‘Perfume de Mulher’ – Agradáveis odores teatrais

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Depois de três adiamentos, todos alheios à minha vontade, finalmente, consegui assistir a um espetáculo pelo qual ansiava bastante: “PERFUME DE MULHER”, em cartaz no Teatro PetroRio das Artes. É a primeira montagem mundial, para o TEATRO, de uma história que percorreu a seguinte trajetória: livro > tela > palco. O espetáculo é uma idealização do atorprodutorroteirista e diretor SILVIO GUINDANE, que adquiriu os direitos da obra, para transformá-la numa peça teatral, e, também, a protagoniza.

Para os que me conhecem, é sabido que não sou cinéfilo. Vou pouco ao cinema, embora o considere uma bela arte, e, muito raramente, me encanto com algum filme. Não li o livro, porém assisti à versão cinematográfica de “PERFUME DE MULHER”, no início dos anos 90 – 1992, para ser mais exato – e dela guardava poucas lembranças, ainda que me lembre de, na época, ter gostado do filme, de cuja história, agora, nem me lembrava mais. Dois detalhes, porém, ficaram guardados na minha retina e, indelevelmente, registrados na minha memória afetiva; a brilhante atuação de Al Pacino, um dos meus favoritos atores (Seu trabalho, na fita, lhe rendeu seu primeiro Oscar e o Globo de Ouro, como melhor ator.), e a “cena do tango”. Até hoje, forçando a memória, “vejo” um pouco daquele momento, que me arrebatou.

 

SINOPSE

 

FAUSTO (SILVIO GUINDANE) é um militar reformado, que se entregou à solidão, depois de ter ficado cego, num acidente, enquanto estava no Exército. Ele vive isolado, num quarto escuro, na casa da tia, em Turim.

Com viagem marcada, para passar um final de semana em outra cidade, ela resolveu colocar um anúncio, no jornal, para contratar alguém que tomasse conta do sobrinho, durante sua ausência. O jovem CICCIO (EDUARDO MELO) é o único candidato que apareceu para a vaga.

Depois de um estranhamento inicial, o militar tentou expulsar o rapazinho. CICCIO, porém, decidiu ficar e enfrentar aquele desafio.

A partir de então, ele descobriu os planos de FAUSTO para os próximos dias: viajar, de trem, por sete dias, para GênovaRoma e Nápoles. Seu desejo era o de vivenciar momentos inesquecíveis, uma grande celebração, antes de pôr fim à sua vida.

No roteiro, viagem de trem, hospedagem em um hotel luxuoso, passeio de Ferrari, uma noite com uma prostituta, sempre degustando as melhores bebidas. Dias e noites de intenso prazer, antes do seu grand finale.

FAUSTO, no entanto, não esperava reencontrar SARA (GABRIELA DUARTE), seu grande amor, nem contava com a sabedoria de CICCIO, fatos que promoveram uma grande reviravolta em seus planos.


Para mim, é sempre motivo de muita curiosidade, ver, no TEATRO, como são feitas as adaptações de livros e filmes. Instiga-me bastante essa quase magia de transformar uma história, traduzida numa mídia que conta com tantos recursos técnicos, como o cinema, sob a ótica de outra. Acho que era o que mais me moveu, logo que tomei conhecimento da peça e recebi o convite para assistir a ela. Essa curiosidade se acentuou, quando soube que a direção estava a cargo de um diretor de cinema, por excelência, que, de vez em quando, dirige um espetáculo teatralWALTER LIMA JR.. Vale a pena registrar que, muito longe de ser considerado um amante do cinema, dou preferência a filmes nacionais e, desse diretor, marcaram-me, sobremaneira, “Menino de Engenho”“Brasil Ano 2000” (Genial! Tenho o vinil, com a trilha sonora, que adoro.), “A Lira do Delírio”“Chico Rei”“Ele, o Boto” e “A Ostra e o Vento” (Admiráveis interpretações de Lima DuarteFernando Torres e Leandra Leal).

