‘Para Onde ir’ – Uma “Master Class” de teatro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Esta crítica foi escrita há um ano, publicada apenas no meu blogue (www.oteatromerepresenta.blogspot.com), quando o espetáculo a ser analisado estreava, no dia 7 de fevereiro (2017) para uma curtíssima temporada, de apenas três semanas, na Sala Rogério Cardoso, da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema.

O sucesso foi tão grande, que o espetáculo cumpriu mais temporadas e fez uma apresentação especial, em outros espaços cariocas. Foram mais três, além da inicial: uma na Casa de Baco, em maio; duas no Teatro Glauce Rocha: a primeira em julho e a segunda em outubro e novembro (Ocupação Glauce de Portas Abertas); ainda houve uma única apresentação, no Festival Midrash, no Centro Cultural Midrash.

Como se diz, por aí, que “o bom filho a casa torna”, a peça acabou de reestrear no mesmo lugar em que fez sua primeira apresentação, agora chamado de Teatro Rogério Cardoso, um dos espaços da Casa de Cultura Laura Alvim.

Mais um monólogo, no Rio de Janeiro, para dar continuidade a uma temporada (2018), que começou bem e promete, a despeito de todas as adversidades, grandes e agradáveis surpresas, no decorrer do ano, como ocorreu, felizmente, em 2017. Trata-se de “PARA ONDE IR”.

No lugar da palavra “monólogo”, poderia ter sido utilizado o termo “master class”, expressão em inglês, que significa, mais ou menos, uma aula magna, uma super aula, uma aula inesquecível, para a qual só estão aptos os mais sensíveis e talentosos, visto que quem a profere é um suprassumo naquilo que faz, um mestre dos mestres.

O grande mestre dessa aula é YASHAR ZAMBUZZI, o qual, com a brilhante direção de sua mulher, a também atriz, VIVIANI RAYES, nos brinda com uma belíssima aula de interpretação teatral. E nós, seus discípulos, temos de também ter talento, de estar sintonizados com tanta sensibilidade e verdade, para sermos merecedores daquele deleite.

Isso tudo acontece no Teatro Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim.

A peça é livremente inspirada em livros do escritor russo FIÓDOR DOSTOIÉVSKI (1821-1881) e do poeta francês ARTHUR RIMBAUD (1854-1891).

O texto é uma adaptação do próprio YASHAR. Foi construído a partir do personagem MARMIELÁDOV, do romance “Crime e Castigo”, escrito por DOSTOIÉVSKI, e da trama de “Uma Temporada no Inferno”, de RIMBAUD.

 

SINOPSE

 

“PARA ONDE IR” é um monólogo, que conta a história de MARMIELÁDOV (YASHAR ZAMBUZZI), funcionário público, alcoólatra, que, após perder o emprego, vai beber numa taberna.

O personagem é homônimo ao protagonista do romance “Crime e Castigo”, um dos pontos de partida para a construção da peça.

MARMIELÁDOV, na taberna, acompanha a chegada dos fregueses e aproxima-se, ora de um, ora de outro, para lhes contar as dificuldades por que passa, por conta do vício, a necessidade de sustentar sua família e as desventuras de sua vida.

A peça dialoga com o público, numa linguagem dinâmica e coloquial, promovendo um contato direto e desmistificador com dois grandes autores da literatura universal, cujas obras têm, em comum, as situações extremas da vida.

Alcoolismo, desemprego, pobreza, miséria, violência contra a mulher, prostituição infantil, infanticídio e autodestruição são temas pelos quais passeia o texto.

Mais atual que isso é impossível!


 

Segundo o “release” do espetáculo, enviado pela assessoria de imprensa (DUETO COMUNICAÇÃO – ALESSANDRA COSTA – Observação: a atual assessoria está sendo prestada por Carlos Gilberto e Fábio Amaral, da Minas de Ideias.), “Há mais de dez anos, YASHAR estuda a transformação da literatura clássica em fenômeno cênico, especialmente as obras de DOSTOIÉVSKI, pela importância de suas questões perenes sobre a condição humana. A concepção do espetáculo interliga DOSTOIÉVSKI e RIMBAUD a BERTOLD BRECHT (1898-1956), o que faz, da peça, segundo VIVIANI e YASHAR, também, uma homenagem à poesia crítica do poeta e dramaturgo alemão”.

