‘Profetas da Chuva – Chico Mariano e Paroara’ recupera o preciosismo no teatro (e na vida)

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“Profetas da Chuva – Chico Mariano e Paroara” joga luz sobre o ofício de mesmo nome. A peça tematiza dois homens,Chico Mariano e Paroara, sábios que são consultados no interior do Ceará por sua capacidade de prever o tempo. No pequeno Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, Isaac Bernat, que assina a direção, Clara Santhana e Paulinha Cavalcanti, as atrizes, nos lembram a beleza do preciosismo no teatro.

O espetáculo é uma conversa com a plateia. Nesta conversa, não existe um gesto, um olhar, uma pausa fora de lugar! Isto tem um valor imensurável, por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque é uma prática em desuso no Rio de Janeiro, salvo grupos especialmente dedicados ao teatro físico, e que mesmo assim enfocam apenas um aspecto do que estou falando.

Em segundo lugar, porque os homens retratados não são figuras conhecidas da maioria da população. Ou seja, não se trata de uma caricatura, de realçar um ou outro trejeito que provoque o reconhecimento do espectador, mas de fato de uma tradução cênica de um indivíduo, uma (re)construção completa de uma personagem em cena.

Em terceiro, porque a realidade pintada é aquela de um Brasil muito distante de nós. Distante porque não olhamos para ele, os meios de comunicação não nos falam dele. É, no entanto, uma realidade pulsante para quem vive na região. A peça instaura esta realidade e sua pulsação (sua importância local, ritmo, humor, etc.).

Em quarto lugar, porque a peça se compõe de relatos destes homens: lembranças, histórias pessoais, brincadeiras, explicações sobre como preveem a chuva que virá, ajudando assim a todos aqueles que vivem da terra. Sem uma narração extremamente interessante e envolvente, a peça não “aconteceria”; simples assim. Não veríamos a beleza destas figuras e de seu ofício. E vemos! Vemos, aliás, cada uma de suas pequenas emoções e prazeres.

O cenário, como aquele de contadores de histórias, é composto por uma mesa e duas cadeiras ao fundo do palco, e o resto é espaço vazio. Acolhedor, e que permite infinitas possibilidades às atrizes. Tudo a ver com a proposta. Vale destacar que sobre a mesa há uma garrafa e copos de cerâmica, bem ao estilo interior nordestino, e dentro da garrafa tem cachaça (de verdade!) que é oferecida ao público.

Diante do que foi dito até aqui, pouco tenho a acrescentar sobre as atrizes… Clara Santhana e Paulinha Cavalcanti são as agentes da transformação do espaço Cândido Mendes em uma cidade longe, longe… “de interior”, mas também “central” em seu contexto. Para além disso, personificam (com voz, postura, lentidão, tudo que têm direito) dois homens e seu ofício, nos mostrando quem são os profetas da chuva.

Só olhar para esta realidade já é um ato louvável, a meu ver. Ter a capacidade de retratá-la, de aproximá-la de nós, e de instaurar sua pulsação em um palco do Rio de Janeiro, é de uma importância nacional que não consigo (nem tenho espaço e nem seria este o lugar) descrever aqui. Independentemente do que acrescenta para a reflexão sobre nosso teatro e país, “Profetas da Chuva” é um espetáculo maravilhoso!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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