Sabendo-se que o cinema pode valer-se de inúmeras locações, de estúdio e externas, e que tudo, no TEATRO, tem de acontecer sobre um palco, limitado num espaço físico, creio ser uma tarefa difícil a adaptação de um filme para uma peça teatral, de boa qualidade, preservando-se, o máximo possível, o que se vê na telona, como é o caso da peça em análise.

E lá fui eu, cercado de expectativas, como sempre, boas. E não me decepcionei com o que vi. Muito pelo contrário; gostei bastante da encenação, que mistura paixão, sedução, emoção, um pouco de mistério, também, e, como “ninguém é de ferro”, humor, leve e, por vezes meio cáustico, para contar a história de um tenente-coronel, que não vê, denotativa e conotativamente falando, mais sentido na vida, desde que ficou cego, e está se preparando para morrer. Antes, porém, como já dito na sinopse, contida no “release”, enviado por FABÍOLA BARBOSA (PALAVRA – ASSESSORIA EM COMUNICAÇÃO), ele resolve fazer uma viagem, na companhia de um “cuidador”, e acaba reencontrando o grande amor de sua vida, de quem, covardemente, desistira, depois do acidente que lhe tirou a visão. Toda a trama se passa na Itália.

A história pode ser considerada uma ode à amizade e à superação, pois, “Até conhecer CICCIO, o melhor amigo do solitário FAUSTO é sua garrafa de uísque. Quando os dois se encontram, a vida de ambos dá uma reviravolta. Surge uma amizade surpreendente, que resiste às diferenças de idades e rotina. O que sobra em um, falta no outro.” (Extraído do “release”.). “No primeiro contato, o velho militar expulsa o estudante, mas o garoto não desiste e, aos poucos, desvenda as amarguras e escolhas de Fausto.”. (Idem).

texto ganhou forma pelas mãos de PEDRO BRÍCIOSÍLVIO GUINDANE e WALTER LIMA JR., responsáveis por uma boa adaptação, que conta a história de uma forma enxuta e clara.

Experiente homem de cinema, LIMA JR. encontrou soluções muito interessantes para as cenas em ambiente externo, com destaque para o famoso “test drive”, numa Ferrari, sonho de consumo de FAUSTO, fazendo uso de projeções, o que não é nada tão original assim, em TEATRO, mas é um recurso que, quando bem utilizado, como nesta peça, funcionam muito bem.

elenco comporta-se de maneira muito satisfatória, com destaque, evidentemente, para SÍLVIO GUINDANE, nem tanto pelo fato de interpretar um protagonista, mas por este ser cego (Recuso-me a usar o “politicamente correto” “deficiente visual”.), o que todos sabemos ser bastante difícil de ser representado por alguém que enxerga. SÍLVIO se sai muito bem, embora, talvez, exagere um pouco nos movimentos da cintura para cima, meio “bambo”, quando, perece-me, a indecisão maior de equilíbrio, para um cego, deva ser da cintura para baixo. Mas isso é apenas um detalhe, que, em nada, desabona sua boa atuação. A estrutura psicológica do personagem ajuda o ator, facilita-o, na utilização de alguns recursos que põem em evidência seu protagonismoFAUSTO é uma homem sedutor e amargurado, que tem a necessidade de se mostrar forte, impor-se aos outros, abusando de um autoritarismo, que torna quase insuportável uma convivência salutar com ele. Também se apresenta com um ser melancólico, cínico, irônico, farto da rotina em que é obrigado a viver, por suas limitações. Isso faz dele um homem arrogante e, até mesmo, cruel. Aproveita de sua condição “privilegiada” (cegueira) para zombar da dissimulação e do fingimento da sociedade, com desdém pelas convenções de compaixão, das quais também é refém. Esse caráter ambíguo, de admiração e repulsa por um personagem, de uma grandiosidade, que, por vezes, nos faz até esquecer sua limitação física, mas que também é desagradável, amargo e sarcástico, reflete sua personalidade conflituosa, mas, ao mesmo tempo, carismática.”. (Extraído de um comentário de fonte desconhecida.). Além de mulherengo, vive mergulhado no álcool. Como é quase natural, entre os que apresentam algum tipo de deficiência física, sua cegueira acentuou-lhe os outros sentidos, sobretudo o apurado olfato.

