Pedro Monteiro sugere ingressos mais baratos nos teatros, mas lamenta crise: ‘Tem gente que não tem nem salário’

Luiz Maurício Monteiro

Pedro Monteiro tem cerca de 20 peças em 11 anos de carreira Foto: Divulgação

São inúmeros os reflexos que a atual crise financeira – que parece interminável – tem causado no teatro. Enquanto os artistas do Theatro Municipal, por exemplo, acumulam meses de salários atrasados, outros independentes encaram dificuldades para pôr em prática seus projetos – inclusive aqueles 204 que foram contemplados pelo Programa de Fomento às Artes da Prefeitura do Rio de Janeiro, mas que não levaram suas parcelas no total de R$ 25 milhões. Isso sem falar no público que, com a instabilidade econômica, acaba escolhendo suas prioridades em detrimento da cultura e da diversão. Com isso, cabe aos profissionais pensarem em soluções alternativas, que, embora boas, muitas vezes não passam de paliativos.

É o caso do ator, autor e produtor Pedro Monteiro. Atualmente, ele está em cartaz exercendo estas três funções no espetáculo “Entregue seu Coração no Recuo da Bateria”, que conta a história de amor de um mestre-sala e uma porta-bandeira que estão prestes a romper minutos antes de iniciarem o desfile de sua escola na Marquês de Sapucaí. A temporada na Sala Baden Powell, em Copacabana, segue até o próximo dia 28, com ingressos a preços populares: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Pedro vê estes valores mais em conta como uma possível saída para os teatros cariocas, mas logo lembra que a tal crise chegou a um nível tal, que, provavelmente, nem assim as salas ficariam mais cheias do que tem ficado.

– Hoje em dia, tem gente que não tem nem salário, então como vamos falar para irem ao teatro? Elas têm prioridades – reconhece o carioca de 36 anos, que ficou famoso ao dançar e cantar com Beto Barbosa no comercial de uma marca de cerveja, em entrevista ao RIO ENCENA.

No entanto, mesmo diante das dificuldades, Pedro, que acumula cerca de 20 peças em 11 anos de carreira, ressalta que o único caminho é seguir trabalhando, inclusive, tomando a frente e produzindo seus  espetáculos.

– Eu prefiro atuar. Mas é só montando o próprio circo que você pode brincar de mágico, de palhaço ou de malabarista, não é? – indaga o ator, que fala muito mais sobre sua carreira na conversa abaixo:

Espetáculo mais marcante da carreira?
“Os Ruivos”, porque tinha acabado de sair da faculdade, em 2007. Até então, só tinha feito coisas pequenas, algumas participações, quando tive a ideia do espetáculo. Estreamos em 2008, ficamos em cartaz por quatro anos. E foi fundamental por toda a sua trajetória, com mais de 200 apresentações em 56 municípios, e porque foi ali que pude dar a cara e me apresentar como uma pessoa que pretendia viver daquilo.

Um fracasso?
Você pergunta isso, e o filme passa na cabeça (risos). Foi o último espetáculo que fiz, inspirado na história de um judoca iraniano. Era um drama pesado, com diversas possibilidades, mas não aconteceu. Tivemos pouco público, arrecadamos pouco dinheiro, poderíamos ter circulado mais. Ficamos só um ano! Se chamava “Um de Nós”. Mas não tenho problema nenhum em falar sobre fracasso ou crítica negativa, porque é assim que você aprende e aplica no futuro.

O que precisa para considerar sua carreira completa no teatro?
Preciso caminhar por situações pouco confortáveis para ganhar mais visibilidade e, com o tempo, me fortalecer como ator. Dizem que quanto mais velho, melhor é o trabalho do ator. Você vive experiências com o tempo e são elas que você aproveita para trazer para a encenação. Por exemplo, hoje, por um minuto, pensei que tinham roubado minha bicicleta. Chamei o porteiro do prédio, ele disse que não tinha visto nada, chamou um outro… E eu pensava: “Caramba, roubaram minha bike que eu tinha há 10 anos, meu meio de transporte…” Fiquei meio cego por uns 40 segundos e não conseguia ficar quieto, andava de um lado para o outro. E durante essa surpresa negativa, rapidamente fiz contato comigo e tentei entender como num futuro próximo poderia recorrer àquela situação em cena. Tentei refazer todo o movimento na cabeça. Ah! E depois lembrei onde tinha deixado a bike (risos).

