‘Pressa’ – Um ótimo texto, um drama que nos faz rir; mas do quê?

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

No ano passado, bem no início de setembro, assisti a um espetáculo, no penúltimo dia da temporada e, simplesmente, o adorei. Não fazia sentido escrever sobre a peça, ao apagar dos últimos refletores. Preferi, então, aguardar que voltasse ao cartaz, o que me fora prometido, sem data prevista, para ter o prazer de assistir a ela novamente e, então, tecer comentários sobre o que vi. E é o que estou fazendo agora. Demorou um bom tempo, quatro meses, mas, para a alegria de quem gosta do bom TEATRO, ele está de volta.

O espetáculo chama-se “PRESSA” e revi-o, na nova temporada, na sessão para convidados, na última 2ª feira, com três ótimas substituições no elenco, no Teatro Gláucio Gill.

Trata-se de uma peça inédita, texto indicado a Prêmio Botequim Cultural, do autor e ator paulistano OCTÁVIO MARTINS, confiado à COMPANHIA OS FODIDOS PRIVILEGIADOS, uma das mais conceituadas e consagradas companhias cariocas, nascida, há 26 anos (1991), fundada pelo saudoso e genial Antônio Abujamra, reunindo cerca de 30 atores, inicialmente, sediada no Teatro Dulcina, com bastantes atores jovens. Eles carregam, em sua linguagem, o espírito debochado, o rigor formal e a racionalidade de seu fundador.

Muitos elementos da antiga formação da COMPANHIA estão, até hoje, inseridos nela ou fazendo trabalhos por fora. Um dos grandes esteios dos FODIDOS é JOÃO FONSECA, que passou a liderar o grupo, com o gradual afastamento de AbujamraJOÃO dirige, desde então, todos os espetáculos do grupo, inclusive este “PRESSA”, ao lado do consagrado cenógrafo NELLO MARREZE, que se revela um excelente diretor, como debutante na função.

No ano passado, bem no início de setembro, assisti a um espetáculo, no penúltimo dia da temporada e, simplesmente, o adorei. Não fazia sentido escrever sobre a peça, ao apagar dos últimos refletores. Preferi, então, aguardar que voltasse ao cartaz, o que me fora prometido, sem data prevista, para ter o prazer de assistir a ela novamente e, então, tecer comentários sobre o que vi. E é o que estou fazendo agora. Demorou um bom tempo, quatro meses, mas, para a alegria de quem gosta do bom TEATRO, ele está de volta.

O espetáculo chama-se “PRESSA” e revi-o, na nova temporada, na sessão para convidados, na última 2ª feira, com três ótimas substituições no elenco, no Teatro Gláucio Gill (VER SERVIÇO.).

Trata-se de uma peça inédita, texto indicado a Prêmio Botequim Cultural, do autor e ator paulistano OCTÁVIO MARTINS, confiado à COMPANHIA OS FODIDOS PRIVILEGIADOS, uma das mais conceituadas e consagradas companhias cariocas, nascida, há 26 anos (1991), fundada pelo saudoso e genial Antônio Abujamra, reunindo cerca de 30 atores, inicialmente, sediada no Teatro Dulcina, com bastantes atores jovens. Eles carregam, em sua linguagem, o espírito debochado, o rigor formal e a racionalidade de seu fundador.

Muitos elementos da antiga formação da COMPANHIA estão, até hoje, inseridos nela ou fazendo trabalhos por fora. Um dos grandes esteios dos FODIDOS é JOÃO FONSECA, que passou a liderar o grupo, com o gradual afastamento de AbujamraJOÃO dirige, desde então, todos os espetáculos do grupo, inclusive este “PRESSA”, ao lado do consagrado cenógrafo NELLO MARREZE, que se revela um excelente diretor, como debutante na função.

SINOPSE

 

“PRESSA” é uma peça tem uma dramaturgia moderna, provocadora, não linear, fragmentada e bastante dinâmica, com cenas curtas e entrecortadas, as quais focam personagens marcados pela brutalidade e achatamento, o que determina suas ações, mantendo-os aprisionados na lógica absurda do imediatismo alienante que encobre a amoralidade, a corrupção e a falta de escrúpulos nas relações e nos discursos da vida cotidiana.

A peça aborda relações pessoais, afetadas pela urgência. Quem não tem pressa na concretização de um aborto, por exemplo? Ou na procura de um tratamento para um paciente soropositivo?

São quatro histórias, com onze personagens, que têm suas trajetórias cruzadas, por questões que demandam uma solução de curto prazo.

