‘PEÇA RUIM’: Uma excelente ‘peça ruim’

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

(ESTA CRÍTICA FOI PUBLICADA EM 29 DE JANEIRO DE 2014, QUANDO O ESPETÁCULO ANALISADO ESTAVA FAZENDO SUA PRIMEIRA TEMPORADA, NO TEATRO TABLADO. DEPOIS, FORAM MAIS QUATRO: NO TEATRO CAFÉ PEQUENO, ONDE A REVI; NO TEATRO DO PLANETÁRIO; NO TEATRO SESI (CENTRO); E NO TEATRO SESC TIJUCA, ALÉM DO CIRCUITO SESI – RJ. AGORA, A PEÇA VOLTA AO CARTAZ, NO TEATRO SERRADOR. AQUI ESTÁ O TEXTO DA CRÍTICA ORIGINAL, COM AS DEVIDAS ATUALIZAÇÕES.)

Você sairia de sua casa para assistir a uma peça chamada PEÇA RUIM”?  Talvez sim, apenas por curiosidade.  Eu fui, por tal motivo e por mais dois.

O primeiro é que acredito muito no trabalho do autor do textoDANIEL BELMONTE, e, também, diretor do espetáculo.  O segundo é que, já há algum tempo, ele vinha me falando dessa peça, e o fazia com tanto entusiasmo, que eu não poderia deixar de prestigiar esse jovem talentoso atorautor e diretor, com apenas 20 anos (hoje, com 23).

Por três vezes, tive de adiar minha ida ao Teatro O Tablado, para conferir esse trabalho.  Consegui fazê-lo, finalmente, no dia da última apresentação da peça.  Felizmente, graças ao sucesso de público (acho que a crítica não passou ainda por lá, mas deveria fazê-lo), haverá, em princípio, mais duas apresentações, nas próximas 2ªs feiras, sempre às 21h.  Mas é necessário comprar os ingressos com antecedência, uma vez que se esgotam logo e dezenas de pessoas retornam, frustradas, às suas casas, sem conseguir “curtir” o espetáculo.

DANIEL mergulha, magistralmente, na metalinguagem, e seu texto é facilmente assimilado por qualquer pessoa, desde as mais maduras, em minoria na plateia, até os jovens, que compõem a grande massa do público.  Foi escrita por um jovem, feita por jovens, voltada para jovens e para quem mais quiser chegar.

                                                                          SINOPSE

protagonista, um diretor de teatro está em crise. Ele se vê perdido entre uma paixão, não correspondida, por uma atriz de seu grupo e o caótico processo de ensaios de sua companhia. Como forma de desabafo, decide escrever uma peça, na qual ele pode exprimir o que pensa dos atores de seu grupo, e também se aproximar da atriz por quem é apaixonado.

Nessa “PEÇA RUIM”, o diretor se dá o codinome de BISÃO. Enquanto isso, a companhia está ensaiando “Édipo Rei”, uma proposta ousada para a experiência do grupo e do encenador. É no palco que BISÃO escreve, dirige e ensaia encena. Tudo ao mesmo tempo.

As coisas ficam mais desastrosas, quando a peça passa em um Edital de Financiamento do Estado da Bahia. A única condição para o projeto ser contemplado com o financiamento é que o grupo seja composto por baianos.

A confusão aumenta, quando os atores, todos cariocas, passam para a fase final e têm que apresentar o clássico grego para uma banca examinadora.

A companhia, então decide, em comum acordo, ensaiar “Édipo Rei” com sotaque nordestino e, se o BISÃO já achava a peça ruim, agora, ele tem certeza de que tudo dará errado.

A peça retrata os bastidores do TEATRO e conta a história de um diretor de uma companhia “não muito convencional” – ambos – (DUDU, ou BISÃO, como exige ser chamado por seus atores, aos quais se refere como “imbecis’), o qual, em meio a uma crise existencial, escreve uma peça, na intenção de compartilhar, com a assistência, suas angústias amorosas, uma vez que está apaixonado por uma atriz da trupe, a personagem A TAL GAROTA QUE ANDA MEXENDO COM A MINHA CABEÇA (o nome da personagem é genial).

 BISÃO não consegue separar a realidade da ficção e vê, na sua obra, “PEÇA RUIM”, uma maneira de poder conquistar sua pretendida, durante os ensaios “arrojados”.

Há, no texto, uma crítica explícita a alguns estereótipos de atores contemporâneos, que, por meio de um processo de “criação coletiva”, vão tentando pôr ordem num caos cênico, este crescendo numa proporção geométrica, à medida que os ensaios vão acontecendo.

Dentro dessa narrativa, o grupo está ensaiando uma tragédia grega – ÉDIPO REI – com “pitadas de modernidade”, que provocam muitas gargalhadas no público, quando, por exemplo, ÉDIPO estupra sua mãe JOCASTA.

Para piorar a situação, BISÃO resolve inscrever a peça num edital, em SalvadorBahia, num projeto que tem por objetivo promover os valores culturais soteropolitanos.

Tendo sido aprovado no primeiro estágio do referido edital, o grupo terá de fazer uma apresentação para um júri, que decidirá pela sorte de companhia.

Para sustentar a fraude (o grupo havia sido inscrito como se formado fosse por cidadãos de Salvador), o diretor impõe aos atores a utilização de uma prosódia local, o que rende momentos hilários.

Imaginem ÉDIPO REI representado em sotaque baiano e de uma forma propositalmente exagerada.

O trabalho de DANIEL não só é bom no papel como também o é na execução da proposta.  É ótima a sua direção.

Excelentes, também, são todos os sete atores, sem destaques, a saber: ANDRÉ DALE (BISÃO)HERNANE CARDOSO (RICKY)ADRIANO MARTINS (ATOR DE TEATRO)MARIANNA PASTORI  (A TAL GAROTA QUE ANDA MEXENDO COM A MINHA CABEÇA)PEDRO THOMÉ (IDIOTA 1), EDUARDO SPERONI (IDIOTA 2) e JOANA CASTRO (IDIOTA 3).

Trata-se de uma montagem na base da “ação entre amigos”, pobre, no sentido material, mas muito rica, no sentido profissional, com bom cenário (JÚLIA MARINA) , figurinos (ANOUK VAN DER ZEE) e uma excelente iluminação (RODRIGO BELAY).

Trata-se de uma peça muito despretensiosa e bastante engraçada, com um humor escrachado, porém de bom gosto.
Parabéns a todos os envolvidos no projeto!
DANIEL BELMONTE
 (guardem bem este nome) é um jovem talento, não mais promissor.

PEÇA RUIM é, paradoxalmente, um excelente espetáculo!