Prefere produzir, dirigir ou atuar?
Eu prefiro atuar. Mas é só montando o próprio circo que você pode brincar de mágico, de palhaço ou de malabarista, não é? E não acontece sempre de te oferecerem um trabalho que você esteja querendo fazer. Quando você realiza um trabalho, realiza um sonho. Então é isso! Eu monto o circo para brincar do que quiser. Com o “Entregue seu Coração no Recuo da Bateria”, as sessões começam às quintas, mas para mim, tudo começa na segunda, porque não acredito em público formado naturalmente. Mais de 400 lugares ocupados do nada? Então, a gente junta o público, tem formação de plateia, chama o pessoal do Carnaval… O trabalho já começa assim.

Ator ou atriz que tem como referência no teatro?
Marco Nanini. Um ator que reúne muitas coisas que me interessam. Tem um trabalho refinado, mais de 50 anos de carreira, e é do tipo que eu comentei, que resolve montar o próprio circo. Infelizmente, por aqui, o ator é mal remunerado. Assim como no futebol: 10 jogadores ganham bem no Flamengo, mas 330 ganham mal em outros clubes menores. Mas a partir do momento que você é dono da sua birosca, acaba tendo mais dignidade.

Um diretor (a) que admira?
Enrique “Kike” Dias. Um cara que faz espetáculos muito refinados, sem que sejam grandes produções. Consegue fazer muito com pouco, e acho isso uma virtude muito interessante.

Pedro (D) em cena ao lado de Jorge Luiz Jeronymo e Gabriela Estevão Foto: Beto Roma/Divulgação

Um gênero?
O “Entregue seu Coração”, a gente só descobriu o riso do público na estreia, porque até então, eu considerava um drama. A mulher se preparando para o momento da vida dela, que é desfilar na avenida, e vê o parceiro com outra. O mundo cai, e ela diz que não vai desfilar. A Sapucaí é festa, mas os personagens vivem um drama. E é aí que acho que me identifico mais, consigo expressar melhor meu trabalho. Mas também acho que o humor é uma ferramenta que possibilita falar de coisas sérias. Então, digamos que eu vivo um amor com o humor, mas tenho uma leve queda pelo drama (risos).

Um profissional com quem tenha mais afinidade para trabalhar no teatro?
Ano passado fiz uma série chamada “Amor Veríssimo”, no canal GNT. Foi um trabalho interessante, com um elenco bacana, e um ótimo diretor, o Arthur Fontes, com quem tive uma relação boa. Ainda não o conhecia, só fui conhecer no teste. Mas o trabalho rolou tão bem, com uma relação tão boa, que ele se tornou uma pessoa que eu gosto muito. Se pudesse escolher alguém, ficaria com ele.

Maior desafio na carreira de quem trabalha com teatro?
Se sustentar! Sobreviver com dignidade no meio desse furacão que, infelizmente, o país vive atualmente. Às vezes, você tem público, a casa cheia numa sexta, porque temos estratégias para isso, como a temporada popular, com meia-entrada a R$ 15. E não tenho problemas em trabalhar assim, até gosto. O problema é que no teatro, são pelo menos nove pessoas trabalhando numa peça, mais o autor, diretor… Umas 15 no total. E aí como repassar a quantidade mínima de dinheiro para esse pessoal sobreviver? Tem bailarino aí trabalhando como motoboy, motorista de Uber… É muito complicado fazer a máquina rodar. Como eu disse, se poderia diminuir o valor do ingresso. Mas hoje em dia, tem gente que não tem nem salário, então como vamos falar para elas irem ao teatro? Elas têm prioridades!  A maior dificuldade para nós é sobreviver no olho deste furacão fazendo arte.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Jogador de futebol. Sou um ótimo reserva de goleiro (risos). Mas foi uma troca justa, porque larguei o futebol para fazer curso no Tablado. Cheguei a jogar no juvenil do Friburguense, mas não me arrependo, porque hoje sou muito feliz. Mas se fosse goleiro titular, talvez não tivesse trocado (risos).

PUBLICIDADE