Protagonista Flávio Bauraqui comenta identificação de negros com musical ‘Cartola’: ‘Se sentem representados’

Luiz Maurício Monteiro

A caracterização de Flávio em Cartola leva aproximadamente 30 minutos Foto: Divulgação

Desde que estreou “Cartola – O Mundo é um Moinho” no último dia 16, no Teatro Municipal Carlos Gomes, Flávio Bauraqui só fez confirmar uma impressão que já trazia desde a temporada em São Paulo no ano passado. Do palco, ao lado de outros 16 atores, o protagonista, de 51 anos, nota uma considerável presença de negros na plateia. Em entrevista ao RIO ENCENA, ele creditou este fato à pegada de empoderamento dos negros que a peça emprega a partir da figura de Angenor de Olvieira (1908-1980), o Cartola, um dos maiores compositores do samba brasileiro e fundador da escola de samba Estação Primeira de Mangueira.

– Por onde passou e por onde ainda vai passar, este é um espetáculo que toca nas pessoas. Tanto em São Paulo quanto no Rio, os negros choram, se emocionam, se sentem representados – destaca Flávio, que deve seguir em turnê por mais cinco capitais brasileiras depois que a temporada carioca acabar, a princípio, em 27 de maio.

“Cartola – O Mundo é um Moinho”, cujo título faz referência a um dos maiores clássicos do sambista, chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez depois de uma boa temporada em São Paulo, onde fez 30 apresentações e foi assistida por cerca de 27 mil espectadores. Idealizado por Jô Santana, o projeto conta com nomes de peso em sua construção. A pesquisa foi de Nilcemar Nogueira, atual secretária de cultura da prefeitura e neta de Cartola e de sua companheira de 26 anos Dona Zica (1913-2003); o texto de Artur Xexéo, a direção de Roberto Lage; direção musical de Rildo Hora; e composição original de Arlindo Cruz e Igor Leal.

Assim como na capital paulista, o espetáculo receberá por aqui um cantor convidado toda quinta-feira para uma roda de samba no teatro. Até o fim da temporada, são esperados artistas como Jorge Aragão, Leci Brandão e o próprio Arlindo Cruz, entre outros. Já aos domingos, a montagem recebe as Velhas Guardas das escolas de samba do Rio.

Figura central desse verdadeiro carnaval no palco, Flávio, que leva aproximadamente 30 minutos para se caracterizar em Cartola, não está vivendo o sambista pela primeira vez. Em 2004, já o havia interpretado num outro espetáculo e dois anos depois voltou ao papel na minissérie “JK”, da TV Globo. Tais experiências, claro, o ajudaram nessa nova empreitada, mas ele faz questão de ressaltar que preferiu chegar, como se diz na gíria do sambista, no sapatinho, a fim de começar no mesmo patamar dos colegas de elenco. Saiba mais na entrevista abaixo:

Como foi a preparação para o personagem? Já curtia Cartola ou conhecia a história dele?
A construção vem desde 2004, quando ganhei de presente uma peça sobre vida do Cartola. Depois fiz uma turnê com a Beth Carvalho, uma participação na minissérie “JK” (TV Globo, 2006) e inaugurei o Centro Cultural Cartola. Depois disso, parei e voltei com essa produção, que nada tem a ver com aquela. A Nilcemar, sabendo do projeto, me indicou, porque para ela, a única pessoa que poderia fazer o Cartola, seria eu. E o que fiz foi dar uma zerada, para não chegar achando que já sabia tudo. Fui relembrando tudo com o elenco, porque teatro é feito em conjunto. E com a humildade do Cartola, não caberia um tipo de comportamento assim. Mas lá em 2004, comecei com pesquisa de imagens, ficava olhando a mesma foto milhões de vezes, depois adaptei a voz, que a dele é mais aberta e a minha, grave. Teve o trabalho do andar, como segurar o cigarro… Claro que maquiagem e figurino ajudam a compor. E, por fim, a troca com a atriz que faz a Dona Zica, porque tem que ter essa troca. Tem que funcionar junto com o elenco.

