‘Por Elas’ – O teatro presta serviço, como multiplicador de alertas com relação à violência contra as mulheres

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Assisti, no Museu da Justiça – Centro Cultural do Poder Judiciário (CCMJ), a um ótimo espetáculo de TEATRO documental, que, longe de ser fonte de entretenimento, é, antes de tudo, um grito de alerta para um problema que acomete as mulheres no mundo inteiro, notadamente no Brasil, que é a violência de que elas são vítimas, por parte dos homens, sejam seus maridos, namorados, companheiros e, até mesmo, os que não dividem, com elas, uma suposta relação de afeto, como um policial, por exemplo, numa delegacia. Falo de “POR ELAS”, uma peça escrita a quatro mãos, por SÍLVIA MONTE e RICARDO LEITE LOPES, dirigida por aquela, oferecida, gratuitamente, a quem tiver interesse em assistir a ela.

 

SINOPSE

Um grupo de mulheres, quase todas desconhecidas entre si, as quais, em comum, têm a violência na sua vida amorosa, se reúne, para falar sobre suas histórias.

Conforme os relatos vão acontecendo, os conflitos, preconceitos, a dor e a própria violência surgem no grupo.

peça aborda, acima de tudo, o círculo da violência e do feminicídio, em razão da situação de “submissão” e “inferioridade” imposta à mulher, por uma sociedade machista e patriarcal, que precisa ser revista e transformada.

espetáculo reserva, ao espectador, um final surpreendente, totalmente inesperado.


O que se vê e ouve, em cena, tudo reunido num comovente e bem escrito texto, são situações-limite, com extrema carga de perigo, covardia e injustiça, tudo baseado em fatos reais, pesquisados pelos autores, SÍLVIA e RICARDO, este advogado, além de dramaturgo.

Como diz o “release” da peça, enviado por SHEILA GOMES (ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO)“Originada de retalhos de histórias reais, a dramaturgia (…) passeia pelo épico e pelo dramático, pelos tempos presente e passado.”.

Ao entrar na sala multiuso da APJ-Rio, o público vê sete mulheres, sentadas em banquinhos, circunspectas, e surge, logo, a curiosidade de se saber quem são elas e que lugar é aquele. Elas são vítimas da violência contra o sexo feminino, cada uma com uma história própria e mais triste e revoltante que a da outra, com “ingredientes” distintos, personagens idem, entretanto convergindo para um mesmo ponto. Elas são a voz de tantas mulheres espalhadas por todo o Brasil, com idades diferentes e pertencentes a classes sociais diversas, do extremo de uma moradora numa favela (Recuso-me a utilizar o termo “comunidade”.) a uma mulher de alto nível socioeconômico, “feliz” moradora de um dos prédios da avenida Vieira Souto, em IpanemaRio de Janeiro, um dos metros quadrados mais valorizados deste país, passando por outras de classe média.

Quanto ao lugar em que elas se encontram, a dúvida, ou a não-revelação do qual seja, se mantém, como um mistério, até o quase apagar do último refletor. E não sou eu quem vai dar “spoiller”.

Todas são vítimas de uma sociedade extremamente machista, opressora, cruel, que, desde priscas eras, independentemente de credos, raças ou posições sociais, maltrata as mulheres, a ponto de “seus” homens as considerarem um objeto de consumo e de sua propriedade, podendo, portanto, a seu torto e torpe juízo, mantê-las sob suas rédeas, como animais irracionais ou mercadorias, das quais se torna fácil se desfazer, como e quando bem decidem fazê-lo.

A dinâmica do espetáculo faz-nos crer em se tratar de alguma sessão de psicanálise em grupo, ou algo parecido, com uma das sete mulheres conduzindo os depoimentos. Estes vão sendo ilustrados, teatralmente, por pequenas cenas, envolvendo a depoente e seu algoz. Todos os personagens masculinos são interpretados por um só atorANDERSON CUNHA, na sessão a que assisti. Seu trabalho é alternado, em outros dias, com LUCAS GOUVÊA, outro ótimo ator.

Ainda extraído do “release”, “A figura masculina – evocada pelas lembranças das mulheres – provoca a reflexão do que o homem representa para elas, dentro desse universo perverso de ‘amor e ódio’, ‘submissão e poder’, das relações entre mulheres e homens, numa sociedade patriarcal e machista. Por último, os coros de ‘mulheres’ e ‘homens’ espelham o sentimento, o preconceito, a dor, a violência e as ambiguidades da nossa sociedade, frente à violência de gênero.”.

Nas palavras da diretora e idealizadora do projetoSÍLVIA MONTE“A questão da violência contra a mulher é um tema que não pode deixar de ser pensado na arena da dramaturgia brasileira. O TEATRO, ao representar os conflitos e as ambiguidades do humano, acolhe e aproxima – de forma menos cruel – as pessoas da realidade. O espetáculo se propõe a ser um espaço de comunicação, sensibilização e visibilidade para o fenômeno da violência de gênero. Precisamos pensar sobre essa questão, e o TEATRO é um lugar ideal para atingir mentes e corações”.

