Quase ‘oitentão’, Antonio Pitanga estreia ‘Filho do pai’ e descarta aposentadoria: ‘Só quando a máquina desligar’

Luiz Maurício Monteiro

Nando Cunha (E) convidou Antonio Pitanga para o espetáculo Fotos: Brown/Divulgação

Como diria Cazuza, numa de suas mais célebres composições, “o tempo não para”. Antonio Pitanga sabe disso, mas parece pouco se importar. A caminho dos 80 anos de idade e 60 de carreira, a serem completados em 2019, este carismático senhor baiano é todo indiferença diante dos efeitos das voltas dos ponteiros, que amedrontam a tantos. Sobre tais datas redondas? Estas também não o impressionam, tampouco o intimidam a seguir sua trajetória profissional, que na próxima sexta-feira (03), às 20h, ganhará uma nova página: o drama “Filho do pai”, que estreia no Sesc Tijuca longe de prenunciar um fim de carreira.

Em entrevista ao RIO ENCENA, Antonio Luiz Sampaio – o Pitanga veio de seu personagem no filme “Bahia de Todos os Santos” (1960) – deixou transparecer três de suas marcas: a leveza e a humildade com que leva a vida; o orgulho de seu passado, que inclui luta por igualdade para os negros; uma completa despreocupação com o que o tempo lhe reserva. E diante desta incerteza, ele prefere ter a sua certeza de que quer seguir vivendo. Inclusive, sem pensar em aposentaria.

Poster do documentário sobre a trajetória do ator (Divulgação)

— Jamais (pensar em aposentar)! Só quando a máquina desligar — brinca o ator, que teve sua trajetória contada no documentário “Pitanga”, lançado em 2017 com direção de Beto Brant e da filha, Camila Pitanga, e terá novamente na Série A do Carnaval carioca 2019 como enredo da Porto da Pedra.

Na película, de 1h50 de duração, o ator, diretor e ex-vereador Antonio Pitanga, casado com a ex-governadora do Rio de Janeiro Benedita da Silva, pai dos atores Camila e Rocco Pitanga, do casamento com a também atriz Vera Manhães, tem sua vida e carreira passadas a limpo. Inclusive suas dezenas de trabalhos no cinema e na TV, além, é claro, do teatro, onde atuou em cerca de 40 espetáculos, história esta que começou em 1960, na Bahia, com “A Morte de Bessie Smith”.

Deste total, os dois últimos trabalhos levaram Antonio Pitanga a experiências opostas. Em 2017, ele esteve em “A Última Sessão” contracenando apenas com outros veteranos, todos acima dos 60 anos. Já em “Filho do pai”, o ator divide o palco com Nando Cunha, que tem quase 30 anos a menos, e é dirigido por Clarissa Kahane, que é 46 anos mais nova. Algum problema em trabalhar com pessoas tão mais novas? Não. Afinal, trata-se do homem para quem o tempo passa despercebido.

Que balanço faz da carreira?
Olhando no retrovisor, tenho um orgulho, um prazer enorme de ter vivido tudo o que vivi. E viveria novamente mais mil vezes. E não foi planejado! Foi nas andanças da vida. Vim de uma época em que inauguramos o movimento estudantil, que começou a entender essa coisa de conscientização política. Nos anos 60, a arte não era bem vista pela sociedade, éramos vistos como marginais. Então, acho que foram muitas conquistas de lá para cá. Quando vejo um negro chegando longe hoje… Na minha época, tinha Ruth de Souza, Grande Otelo e outros. Mas a gente contava nos dedos. Hoje já tem um leque maior. Ainda não paga esta dívida histórica, mas entendo que, mesmo timidamente, há um avanço. Seja na mídia, no teatro, no cinema… Você vê mais negros com mais espaço e vê mais mulheres também. Estas, então, nem eram percebidas naqueles tempos. Então, vejo estes avanços e penso: “que bom que estou vivo para ver isso”. Enfim, sou uma pessoa muito feliz porque estive nos lugares certos, nas horas certas, fazendo parte desses movimentos.