Por trás da lógica absurda do imediatismo alienante, estão a amoralidade, a corrupção, a falta de escrúpulos, a brutalidade e a perversão, nas palavras e nos atos.


Pela curta sinopse, conseguimos sentir, no ar, mesmo antes de assistir à peça, um “cheirinho” de Nelson Rodrigues no pedaço. Não é só impressão olfativa. Para escrever este texto (Ele tem outros, tão excelentes quanto; “Caros Ouvintes” é um deles.), OCTÁVIO demonstra ter bebido naquela fonte e ter assimilado o que de melhor possa ser extraído da vasta obra rodriguiana, da qual, nunca fiz segredo, não sou fã, gostando apenas de poucas de suas peças.

O fato é que o universo de Nelson está vivo, em “PRESSA”. Seus personagens parecem ter ressuscitado e lá estão, misturando características pessoais de vários deles, comuns a tantos de sua galeria de bizarrices.

O que mais marcante se faz, no excelente texto, é o caráter amoral de cada um, até mesmo daqueles que fingem lutar contra as tentações.

Considero perfeita a carpintaria teatral empregada por OCTÁVIO, que consegue entrelaçar histórias, situações díspares, que acabam convergindo numa só, praticamente. Todos estão presos a uma teia, à mesma teia, inteligentemente construída pelo dramaturgo, da qual não conseguem se livrar, se é que tal desejo possa ter passado, verdadeiramente, em algum momento, pela cabeça de algum dos personagens, todos muito “doentes” ou “doentios”, do ponto de vista psicológico e moral.

A insanidade perversa permeia todos e gera situações absurdas, verdadeiros atentados ao que seria de se esperar do comportamento e das relações entre seres “ditos” humanos.

texto mexe muito com a sensibilidade do espectador e, apesar de ser um drama, provoca risos, até gargalhadas, para o que, na verdade, não há motivos. Rimos de nervoso, tensos, com o desenvolvimento gradual da trama. Rimos do patético, do inusitado e, até mesmo, do ridículo.

Segundo o “release”, que me foi enviado por FILOMENA MANCUZO, a qual também atua na peça, “o texto trata de um universo caótico e em transformação, de como as pessoas são capazes de se alienar e se corromper, num mundo cada vez mais ‘selfie-ish’ e ‘globalizado’”.

O espetáculo fez uma boa carreira, durante sua primeira temporada, e promete repetir a dose, na atual, em função de sua qualidade, como entretenimento e fonte de reflexão para uma análise dos tipos humanos com os quais nos deparamos, no dia a dia. Todos nós somos, em parte ou por inteiro, um daqueles personagens; ou temos alguém, na família, parecido com algum deles; ou conhecemos ou já ouvimos falar de alguém, pelo menos, que nos lembre um dos que estão em cena.

O humor ácido e cruel do texto é um convite a que não pisquemos durante a montagem, bastante dinâmica e fruto de uma inteligente e criativa direção, como uma história em quadrinhos ao vivo, que conta com um elenco bastante entrosado, com excelentes atores, daqueles que estão sempre levantando a bola, para um outro matar no peito e estufar a rede. Tudo partindo de jogadas muito bem ensaiadas, nos treinos. O resultado é uma goleada.

Não sei, nem tenho interesse em saber, proporcionalmente, o quanto há do dedo de JOÃO ou de NELLO neste trabalho, a quatro mãos, de direção. Aquele, um consagrado diretor; este, um iniciante na função, como já dito. O que importa é o grande entrosamento que há entre os dois, na condução do trabalho, não fossem eles companheiros de palco de longos anos, JOÃO como excelente diretor e NELLO como grande cenógrafo. A dobradinha sempre deu certo. Agora, os dois se renovam: JOÃO também volta a atuar, o que faz bissextamente, e NELLO aposta no grande desafio de dirigir. O resultado é ótimo!

Os palcos do Teatro Sesc Tijuca e o do Teatro Gláucio Gill, salvo engano, têm quase as mesmas dimensões (Espero não estar cometendo um grave erro de percepção visual.) e um dos pontos fortes da direção é saber valorizar e ocupar a dimensão dos dois espaços, o conhecimento da realidade espacial, entrecortando as cenas e fazendo os personagens se deslocarem, sem interferir no que está acontecendo sob os focos; ou seja, o que está em segundo plano também importa, sem atrapalhar o que é, num determinado momento, eleito para chamar a atenção do público.

