Produtores criticam edital para residência de teatros municipais e pedem cancelamento: ‘Um absurdo por si só’

Luiz Maurício Monteiro

O edital visa à residência de seis teatros da rede municipal Fotos: Divulgação

Lançado na última terça-feira (12) pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o novo edital de seleção para residência artística de seis teatros da prefeitura continua repercutindo entre produtores culturais. E de forma extremamente negativa! Tanto que na quinta (14), muitos deles estiveram no Circo Voador, na Lapa, para uma reunião – que contou com a participação do Conselho Municipal de Cultura – cujo resultado foi o pedido de suspensão da publicação e a extensão das atuais residências, que terminam em 1º de março. A fim de saber os pontos que mais os indignaram, o RIO ENCENA conversou com dois representantes da classe.

Neste edital, a SMC apresentou um novo modelo de residência com modificações em relação ao que vinha sendo praticado nos anos anteriores. A ideia seria “democratizar o acesso de agentes culturais e artistas aos palcos da rede municipal de teatros”, que neste caso, seriam Teatro Serrador, Teatro Ipanema, Espaço Cultural Sergio Porto, Teatro Ziembinski, Sala Baden Powell e Teatro Café Pequeno. O problema é que os próprios produtores não viram desta forma, apontando como uma das principais razões para tamanha insatisfação, a concorrência que terão de empresas maiores, que não são da área da cultura.

— A reunião foi pesada pela revolta das pessoas. Como assim teremos a privatização de espaços públicos? Empresas que não são de cultura podem ganhar e usar o teatro somente três dias na semana. E no restante, fazem o quê quiserem. Fora a questão do aporte financeiro. O Imperator e o Museu do Amanhã, por exemplo, têm. E os teatros que fazem peças pequenas, não. Como assim? Mas terminamos (o encontro) com o (vereador do Psol) Tarcísio Motta propondo suspender o edital. Vamos mandar para a secretaria uma carta solicitando o cancelamento. Vão responder na segunda (18) — diz Isabel Gomide, produtora com 10 anos de experiência, passagens pelas administrações do Espaço Sergio Porto, Sesc Ginástico e Teatro Glaucio Gill, e integrante dos movimentos Mater e Reage Artista.

O pivô da discórdia, o edital foi lançado pela então secretária Nilcemar Nogueira, que anunciou na quinta que está deixando o cargo para assumir o projeto do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira. Em seu lugar, assumiu Mariana Ribas, que pode ser um ponto a favor dos produtores no cancelamento do edital. Nilcemar, aliás, foi alvo da ira dos produtores na reunião na Lapa.

— Ela (Nilcemar) comprou uma guerra com a classe, mexeu num vespeiro. A gente já perdeu tudo, esta secretária incompetente nos tirou tudo. Foi o fomento, e, agora, quer tirar teatros. Não vamos deixar — reclama Joelson Gusson, à frente da residência do Sérgio Porto desde 2010 e um dos mais ferrenhos críticos da SMC nas redes sociais.

Joelson Gusson e Isabel Gomide querem o cancelamento do edital recém-lançado Fotos: Reprodução/Facebook

Ainda sobre a concorrência com empresas privadas, Joelson acredita que desta forma, o trabalho dos produtores que já trabalham há anos na área acaba sendo desvalorizado.

— A prefeitura pega um equipamento público e dá na mão de uma empresa privada para ela fazer o que quiser. Ela vai ganhar dinheiro, e a prefeitura paga a conta com equipamentos, ar condicionado, corpo técnico…. É um acinte porque, assim, eles julgam que nosso trabalho é nada, quando, na verdade, é enorme, porque lidamos diariamente com um público exigente — ressalta.

Outra questão que incomodou bastante foram os períodos estipulados na publicação. Os proponentes terão que inscrever suas propostas no próximo dia 20, ou seja, pouco mais de uma semana após o lançamento no Diário Oficial. Além disso, a residência terá duração de apenas seis meses, que, segundo a secretaria, é o tempo ideal para avaliar o êxito ou não das modificações feitas em relação ao modelo que vinha sendo utilizado.

— Eles tiveram dois anos de trabalho para lançar o edital que ficamos 10 anos discutindo, e não fizeram. Esperaram até os 45 minutos do segundo tempo par lançar este modelo e dizer que existe um edital. Isto é só para os teatros não fecharem. É uma jogada! — supõe Joelson, completando: — Essa coisa de seis meses não é uma experimentação de coisas novas. É só mesmo porque os teatros acabariam fechando. Este edital é um absurdo por si só.

— É preciso mais tempo para se desenvolver uma residência, que é um projeto de desenvolvimento de uma forma de ocupação. Do jeito que está sendo proposto, teremos apenas meras ocupações e não uma residência artística de verdade — critica Isabel.

Em sintonia, os agentes culturais têm pontos de vista distintos apenas em relação a uma das modificações propostas. A partir deste ano (caso o edital não seja derrubado), não haverá mais a necessidade de que o residente escolhido tenha um capital social igual ou superior a 10% do valor total da licitação, algo em torno de R$ 100 mil. Isabel crê que tal medida seja vantajosa. Joelson, não.

— Isto já era uma situação polêmica porque só empresas muito grandes poderiam fazer. Era preciso ter um capital de giro absurdo. Agora, até um MEI (Microempreendedor Individual) pode entrar. Mas esta é a única vantagem que vejo. Ainda vamos discutir o formato — pondera Isabel.

— Isto seria positivo se fizessem um edital com dinheiro. Mas, sem dinheiro, em qualquer situação, não existe exigência de capital. Não é nada maravilhoso, estão só usando um dispositivo da lei. Quem espalha esta notícia é um jumento. Quero ver fazer isto quando tiver dinheiro no edital. Aí os pequenos produtores vão poder concorrer — encerra Joelson.

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