Protestos políticos e equilíbrio marcam a 29ª edição do Prêmio Shell; confira fotos e a lista de vencedores

Luiz Maurício Monteiro

Os vencedores do Prêmio Shell posam juntos no palco Foto: Marcelo Gigante

Dos 10 discursos feitos na noite da última terça-feira (14) pelos vencedores da 29ª edição do Prêmio Shell, em cerimônia realizada no Copacabana Palace, ao menos sete escancararam em tom de protesto contra a prefeitura do Rio de Janeiro. O grande alvo foi o Programa de Fomento às Artes da Secretaria Municipal de Cultura, lançado em junho de 2016 pelo então prefeito Eduardo Paes, que claramente não tem agradado à classe artística. No entanto, esse não foi o único fato a chamar atenção no evento que consagrou as melhores montagens encenadas na cidade no ano passado.

Na festa, apresentada pela dupla Gisele Fróes e Edwin Luisi, nenhum espetáculo saiu vencedor em mais de uma categoria, contrariando o habitual nestas premiações, que é uma ou duas produções se destacando com dois ou mais prêmios. Desta vez, nove peças diferentes foram contempladas com a premiação individual de R$ 8 mil, além uma escultura de metal no formato de uma concha (símbolo da Shell) desenhada pelo artista plástico Domenico Calabroni.

Já de posse da concha, muitos usaram seus discursos para protestar. Logo na primeira categoria, a de Melhor Música, Luciano Moreira e Felipe Vidal de “Cabeça [Um Documentário Cênico]” não apenas agradeceram ao grupo Titãs, que serviu de inspiração para a montagem, como também criticaram o atual prefeito Marcelo Crivella e a secretária municipal de cultura, Nilcemar Nogueira.

Já Renato Machado, prêmio de Melhor Iluminação pela peça encenada em locais públicos “Uma Praça Entre Dois Prédios, Próximo de um Chaveiro, Grafites na Parede e uma Árvore”, emocionou os cerca de 300 presentes na plateia dedicando a conquista à mãe, diagnosticada há três dias com uma doença grave. Antes, porém, ele passou a palavra a Tiago Mantovani, que concorria na mesma categoria com “Estudo Para Missa Para Clarice”. Tiago também criticou a prefeitura e falou sobre o Movimentos Pela Cultura – RJ, que reúne artistas a fim de pensar em políticas públicas que levem melhorias à arte e à cultura no Rio e no Brasil.

Ganhadores como Melhor Cenário por “Gritos”, André Curti e Artur Luanda Ribeiro reclamaram também do presidente Michel Temer, arrancando aplausos do público. Vencedor na categoria Inovação, o grupo Rede Baixada em Cena comemorou e desabafou sobre a falta de incentivo à cultura na Baixada Fluminense. Grace Passô, que arrematou o prêmio de Melhor Autor por “Vaga Carne”, não pode comparecer por estar em outra cidade com o espetáculo, mas mandou um discurso no qual também apontava problemas com o programa de fomento.

Os apresentadores da cerimônia Gisele Fróes e Edwin Luisi Foto: Marcelo Gigante

Ganhadora na categoria Melhor Direção por “Auê”, Duda Maia usou um termo que outros colegas de profissão já haviam utilizado para se queixar do programa de fomento: calote.  Já Marcos Caruso, escolhido melhor ator pela atuação em “O Escândalo Philippe Dussaert”, criticou Crivella, falou da atual crise financeira do país, mas também exaltou o teatro e seus profissionais.