GABRIELA DUARTE cumpre sua parte, na trama, com correção e parcimônia, na pele de SARA, uma jovem apaixonada por FAUSTO, a qual não se conforma com a sua enfermidade. Ela demonstra conhecer bem o temperamento do protagonista, parecendo nunca ter perdido a esperança de que ele voltaria, um dia, para, juntos, viverem o grande amor idealizado e interrompido pela explosão de uma granada. Ainda que um pouco insegura, a personagem se julga muito importante na vida de seu grande amor, como se ela fosse indispensável à sobrevivência deste, uma sua metade, no dia a dia do militar. GABRIELA também interpreta a prostituta MIRKA, numa cena inesquecível, quando os dois dançam um tango, muito bem coreografado, diga-se de passagem.

Fiquei extremamente feliz com a atuação do jovem e incipiente ator EDUARDO MELO, que interpreta CICCIO, o “cuidador” e fiel escudeiro de FAUSTO, naquela viagem. EDUARDO compôs muito bem o seu personagem, num contraponto com o de SÍLVIO. Ao contrário de FAUSTO, que se sobressai por sua experiência, uma suposta, por ele, invulnerabilidade, segurança, e todos os adjetivos já expressos, dois parágrafos acima, CICCIO reúne, inexperiência, ingenuidade, insegurança, doçura, afabilidade, mas, também, vai aprendendo a enfrentar o “Todo-Poderoso-FAUSTO”, “comendo pelas beiradas”, não se permitindo ser mais uma vítima nas mãos do patrão. À medida que a viagem segue seu curso, o jovem vai aprendendo lições de vida, como saber distinguir entre aparência e realidade, amor e fraude, palavras e ações.

Completa o competente elenco SAULO RODRIGUES, em dois personagens: o PADRE FAUSTO e a “drag queen” MARILYN MAZZONI, com ótimo rendimento nos dois papéis.

Dos elementos técnicosJOSÉ DIAS faz um bom trabalho de cenografia, muito importante na encenação de uma peça adaptada de um filme; CÁSSIO BRASIL desenhou figurinos bem ajustados aos personagens, todos de bom gosto; e DANIEL GALVÁN trabalhou uma interessante iluminação, que privilegia, em determinadas cenas, as sombras, com muito acerto.

Talvez o que de mais importante o texto deseje mostrar seja o que um ser humano é capaz de fazer, para ocultar seus verdadeiros sentimentos, por medo ou orgulho, sob uma falsa capa de força, segurança e independência. No fundo, FAUSTO tem consciência de sua fragilidade e precisa saber como se comportar na relação com os que com ele convivem e dos quais ele depende. A maneira agressiva e, ao mesmo tempo, até, compreensível, de rejeitar os sentimentos de compaixão e piedade transborda para uma igual rejeição do amor e do afeto que alguém demonstre, sinceramente, por ele.

A viagem de sete dias, metaforicamente, representa, a meu juízo, uma “viagem interior”, do personagem, em busca de uma identidade, de si próprio, a auto-aceitação e, acima de tudo, da capacidade de “enxergar” o sentimento do respeito e da afeição que os outros demonstram por ele. Com isso, FAUSTO acabou por criar o personagem FAUSTO. Resta saber quando se está diante de um ou de outro. Ou é um só, o tempo todo? Assistindo à peça, fique atento a esse detalhe.

A temporada carioca vai até 24 de fevereiro. Na sequência, “PERFUME DE MULHER” segue em turnê pelo país, de março a junho: São PauloCampinasSão José do Rio PretoPorto AlegreVitória e Fortaleza. Em setembro, estreia em Portugal.

Recomendo bastante o espetáculo!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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