‘Puro Ney’ – Pura emoção. Puro divertimento. Pura música de primeira. Puro talento em cena

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Em quase 400 críticas publicadas, conto, nos dedos das mãos – e há de sobrar dedos – as que não têm, como fundo, a análise de uma peça teatral. E mesmo que assim não o seja, o texto será sempre sobre algo que esteja ligado ao TEATRO, como um artigo ou uma entrevista, por exemplo. Hoje, resolvi ocupar mais um daqueles dez dedos.

Adoro ir ao TEATRO com uma expectativa e sair de lá com ela bem acima da de quando entrei. Isso aconteceu, mais uma vez, há alguns dias, quando fui ver “PURO NEY”, em cartaz no Teatro dos Quatro.

Trata-se de um magnífico e muito bem produzido espetáculo, que poderia ser classificado não como um “musical” nem como um “show”, mas como um SHOW TEATRAL, termo que, se ainda não foi pensado, estou requisitando a ideia de assim classificá-lo. A patente é minha e “ninguém tasca”!

Num país de memória curta, onde não é muito comum se reconhecer e reverenciar, para sempre, os artistas que fizeram a história das artes no Brasil e, também, quando se resolve homenagear um deles é, via de regra, “post-mortem”, é de se louvar um preito tão lindo e merecido a alguém que, do alto dos seus 76 anos, ainda é capaz de eletrizar, com seu talento, uma plateia, por maior que ela seja.

Estou falando de NEY MATOGROSSO, a quem conheci e de quem me tornei amigo, por algum tempo, no início da década de 70, quando ainda se chamava Ney de Souza Pereira e, juntos, trabalhamos, como atores, num musical infantil, que marcou época, “D. Chicote-Mula-Manca e seu Fiel Companheiro Zé-Chupança”, no antigo e saudoso Teatro Casa Grande, espetáculo no qual o D. Chicote era eu e o Zé Chupança era um pobre pastor de ovelhas, vivido por Regina Duarte. Isso foi antes do fenômeno “Secos& Molhados” Quantas boas recordações!!!

                                                                                            SINOPSE

Uma das trajetórias musicais mais impressionantes da música brasileira é levada, pela primeira vez, aos palcos. NEY MATOGROSSO, um dos maiores ícones da MPB, é o tema do musical “PURO NEY”.

Os cantores / atores SORAYA RAVENLE e MARCOS SACRAMENTO, acompanhados por uma banda, apresentam releituras teatrais de 24 importantes canções do repertório do homenageado, divididas em cinco blocos temáticos.

O próprio NEY participa, indiretamente, do espetáculo, em imagens especialmente gravadas e projetadas em cena.

O repertório gravado por NEY, durante a sua descoberta no grupo “Secos & Molhados” e, principalmente, na sua longa e vitoriosa carreira solo já seria um motivo para atrair um público ao Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. Essas belas e emblemáticas canções, com letras fortes e muito significativas, nas excelentes vozes de dois grandes artistas da música e do TEATRO, SORAYA e SACRAMENTO, são um “up grade” a contar, no desenvolvimento de um incontido desejo de ver o espetáculo, que, como já disse, não se trata de um musical nem de um simples show musical.

Nem pensem, também, que irão ver os dois grandes intérpretes cantando “comportadamente” ou tentando imitar a voz ou os trejeitos de NEY. É claro que estes poderão ser reconhecidos, no palco, porém de forma natural, ainda que coreografados, como uma consequência e exigência das letras das canções. Nada, porém, em momento algum, que indique uma imitação.

Extraí, do “release”, que me foi enviado pela assessoria de imprensa (LIÈGE MONTEIRO e LUIZ FERNANDO COUTINHO), e transcrevo um trecho dele, para melhor orientação do público, que, certamente, há de se interessar em assistir ao espetáculo: “Em mais de quatro décadas de luminosa carreira, NEY gravou centenas de canções de nossos mais expressivos compositores, apropriando-se dessas obras e imprimindo uma forte marca autoral às suas interpretações. (…) NEY canta de tudo, sem preconceito de gênero: ele vai de frevos, xotes, toadas e sambas.”