Gostei muito da peça, emocionei-me bastante com todas as situações desfiladas. Nada era desconhecido para mim e, creio, para a grande maioria dos que faziam parte daquela assistência, no entanto sentir aquela realidade, tão bem representada por um elenco afinado bate mais forte e tenho certeza de que todos os envolvidos no projeto estão conscientes de quão valioso é o serviço que estão prestando, com seu trabalho, a uma causa que, felizmente, está ganhando corpo, não tanto, porém, na mesma proporção em que aumentam as estatísticas com relação às mulheres vítimas de homens violentos, animais irracionais, numa selva ou num campo de pedra.

montagem é bastante simples, contudo nem por isso menos interessante. Pelo contrário. Prende a atenção do espectador, do início ao fim e promove uma bela integração, entre atores e público, já que estão tão próximos, graças às marcações da direção, a qual faz com que os personagens transitem entre as pessoas, ocupando todos os vazios do espaço cênicoSILVIA MONTE, cujo talento já havia identificado em trabalhos anteriores, não tentou inventar a roda. Consciente de que o forte do espetáculo é o texto, apenas conduziu os atores a mergulhar, profundamente, em seus personagens e deixar a emoção aflorar, resultando num trabalho em que dialogam o naturalismo com o realismo. Há uma marca, muito interessante, por sinal, algumas vezes repetidas, que simboliza a reação das pessoas, de uma forma geral, quando testemunham situações brutais pelas quais passam as mulheres. Isso está bem claro nos momentos em que as atrizes que não estão participando, diretamente, da ação, voltam as costas para a agredida da vez. Quanto a isso – é só uma posição pessoal, que, ainda bem, encontra eco em várias pessoas – fica a proposta de desconstrução de uma frase tão ouvida por nós, ao longo de nossas vidas: “Em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher”. Isso já era. Devemos, todos, sim, meter a colher e o faqueiro inteiro, ligando para a polícia (190) ou para o número 180 (Central de Atendimento à Mulher), denunciando a barbaridade que esteja ocorrendo.

Ainda sobre a simplicidade da peça, ela não conta com cenário; apenas há sete banquinhos, em cena, e alguns praticáveis, à volta. E não precisava, mesmo, de mais nada.

figurino, criado por LUCI VILANOVA, também segue a linha da simplicidade. São todos na cor preta, sobre modelos muito parecidos, com um ou outro pequenino detalhe, que não os torna uniformes, porém a semelhança que há ente os trajes indica a intenção de mostrar que todas são “iguais”, ou estão ali pelo mesmo motivo. Os detalhes em cada roupa correspondem às peculiaridades das histórias de cada uma. Foi assim que decodifiquei os belos e sóbrios trajes das atrizes. O preto também está presente na roupa do único ator, em todos os personagens que faz.

À proposta da montagem não cabe uma luz muito trabalhada e variada. ANA LUZIA DE SIMONI percebeu isso e nos oferece uma quase luz de salão, com focos esparsos, em espaços e detalhes em que eles se fazem, realmente, necessários.

peça conta com uma boa trilha sonora, de MAÍRA FREITAS, com músicas originais “inspiradas a partir de elementos sonoros das histórias dos personagens”.

Sem fazer qualquer destaque, visto que todos, no elenco, fazem um ótimo trabalho de interpretação, cito, aqui, os nomes dos que dele fazem parte, com seus/suas respectivo(a)s personagensADRIANA SEIFFERT e GISELA DE CASTRO (SANDRA) – No dia em que assisti à peça, a personagem foi interpretada por GISELA.; ANA FLÁVIA (ÂNGELA)LETÍCIA VIANA (MARIANA)DEBORAH ROCHA (MÔNICA)RENATA GUIDA (IEDA)ELISA PINHEIRO (DANIELA)ROSANA PRAZERES (JOSILENE); e ANDERSON CUNHA e LUCAS GOUVÊA (HOMEM – vários personagens masculinos) – No dia em que assisti à peça, foi ANDERSON quem atuou.

A possibilidade da apresentação deste espetáculo, que tem VIVIANI RAYES, na direção de produção, e YASHAR ZAMBUZZI, como produtor executivo, só existe graças a um interessante projeto, chamado “Teatro na Justiça”, que já patrocinou outras grandes montagens, sempre com ótimos espetáculos, com temática ligada à justiça, como uma inesquecível “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt,  em 2015.

Recomendo muito a peça “POR ELAS” e acrescento que, todas as 4ªs feiras, após a sessão, acontece um debate sobre o espetáculo e, principalmente, o tema nele desenvolvido. No dia em que tive o prazer de assistir à montagem, pude, também, me deliciar com as palavras e os ensinamentos da renomada sociólogaescritoraprofessora e ativista dos direitos da mulherJACQUELINE PITANGUY, que já foi presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e, além de outras atividades, faz um belo trabalho na ONG CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação, Ação).

E VAMOS AO TEATRO!!!
OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!
COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, 
POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br. 
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