O espetáculo tem duas horas e meia de duração. É cansativo?
Não sei porque não assisto (risos). Para fazer é um prazer. O importante é que estamos contando uma história. Bom, as pessoas ovacionam e até voltam. Tem gente que já foi sete vezes em São Paulo e veio no Rio também. Lotamos lá e aqui estamos indo super bem. É uma questão de costume. Eu já vi peça de cinco horas de duração. O público é uma parte da mandala que é o espetáculo. E a mandala só acontece com essa troca.

Cartola em sua casa em Jacarepaguá, em 1978 Foto: Projeto Pixinguinha/Divulgação

Você falou sobre a temporada em SP. Sentiu diferença entre os públicos de lá e de cá?
São tipos bem diferentes. Existem muitos fatores que eu talvez não saiba dizer agora. Mas o público de São Paulo tem uma relação diferente com o teatro. Eles gostam muito, e não que o público do Rio não goste. Mas a reação das pessoas lá é vibrante. Como o Cartola era do Rio, algumas piadas na peça nem sempre eram entendidas lá. Mas ele é um ídolo nacional, não é?

E qual sensação que você tem do público em geral? É mais o pessoal ligado a samba mesmo ou é eclético?
Em São Paulo, via um número grande de negros. E no Rio está acontecendo da mesma forma. Acho que é um espetáculo que atrai a todos os brasileiros, atende a todo mundo. Além da divulgação da mídia, o boca a boca é importante porque trata-se de um espetáculo popular. Pessoas mais velhas levam os netos e os filhos, até pessoas que não sabiam exatamente de quem se tratava, mas foram ao teatro. Sinto que a cada vez que olho, vejo perfis diferentes na plateia. Por exemplo, teve um dia que foi um grupo de crianças da Ilha da Gigoia, e uma menina negra olhou pra mim e falou: “O negão chegando no pedaço” (risos). Esta é uma frase que simboliza muito, porque ela está se reconhecendo em mim, e na possibilidade de assistir a um artista que ela nem sabia quem era, mas se identificou. Quando a menina fala “negão”, está se referindo a mim, ao Cartola e a ela mesma.

No material de divulgação, o Jô Santana, idealizador do projeto, diz que o espetáculo ganhou proporções maiores do que apenas uma peça e se tornou uma grande ação de empoderamento dos artistas negros do país. Você sente a mesma coisa?
Por onde passou e por onde ainda vai passar, este é um espetáculo que toca nas pessoas. Tanto em São Paulo quanto no Rio, os negros choram, se emocionam, se sentem representados. Mídia é uma coisa, peça é outra. A mídia está falando, abraçando. Outra coisa é você assistir à peça e sair tocado. Realmente, deixou de ser uma peça e virou um movimento, porque todo mundo que vai assistir entende que não é só entretenimento, mexe com outras coisas, como ocupar espaço nas cadeiras e no palco. Serve como incentivo. Outros musicais até tocam nesse ponto, mas “Cartola” talvez tenha alcançado um espaço maior nesse sentido.

O espetáculo é mais para cima e alegre, mas também tem momentos de emoção pela memória do personagem? Tem essa mescla?
Sim, uma mescla de um pouco de cada coisa. Não é todo cor de rosa e nem um inferno total. Tem o bom humor, que as pessoas riem e aplaudem, e tem a cena em que o sapato vai apertando. Ele já num momento não tão feliz, saindo da Mangueira, se sentindo fora de um espaço que ajudou a criar. Uma trajetória que não é só alegria. E uma coisa importante de falar é que o teatro brasileiro é muito amplo, diverso, e a palavra “musical” não pertence a um país, porque o ser humano é musical. E nosso espetáculo não é esse musical que há muito tempo chegou ao Brasil, com aquela fórmula, com músicas diferentes. Nosso musical é brasileiríssimo, é Cartola, tem uma pegada que tem a ver com Chiquinha Gonzaga, com teatro de revista. É todo para cima, até nas cenas melancólicas. E é legal resgatar esse gênero brasileiro.

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