Uma das principais marcas do cantor, além do caráter transgressor, é a sua versatilidade, passeando por todos os ritmos musicais, cantando autores clássicos e lançando novos talentos autorais. Isso equivale dizer que atravessa várias gerações de compositores e flerta com todos os ritmos, dos mais românticos aos mais contagiantes e frenéticos. É um grande “pop star”. Imagino que tenha sido, para o diretor, LUÍS FILIPE DE LIMA, um grande desafio selecionar apenas 24 “hits”, dentre dezenas deles do repertório de NEY.

“PURO NEY” é um espetáculo ousado e empolgante, concebido como um tributo a um artista maior, marcado pela vanguarda e pela transgressão, que, até hoje, arrasta multidões para suas apresentações”, diz SORAYA RAVENLE.

Não há textos, no espetáculo, a não ser os das canções, todos teatrais, por excelência, e um, breve, dito pelo próprio NEY, em vídeo. Ele faz algumas declarações, deixando um pensamento inconcluso, que provoca risos na plateia, a qual se vê “no vácuo”, aguardando a finalização de um pensamento. Isso é bem NEY MATOGROSSO: instiga, provoca e…

SORAYA RAVENLE e MARCOS SACRAMENTO dominam o palco, milímetro a milímetro, segundo a segundo, em 90 minutos, que “voam”, como se fossem apenas dez – fica o gostinho de “quero mais” -, esbanjando sensualidade e ratificando um talento incomensurável. É impressionante a capacidade da dupla de nos surpreender, com uma grata surpresa, após cada canção. Quando as palmas das mãos já estão doloridas, de tantos aplausos, temos de suportar e superar a dor, porque vem mais coisa boa, para ser devidamente aplaudida. Ambos cantam com a voz, os olhos, o rosto e o corpo todo, assim como o homenageado.

LUÍS FILIPE DE LIMA foi felicíssimo na direção do espetáculo. Tenho a impressão de que ele pensava no tratamento que gostaria de dar a cada canção, passava a ideia à dupla de intérpretes e ficava esperando que os dois a concretizassem, sem muita preocupação, por conhecer o material humano sob sua orientação. A direção deste espetáculo tinha mesmo de ficar sob a responsabilidade de alguém de TEATRO, e esse alguém, muito acertadamente, é LUÍS FILIPE.

Além de tudo, assiste-se a um lindo espetáculo plástico, a julgar pela cenografia e pelo videografismo, a cargo dos talentosíssimos e imbatíveis irmãos VILAROCA, RICO e RENATO. Todas as projeções, sobre uma tela fragmentada em cinco pedaços, de formas e tamanhos diferentes, são lindas e inéditas; não há repetições. E todas estão voltadas apara o teor das letras.

E o que dizer da belíssima luz, de PAULO CESAR MEDEIROS? Um trabalho antológico.

Esqueçam os figurinos exóticos usados por NEY e pensem na simplicidade, com bom gosto, de MARCELO MARQUES, que vestiu, sobriamente, de preto, os dois cantores / atores (ou atores / cantores – a ordem das palavras não altera a qualidade). Descalços, SACRAMENTO usa uma confortável calça de malha e uma camiseta, enquanto SORAYA veste uma blusa, com as costas de fora, e uma saia bem rodada, com a metade inferior feita de uma renda, transparente, pondo em relevo sua sensualidade.

Muitos aplausos devem ser dirigidos a LAVÍNIA BIZZOTTO, que assina a direção de movimento e a coreografia do espetáculo.

Um ponto que merece grande destaque, nesta análise, diz respeito aos arranjos das canções e à direção musical. Leia-se: LUIZ FILIPE DE LIMA, a quem não poupo os maiores elogios, por conta das releituras que preparou para cada canção, valorizadas pelos dois intérpretes. São arranjos voltados para uma visão contemporânea, incluindo elementos de música eletrônica.

 “PURO NEY” deve fazer parte da “cesta básica cultural” de qualquer pessoa de sensibilidade, que aprecia a boa música e, raramente, tem a oportunidade de vê-la associada ao bom TEATRO.

Vá assistir ao espetáculo, na certeza de que irá conviver com emoção e divertimento do início ao fim.

Não vejo a hora de revê-lo!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.