E olhando para frente, fica ansioso ou abismado pensando coisas como “meu Deus, já vou fazer 80 anos de vida e 60 de carreira!”?
Sou como Vinícius de Morais: “morro ontem, nasço amanhã”. Vou vivendo cada dia. Amanhã é só amanhã. Sem neura! Com essa minha maneira de viver a vida, não dá para dizer: “ih! Vou fazer 80 anos. Que peso!”. Não mesmo. Eu continuo trabalhando, esta é minha vida. Trato a vida assim, me vitaminando através do trabalho, das amizades… Acho que é isso que faz com que eu não deixe pesar os 60 ou 80 anos. Não tenho uma formação de contar o tempo. Ele, simplesmente, passa. Estamos no inverno, daqui a pouco vem verão… O tempo é como o vento: passa, faz a curva e volta. Se parar para pensar muito, pode fechar caixão (risos). A cada dia que vou dar minha caminhada, jogar bola, praticar minhas atividades, vejo como um dia a menos de farmácia. Dessa forma, estou alimentando meu intelecto, oxigenando meu cérebro.

Com todo esse gás, não deve pensar em parar de trabalhar em breve.
Jamais! Só quando a máquina desligar. Jogo uma pelada com o Chico Buarque há 40 anos. Ele diz: “Pitanga, você não pode parar, senão todo mundo para”. Como vou parar de jogar, de trabalhar no teatro, no cinema ou na TV se tenho todas estas coisas como desejos? Há uma luz que emana em mim e me deixa inteiro para realizar estes desejos.

E quais são os trabalhos já engatilhados?
Acabo de gravar dois curtas: “Riscados pela memória”, do Alex Vidigal, em Brasília e “Olhos de Cachoeira”. Do Jô Billac, na Bahia. Na semana passada, comecei um seriado na Bahia, chamado “Sonhadores”. Agora, estreio a peça “Filho do pai”, e em seguida começo a rodar o filme “Escravos de Jó”, do Rosenberg Cariry. E para o ano que vem estou preparando minha segunda direção, com Camila Pitanga, Seu Jorge, Lázaro Ramos e outros grandes atores no elenco. É um filme chamado “Malês”, sobre um levante de africanos em 1835, na Bahia. O maior que esse país já viu.

Em 2017, o ator contracenou com outros veteranos em “A Última Sessão” Foto: Renato Mangolin/Divulgação

Sente a rotina de ensaios ou tira de letra?
O documentário “Pitanga” me trouxe para o primeiro plano. Viajei bastante com esse trabalho, porque ele me fez ser lembrado. Então, tenho uns seis ou sete projetos até o ano que vem. Eu poderia estar no esquema conta gota, como acontece com muita gente. Mas não posso, tenho muitas coisas para fazer.

Falando sobre o espetáculo agora, como é a parceria com o Nando?
Muito boa! Ele começou esse projeto há 10 anos e me fez convite. O Nando tem um carinho e uma admiração grande por mim. E isso para mim é um presente, porque ele não tem timidez em revelar essa admiração pela minha postura e pela minha carreira. A gente se parece muito, então ele fazendo meu filho é tudo de bom. É uma coisa muito valiosa, principalmente por serem dois negros em cena, o quê não algo é corriqueiro.

Os atores vivem filho e pai numa relação conturbada

E como é trabalhar tão diretamente com duas pessoas bem mais jovem?
São situações que acontecem e que te fazem agradecer aos deuses. São presentes! Está sendo mais ou menos como quando criei meus filhos. Para entender melhor eles quando crianças, tive que chegar humildemente ao universo deles. Não sou o senhor da verdade por ser mais velho, por ter quase 80 anos. Gosto de ter a nobreza de ser convidado por jovens para entrar nos projetos deles. E a gente troca muito, um bebe na fonte do outro. Não posso ser senhor do meu tempo em 2018, mas meu tempo é hoje, como diria Paulinho da Viola. E Vinícius diria: “meu tempo é quando”(risos).

Para encerrar, o senhor é carismático, alegre, ligado ao samba… Já seu personagem é um cara mais pesado, mais denso. Vocês são muito diferentes?
Ele é o oposto de mim. A proposta da peça é um Hamlet ausente. O filho está ensaiando esse espetáculo de (William) Shakespeare (1564-1616). E o pai, que sempre foi ausente no sentido de não ter sido presente na formação, aparece. Ele gostava de escorraçar o filho, não dando chance a ele, sendo um ditador… E aí tem um momento especial para esse cara descobrir a necessidade de estar desarmado para tentar reconquistar o filho. O que ele vai fazer? Não posso falar. Mas é um desafio para mim interpretá-lo porque ele não é uma leitura da vida, do meu dia a dia, de como criei meus filhos. Ele não é carismático, é azedo.

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