provocar o livre pensamento!!!

“A NOITE EM CLARO”

Texto: Joaquim Vicente

Direção: César Augusto

Performance: Thadeu Matos

Assistência de Direção: Breno Motta e Luisa Pitta  

SINOPSE: O autor do texto, JOAQUIM VICENTE, lembra que ainda estava sob o impacto do assassinato do ator e diretor teatral Luiz Antônio Martinez Corrêa, em 23 de dezembro de 1987, quando, numa manhã, um amigo, escritor famoso, chegou, pouco antes das seis horas, à sua casa, contando que havia passado “a noite em claro”, com um assassino, que, talvez, fosse o que estava sendo procurado pela morte do Luiz Antônio.

É essa noite, esse momento, essas angústias que queremos retratar nesta peça, ouvindo todos os envolvidos.

Aqui, um contundente – e verídico – relato foi transformado numa peça, que provoca medo e desconfiança, que alerta para os perigos de “dormir com o inimigo”.

Trata de um assunto tão do nosso dia a dia. Quantas vezes acordamos com a notícia de algum homossexual que, após uma noite de amor, com um garoto de programa, acaba sendo assassinado, muitas vezes, com requintes de perversidade, por seu algoz, geralmente para roubar pertences e bens da sua vítima? Quando não as eliminam, deixam-nas amarradas, amordaçadas e drogadas, por até mais de um dia, apoderando-se daquilo de valor a que tiverem acesso. As estatísticas e os números não mentem.

No caso de Luiz Antônio Martinez Corrêa, a coisa chegou ao extremo da brutalidade. Seu corpo foi encontrado, amarrado de pés e mãos, com um golpe na cabeça, estrangulado e mutilado, com 107 facadas, em seu apartamento, em Ipanema.

O ator THADEU MATOS, com um perfeito “physique du rôle”, para o papel do assassino, é muito mais que um belo exemplar masculino e dá uma verdadeira aula de interpretação, sob a corretíssima direção de CÉSAR AUGUSTO, sobre um texto forte, agressivo, contundente, como não poderia deixar de ser, de JOAQUIM VICENTE. Um texto para ser dito com firmeza, um discurso de ódio, que, na boca e na magnífica interpretação do jovem talentoso THADEU, ganha destaque, insistindo, cinicamente, mas parecendo ser seu real pensamento, em justificar, “legitimamente”, a necessidade de acabar com aquele tipo de “câncer” na sociedade.

E lá vamos nós refletindo mais um pouco! E viva o TEATRO!

“FLOR CARNÍVORA”

Texto: Jô Bilac

Direção e Trilha Sonora: Ivan Sugahara

Atuação: Gabriela Carneiro da Cunha

Assistência de Direção: Beatriz Bertu 

SINOPSE: Numa imaginária sociedade vegetal, uma plantação de soja procura dar um golpe monocultural, o que faz as demais plantas protestarem, em defesa da pluralidade.

Em plenária, a flor carnívora afirma o hermafroditismo das plantas, sua indefinição de gênero, sua intersexualidade, e protesta contra a colonização organizadora do homem, que procura catalogar e normatizar o que a natureza criou diverso.

Um hilário ato de liberdade por “menos transgênico e mais transgênero”.

Fora Soja!

Fica Diversidade!

Apesar de a temática abordada nos quatro monólogos convergir para o campo da aridez, abordando um assunto bastante sério, que precisa, ainda, e muito, ser discutido pelas sociedades, não só a brasileira, este último monólogo, não abrindo mão da seriedade do que trata, parte para uma proposta de, através do humor, cáustico e inteligente, bem próprio de JÔ BILAC, e de um total surrealismo, do “non sense”, tocar as pessoas para uma reflexão sobre a intersexualiadade, utilizando uma genial ideia metafórica, transposta para o universo vegetal.

A partir daqui, o público se sente um pouco mais leve, sem abandonar o pensamento crítico-reflexivo, divertindo-se com a excelente atuação de GARBRIELA CARNEIRO DA CUNHA, dirigida pelo sempre criativo IVAN SUGAHARA.

E a reflexão não diminui por conta da leveza deste monólogo.

O espetáculo poderia ser comparado a um belo e delicioso bolo, cuja cereja é representada por uma “Drag Queen”, MAGENTA DAWNING, personagem criado pelo ótimo ator, diretor e cantor BRUNO HENRIQUEZ, um mestre de cerimônias, que, além de abrir e encerrar a noite, apresenta números musicais durante os intervalos e diz interessantíssimos textos, escritos por ele. Os de agora são bem diferentes, e melhores, que os da primeira versão, completamente ajustados aos dias de hoje.

O cenógrafo DANIEL DE JESUS trabalhou bastante, junto com os diretores, para chegar às excelentes soluções encontradas. Tudo ocorre num mesmo palco, com mudanças de cenários, os quais obedecem a uma espécie de “efeito cebola”, em “camadas”, avançando para o fundo do palco.