O espetáculo marca o primeiro trabalho de direção de VIVIANI RAYES, a qual se inicia, na função, com o pé direito.

Não é muito fácil criar, em termos de direção, sobre um texto como o da peça, nem há muito a inventar sobre como deve atuar o protagonista. VIVIANI, totalmente cônscia de sua responsabilidade, permitiu que a narrativa dramática fluísse, explorando os meandros da vida do personagem, traduzindo-os, em postura cênica e cobrança, naquilo de comiseração que MARMIELÁDOV deve provocar na plateia, seus amigos de copo e, quem sabe, de infortúnios e descaminhos, sem exageros, sem pieguice, sem tornar o espetáculo monótono e desagradável, o que seria um desastre. Ao contrário, tudo flui com a maior naturalidade, com o dedo certo da direção, que conta com um grande ator, que, de há muito, merecia um personagem como o que representa nesta peça.

Já tivemos a oportunidade de aplaudi-lo, com muitos “bravos”, e de pé, no espetáculo “Blackbird”, onde também fez um trabalho irrepreensível, ao lado de VIVIANI, como atriz, também com igual rendimento. O espetáculo foi sucesso nos anos de 2014 a 2016, com público garantido, sempre com casas lotadas.

YASHAR é um “monstro” em cena. A sua docilidade, como pessoa, é transferida para a cena, acrescida de um sentimento de subserviência, de aceitação das desagradáveis surpresas que a vida lhe reservou, embora, em alguns momentos, ensaie uma revolta, que não se esgota; aliás, que sente dificuldade de trair a sua boa índole.

O espetáculo é, em certa parte, interativo, já que o ator se dirige a algumas pessoas da plateia, fazendo-lhes determinados questionamentos, cobrando-lhes concordância ou discordância com/de suas teorias, aos quais ninguém é obrigado a responder, e o espetáculo segue em frente, cumpre o seu destino. É como se o personagem não esperasse mesmo qualquer resposta, como se soubesse que estava sendo ignorado, que seus lamentos e desabafos não merecessem crédito. Repete, por várias vezes, em relação ao comportamento “indiferente” do púbico, a seguinte fala: “MAS OS SENHORES, POR FAVOR, NÃO FIQUEM INDIGNADOS, POIS TODOS NÓS PRECISAMOS DE AJUDA, COITADOS!”.

MARMIELÁDOV é um personagem difícil de ser representado e riquíssimo e, por isso mesmo, pode proporcionar, a quem o representa, a oportunidade de deixar marcado o seu talento ou pôr em destaque o pouco traquejo para a representação. YASHAR só fez valorizá-lo, com seu talento e sensibilidade.

Desde que surge em cena, saído de um dos cantos da decadente taberna, disposto a dividir seus lamentos e dores com os que habitam aquele soturno espaço, já vai ganhando a empatia do público, atraindo a plateia para si. Todos parecem se identificar com o personagem, não pelos fatos que ele vai narrando, mas pela certeza da nossa falibilidade, da possibilidade de um profundo mergulho no abismo, em algum momento da nossa vida, como ocorreu ao personagem, ali, tão próximo de nós, tão verdadeiro, tão merecedor da nossa atenção e de nossa mão amiga, pela qual, aliás, ele
suplica, quase ao final da peça, sem encontrar o que procurava.

Confesso que tive vontade de me levantar e ir ao encontro dele, não apenas para apertar-lhe a mão estendida, mas para abraçá-lo e, até mesmo, provar minha solidariedade com um beijo no rosto. Fiquei entre soltar a minha emoção e atrapalhar o andamento da peça. Falou mais alto o racional.

