‘rINOCERONTEs’ traz valiosa (e cada vez mais rara) combinação de ótimos texto, direção e elenco

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Dulcina, na Cinelândia, “riINOCERONTEs”, que tem direção de Luiza Rangel, traz um dos textos mais importantes do movimento conhecido posteriormente como “Teatro do Absurdo”. A ótima tradução cênica do já ótimo texto de Eugène Ionesco(1909-1994) nos lembra como é preciosa a combinação de dois elementos fundamentais do fazer teatral do século XX: elenco e direção.

Talvez a mais célebre obra de Eugène Ionesco -, na minha opinião o dramaturgo mais relevante do Teatro do Absurdo e um dos mais importantes do século XX – “Rinocerontes” começa com uma aparição súbita de um rinoceronte em uma cidade. Os cidadãos então discutem se aquele rinoceronte possuía um ou dois chifres, o que o caracterizaria como africano ou asiático. O diálogo surreal desabrocha em poderosa e clara metáfora social: gradativamente, mais rinocerontes aparecem na cidade, e pessoas começam a desaparecer (em ótima cena, ligamos os pontos rapidamente: estes rinocerontes são a população local transformada). O retorno à forma animal é também o retorno a um estado primitivo onde não existem convenções e, assim, somos senhores de nossas próprias ações. O processo de transformação passa por uma escolha, o que é fundamental.

Com cenário, figurino e iluminação simples e consistentes, o olhar recai sobre as atuações e as escolhas cênicas, e é aí que a peça brilha! Merece destaque a transformação de Jean (Davi Palmeira) em rinoceronte, cena que termina com um imenso saco preto passando por cima da plateia, marcando também a tomada de consciência da própria cidade.

Infelizmente, o Teatro Dulcina desfavorece a montagem. O imenso teatro requer uma impostação dos atores que suaviza as nuances de suas partituras vocais e corporais. Também dificulta a apreensão de certas tiradas cômicas pensadas para uma distância menor entre espetáculo e espectador.

Efeito colateral comum e natural da migração entre palcos, a peça é, não obstante, encantadora, divertidíssima e inteligente, além de contundente discussão filosófica e antropológica. Encenação de peso para o belo texto de Ionesco!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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