Assim, o primeiro monólogo ocorre no proscênio e, como elementos cênicos, apenas uma cadeira e um “tablet”, como já foi dito. E não precisava mesmo de mais nada, tanto em termos de cenário como de iluminação.

Para o segundo, abre-se a cortina e o ambiente é um quarto, ou um “armário-quarto”, dentro do qual a atriz se movimenta. O cenário é fantástico: uma tela gigante, com muitas peças de roupas penduradas, cobrindo-a quase totalmente, três abajures e alguns objetos de cena. Dá a impressão de que, ao fundo, temos uma parede, à qual as peças de roupa são afixadas, mas, na verdade, para a realização do próximo monólogo, tão logo as cortinas se fecham, a tela desce e tudo vira um grande rolo, fácil de sair de cena, para dar lugar à próxima ambientação.

Quanto à luz, não muito forte, com focos sobre alguns detalhes da parede, com a imagem de uma santa.

O cenário mais interessante e impactante, a meu juízo, é o do terceiro monólogo, que utiliza, no meio de outros elementos cênicos, uma mesa com dezenas de facas nela cravadas, uma imagem bastante forte, agressiva e necessária. Aqui, é utilizado o recurso de o ator aparecer, também, em imagens, de ótima resolução, em tempo real. Pouca luz, para um ambiente lúgubre.

No último monólogo, há vários vasos e arranjos de plantas artificiais, pendurados, que se mexem, em movimentos ascendentes e descendentes, criando um clima de vida, que o texto exige. Neste quadro, a luz é mais farta e variada e também é utilizado o recurso de uma câmera, captando imagens da atriz, saindo para a rua, num figurino exótico, misturando-se aos veículos e transeuntes, numa espécie de “happening florestal”.

Já que falei em figurinos, todos assinados, creio, por MÁRCIO MELO, que, na ficha técnica, aparece como responsável pelo visagismo, nada está fora do contexto e funciona a contento.

Absolutamente tudo me agrada, no espetáculo, mas gostaria de fazer dois destaques, que considero muito especiais e fundamentais.

Em primeiro lugar, a ideia de utilizar uma “Drag Queen” como elo entre os monólogos é muito boa, entretanto foi um grande risco que os diretores e a idealizadora do projeto correram. Por quê? Em geral, a figura da “drag” é associada ao ridículo, à imagem quase de um “clown”, que, a rigor, aparece “para aparecer”, querendo ser engraçada e, muitas vezes, sem a menor graça.

A escolha do talentoso BRUNO HENRIQUEZ, na figura de MAGENTA DAWNING foi um achado, perfeita, porque ele inspira credibilidade, desde sua primeira aparição, num traje exótico, exuberante, adentrando o salão, com luzes “de serviço”, encostando-se ao palco e se dirigindo à plateia, com o primeiro de seus excelentes textos. À sua passagem, algumas pessoas parecem se incomodar e trocam comentários. O público ri, mas não debocha, porque ele/ela, logo ao se virar para a plateia, sabe se impor, com graça e inteligência, com humor fino e apurado, com naturalidade, sem apelações e afetações. Figura indispensável na peça!!!

O segundo detalhe, que me deixou extremamente feliz, é que existem “héteros e homos”, no projeto, o que não faz a menor diferença, mas, EM MOMENTO ALGUM, é levantada alguma bandeira a favor da homossexualidade.

A única preocupação é chamar a atenção do público para a necessidade de se respeitar a diversidade de gênero, de compreender que cada um é dono da sua vida e do seu destino e que ninguém tem o direito de não enxergar alguém da comunidade LGBTQ como um diferente. “Somos todos iguais nesta noite”, neste dia, nesta vida, neste mundo…

A peça chama a atenção para a igualdade, que vai gerar uma fraternidade libertadora, a qual desaguará na liberdade de viver, cada um como é ou como escolheu ser.

Emocionado, recomendo muito o espetáculo.

NÃO PERCAM!

FICHA TÉCNICA:

Idealização e Direção Geral: Marcia Zanelatto
Elenco: Bruno Henriquez, Gabriela Carneiro da Cunha, Kelzy Ecard, Larissa Bracher e Thadeu Matos
Direção: César Augusto, Guilherme Leme Garcia, Ivan Sugahara e Renato Carrera
Cenários e Design Gráfico: Daniel de Jesus
Iluminação: Daniela Sanchez e Tiago Mantovani
Design de Som para a peça “Genderless”: Marcello H.
Visagismo: Márcio Mello
Cenotécnico: Renato
Contrarregragem: Renato Barreto e Cristiane Murilo
Técnico de Luz: Anderson Peixoto
Fotos: Elisa Mendes e Juliana Chalita
Vídeo: Diogo Fujimura
Edição de Vídeo: Raquel Diniz
Mídias Sociais: Marina Rattes
Assistente de Produção: Glauco Deris
Produção Executiva: Pedro Uchoa
Direção de Produção: Juliana Mattar
Realização: Transa Arte e Conteúdo
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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