– Queria dizer com voz de teatro (sem usar o microfone) que nesta noite me sinto entre pessoas que conheço, que amam e dão o sangue pelo teatro. E ao prefeito: pague o fomento – bradou Caruso, completando: – Obrigado aos jurados e a Shell, por fazer um prêmio há 29 anos. Isso no Brasil é para entrar para o (livro dos recordes) Guiness, porque somos um país sem memória. E a cultura não é para ser cultuada, mas cultivada. Não vou me alongar, mas queria dedicar o prêmio a todos os intérpretes que deram cara a tapa. Foi um ano difícil, em vários aspectos, quase falimos, mas o teatro não vai falir nunca. Fazemos há 2.500 anos e vamos para 10.000. Continuamos nessa resistência. Estão nesse prêmio todos os atores, porque foi difícil colocar público no teatro neste ano, e conseguimos manter o teatro vivo.

Já Vilma Melo, melhor atriz por “Chica da Silva – O Musical”, protestou, mas também usou seu discurso para enaltecer os artistas negros.

– Estou muito emocionada por nunca ter sonhado estar nesse lugar. Na condição de atriz negra e suburbana, nunca pensei. Mas a gente não está aqui para competir e, sim, para celebrar. Queria agradecer ao júri, a Shell, às outras atrizes que concorreram na categoria… E se estou aqui hoje é porque o trabalho é coletivo. Num ano difícil, de calote, o (produtor do musical, Alexandre) Lino teve a coragem de montar um espetáculo com uma negra. Agradeço a meus colegas de cena, o diretor Gilberto Gawronski, a autora Renata Mizrahi, meu marido, filhos…  E agradecer também a todas as Chicas negras da Silva deste país- encerrou Vilma, que mencionou também outras atrizes negras, como Taís Araújo, Neusa Borges, Isabel Filardis e outras mais.

Por fim, a homenagem, em vez de um artista específico, foi feita a um coletivo: o Grupo Galpão, por sua trajetória de 35 anos na cena teatral brasileira.

O júri da premiação foi formado por Ana Achcar, Ana Luisa Lima, Bia Junqueira, Macksen Luiz e Moacir Chaves. Confira abaixo a relação completa dos ganhadores:

Melhor Música
Luciano Moreira e Felipe Vidal por “Cabeça [Um Documentário Cênico]

Felipe Vidal (com microfone) e equipe” Foto: Marcelo Gigante

Melhor Iluminação
Renato Machado por “Uma Praça Entre Dois Prédios, Próximo de um Chaveiro, Grafites na Parede e uma Árvore”

Renato Machado Foto: Marcelo Gigante

Melhor Figurino
Luiza Fardin por “Se eu Fosse Iracema”

Luiza Fardin Foto: Marcelo Gigante

Melhor Cenário
André Curti e Artur Luanda Ribeiro por “Gritos”

Artur Luanda Ribeiro e André Curti Foto: Marcelo Gigante

Inovação
Rede Baixada em Cena pelo movimento de discutir a criação e o poder de mobilização de 18 coletivos de 13 cidades da Baixada Fluminense

Rede Baixada em Cena Foto: Marcelo Gigante

Melhor Autor
Grace Passô por “Vaga Carne”

Grace Passô, de “Vaga Carne”, foi representada por uma colega de equipe Foto: Marcelo Gigante

Melhor Direção
Duda Maia por “Auê”

Duda Maia Foto: Marcelo Gigante

Melhor Ator
Marcos Caruso por “O Escândalo Philippe Dussaert”

Marcos Caruso Foto: Marcelo Gigante

Melhor Atriz
Vilma Melo por “Chica da Silva – O Musical”

Vilma Melo Foto: Marcelo Gigante

Homenagem
Grupo Galpão pela trajetória de 35 anos na cena teatral brasileira

Grupo Galpão

Confira outros cliques da festa:

Igor Angelkorte Foto: Marcelo Gigante

 

Marco Nanini Foto: Marcelo Gigante

 

Fernanda Nobre Foto: Marcelo Gigante

 

Lionel Fisher Foto: Marcelo Gigante

 

Débora Bloch Foto: Marcelo Gigante

 

José Loreto (E) e Otto Jr. Foto: Marcelo Gigante

 

 

Regiane Alves Foto: Marcelo Gigante

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