Como em tantos outros espetáculos encenados pelos FODIDOS, o cenário (leia-se NELLO MARREZE) é um elemento que é mais funcional que estético, econômico, nos elementos, mas sempre funcionando muito bem. Em “PRESSA”, só há uma cortina, ao fundo, feita com grandes lenços, ou algo parecido, emendados, em tons predominantemente escuros, pendendo do teto, lado a lado, como se fosse uma enorme persiana vertical. No mais, algumas cadeiras, utilizadas quando o palco não está totalmente nu. A “dança de cadeiras”, a utilização, à farta, desse tipo de móvel, é uma constante, nas direções de JOÃO FONSECA, sempre com excelentes resultados. Servem, também, para que os atores que não estejam em cena aguardem suas deixas, sentados, nas duas coxias aparentes.

Os figurinos, de VICTOR GUEDES, são meios atemporais, difíceis de serem catalogados como pertencentes a uma determinada época ou estilo. Poderíamos dizer que são vestes do dia a dia, adequadas aos personagens, mais para a contemporaneidade, sem exageros nem grandes destaques.

iluminação, a cargo de LUIZ PAULO NENEN E TIAGO MANTOVANI, é um elemento muito explorado e importante, neste espetáculo, uma vez que, como há vários atores ocupando o espaço cênico, com cenas rápidas, curtas e alternadas, o desenho de luz tem de ser muito dinâmico, com focos alternantes, exigindo muita atenção do operador da mesa, o que pode gerar algum ligeiro problema, como um, pontual, ocorrido na sessão que estou analisando. Nada que comprometesse o espetáculo, mas que me serve de motivação para elogiar a sagacidade das duas atrizes em cena, naquele momento, RAFAELA AMADO e MARIAH VIAMONTE, que, percebendo a pane, correram para um único foco de luz, que ficou à frente do palco, num dos cantos, quando a cena se dava no meio deste. Corrigido, quase instantaneamente, o problema, ambas voltaram para as suas marcas, com a maior naturalidade, sem deixar a cena “cair”, “e la nave va”.

JOÃO FONSECA assina a agradável trilha sonora, adaptável às cenas.

Quanto ao elenco, é preciso falar que, da temporada passada para esta, três substituições ocorreram, sem prejuízo da qualidade já constatada, por mim, quando vi o espetáculo pela primeira vez. JOÃO FONSECA, corajosamente, substitui um dos melhores atores de sua geração, André Dias. E dois jovens atores daquele elenco estão muito bem representados neste: Saulo Segreto cedeu lugar a THIAGO MARINHORAFAEL COIMBRA assumiu o papel, antes, defendido por Daniel Rangel.

Não seria justo evidenciar trabalhos individuais, uma vez que os onze, em cena, atuam como onze jogadores, num campo. Futebol é conjunto, é esporte coletivo; TEATRO é equipe, exige empatia.

É bastante interessante o modo de atuar de todos, certamente seguindo a orientação dos diretores, quando interpretam de uma forma bem naturalista, que, se não exagero, está bem próxima à linha de Stanislavski“o pri­meiro mestre do TEATRO a sistematizar um mé­todo de atuação, que não exclui, de suas reflexões, a relação ator-texto. A voz, no trabalho do ator, ganha uma importância, que ultrapassa aspectos da boa dicção e capacidade declama­tória. Predomina a ideia de dar vida às palavras do texto, fazendo com que a atuação deixe de valorizar o verossímil e se torne crível, num grau que não gere dúvidas no espectador”.

interpretação naturalista exige uma relação que o diretor e, também, o ator criam com o texto. Sendo assim, a representação deixa de ser forçada e o ator conquista uma liberdade de interpretação, que leva a peça a parecer mais ver­dadeira“Como representante do naturalismo nos palcos, Stanislavski julgava que o público precisava acreditar no que estava vendo, de tal forma que o que estava sendo encenado devia assemelhar-se a um acontecimento cotidiano, o que diferia da falsa ilusão de realidade, que era gerada antes, com o drama romântico”. Isso é perceptível na peça ora analisada.

Gosto muito das soluções que a direção encontrou para levar o espectador a enxergar o que não está fisicamente em cena, como uma sala de estar, um escritório, um bar, uma casa de prostituição…

Creio que falar de determinadas cenas seria roubar, àqueles que ainda assistirão à peça, o prazer de ver quantas surpresas desfilarão no palco, mas chamo a atenção para uma, excelente, a da passagem de uma determinada quantia, de mão em mão, como numa coreografia, que lembra a progressão da cadeia capitalista, como sistema.

“PRESSA” é uma das melhores opções de espetáculos em cartaz, no momento, no Rio de Janeiro, e penso que sua trajetória não vai terminar ao final da atual temporada; há espaço, público e demanda para novas outras.

Recomendo o espetáculo com muito empenho, na certeza de que os que seguirem a minha sugestão não haverão de se arrepender.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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