Peça que se passa na cozinha de uma casa no Humaitá, ‘A Cozinha’ é uma aula de teatro intimista

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

30 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Encenação intimista que inclui o espectador em seu espaço cênico, “A Cozinha”, texto de Felipe Haiut e direção de Gunnar Borges, é não só um bastião de importantes reflexões conceituais (sobre o espaço teatral, por exemplo) e políticas (a atual carência do teatro no Rio de Janeiro) como, independentemente de qualquer discussão suscitada, um excelente espetáculo, com todos os aspectos e nuances costurados com soluções criativas e sutis.

Em um espaço cênico que precede à cena, é esta quem vai ditar, sozinha, o clima da peça. No caso de “A Cozinha”, a relação entre os personagens é o ponto nodal, e ela é construída da maneira mais gradativa possível – e aqui é onde a montagem brilha. Em síntese, Miguel espera a chegada de seu amigo de infância, que não vê há anos. Letícia, sua namorada, está na cozinha com ele, e a relação dos dois está visivelmente ruim, a ponto da presença de Letícia no jantar ser indesejada ou mesmo indiferente para Miguel. O casal visitante, Rodrigo e Carla, chega com humor leve e descompromissado, como o típico casal estável.

Temos, portanto, a princípio, dois conjuntos de relações: a tensão do casal anfitrião versus a leveza do casal visitante. Este embate simples traz uma ótima dose de comicidade para a claustrofobia da peça (acentuada pela tensão entre Miguel e Letícia), e instaura imediatamente a impressão de uma artificialidade que beira o insustentável. A questão desde o início para o espectador é: quando e como esta artificialidade/tensão vai se quebrar/explodir. E ainda que na parte final do espetáculo venha a tal explosão, catártica, o grande protagonista da montagem é, a meu ver, o processo de desdobramento progressivo e desconfortável das tensões, ao mesmo tempo em que elas deixam de ser entre casais e passam a ser entre indivíduos.

Os quatro atores, Felipe Haiut (Miguel), Julia Stockler (Letícia), Saulo Arcoverde (Rodrigo) e Catharina Caiado (Carla), estão muito bem, cada um com a difícil tarefa de incorporar a metade de um casal, ao mesmo tempo em que carregam um estado de espírito muito particular que será o catalizador dos conflitos mais profundos, individuais. Destaque para Saulo Arcoverde, que além de estar hilário em seu desconforto inicial, tem o personagem de maior curva dramática, e que precisa ser percorrida em parte gradativamente e em parte na explosão, ambas bem executadas.

Um abraço e até domingo que vem!
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