Apesar de uma produção modesta, com apoiadores, mas sem patrocínios, YASHAR e VIVIANI não abriram mão do bom gosto e da criatividade e se cercaram de excelentes profissionais, para montar um texto que merecesse os aplausos do público e o reconhecimento da crítica.

Ao tomar conhecimento do título da peça, senti falta de um ponto de interrogação ao final (“PARA ONDE IR?”). Assistindo ao espetáculo, entendi que a ausência de tal sinal de pontuação é perfeitamente justificada. O personagem não questiona para onde deva ir, porque ele já conhece a resposta. Se algum sinal de pontuação coubesse, no caso, seria o de reticências. Mas está ótimo do jeito que está. Quem assistir a esta linda montagem haverá de compreender a ausência, que, antes, eu considerara.

Gosto muito do formato da peça, da ambientação cênica, mais que um simples cenário, que reproduz, com muita fidelidade, uma decadente taberna de época, com riquíssimos detalhes na decoração. Um verdadeiro achado cênico, assinado por YASHAR e VIVIANI.

Ao adentrar o Teatro Rogério Cardoso, ou a “taberna”, o espectador recebe uma toalha de papel, para forrar seu lugar em uma das mesas, a qual – a toalhinha – nada mais é que o programa de peça, e um copinho de cachaça ou de café (para os abstêmios ou os que não desejam ser flagrados pela maldita “Lei Seca”), a fim de compartilhar da encenação.

Os andrajos, vestidos pelo personagem, são uma criação do figurinista ROGÉRIO FRANÇA, em acertada mão e escolha.

ELISA TANDETA propôs uma luz predominantemente fria, praticamente, de salão, para a maior parte do tempo, com algumas modulações, que sublinham uns poucos trechos da peça, enriquecidos por essas variações. É um espetáculo em que a luz funciona com um suporte, que se destaca em breves momentos, a não ser num detalhe especial, durante um longo tempo, ao final do espetáculo, em que todo o espaço cênico recebe apenas um intenso foco, que consegue iluminar somente a cabeça do personagem, sentado, num dos mais fortes momentos do texto. Belo trabalho dessa grande profissional da luz!

Há uma trilha sonora original, a cargo de CHICO ROTA, que aparece pouco, porém funciona muito bem no espetáculo, sempre que solicitada.

Quase sempre esquecida, nos comentários críticos, quero render uma homenagem a THIAGO RISTOW, THIAGO FONTIN e RAPHAEL JESUS, pelo ótimo trabalho de programação visual, sendo que o último ainda assina as ilustrações.

O espetáculo é, no mínimo, impactante e instigante e não deixa nenhum espectador imune à comiseração pelo personagem, pelo “outro”, à solidariedade a ele, por seu sofrimento, e a uma reflexão acerca das armadilhas que a vida nos prepara e que é impossível fugir aos seus desígnios. Qualquer um de nós pode se transformar, amanhã, num MARMIELÁDOV.

A peça agrada em todos os aspectos, mas, certamente, o que mais pesa são a força e a capacidade interpretativa de YASHAR ZAMBUZZI, na pele do pobre MARMIELÁDOV.

Assisti ao espetáculo, pela terceira vez, na noite de estreia. A sessão estava prevista para ser iniciada às 19 horas. Uma hora antes do início, a casa já estava LOTADA. Detalhe: não era sessão para convidados; à exceção de meia dúzia de pessoas, como eu, TODOS ERAM PAGANTES. Cerca das 18h 30min, aproximadamente cinquenta pessoas “exigiam” uma sessão extra, no que foram atendidas, sessão esta que também teve LOTAÇÃO ESGOTADA, o mesmo acontecendo no dia seguinte.

Tenho a mais clara certeza de que “PARA ONDE IR” ainda terá muito tempo de vida pela frente, em função da grande qualidade do trabalho e pelo empenho de todos os envolvidos no projeto.

Recomendo MUITO o espetáculo!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM E DIVULGUEM O TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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