‘Ouvi Dizer que a Vida é boa’ – Só te digo uma coisa: ‘Carpe diem’

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Fico com pena, quando, por problemas de agenda, só consigo assistir a um bom espetáculo no final da temporada e, por isso, não tenho condições de revê-lo, que é o que irá acontecer, infelizmente, com a peça “OUVI DIZER QUE A VIDA É BOA”, a não ser que haja outras temporadas (MERECE!!!). A peça está em cartaz, em suas últimas sessões, na Arena do SESC Copacabana.

As crises, de todas as ordens, principalmente a econômica, que vimos atravessando nos últimos tempos, são, evidentemente negativas, porém, curiosamente, de forma paradoxal, também podem ser vistas positivamente. Falo, especificamente, do TEATRO. Apesar de tudo e de todos os que lutam contra, ainda há muita gente, grandes profissionais, que doam o sangue e dão a alma, para conseguir pôr um espetáculo de pé, como é o caso da CIA. DRAMÁTICA DE COMÉDIA, com 24 anos de estrada e bons serviços prestados ao TEATRO BRASILEIRO, ao resolver montar um texto inédito de JOÃO BATISTA, da forma mais simples – não simplista ou simplória -, porém com muito profissionalismo e competência.

JOÃO escreveu um excelente texto, partindo de uma simples frase, inserida numa situação: “Ah! Uma hora, é uma coisa; outra hora, é outra. O tempo vai passando…”.

 

SINOPSE

 

Há alguns anos, num jornal de domingo, uma das entrevistadas, numa matéria sobre “terceira idade”, era uma senhora, moradora do Rio de Janeiro, que afirmava que um grande sonho, que nunca havia realizado, era “ver o mar”.

Indagada sobre as razões de nunca tê-lo realizado, tendo morado tão perto dele, durante, praticamente, toda a vida, ela respondia: “Ah! Uma hora, é uma coisa; outra hora, é outra. O tempo vai passando…”.

Essa curiosa personagem da vida real serviu de ponto de partida para a criação de uma personagem de ficção, cuja saga, desde a infância, é contada em um tom bem-humorado.

A personagem (CAROL MACHADO), que não tem nome, vive seu sonho/drama, da infância à velhice, sempre encontrando obstáculos à sua realização.

“OUVI DIZER QUE A VIDA É BOA” explora o absurdo das situações pelas quais passa a personagem, que, por várias vezes, se vê na iminência de realizar seus sonhos de ver o mar, conhecer lugares e outros mais, mas, como bem disse a senhora, na entrevista, “O tempo vai passando.”.

E A VIDA VAI PASSANDO.


De acordo com o “release”, enviado por LEILA GRIMMING (ASSESSORIA DE IMPRENSA) “O espetáculo é uma narrativa musical, que dá continuidade à pesquisa de linguagem desenvolvida pela companhia em suas produções mais recentes (…). …as músicas do espetáculo são parte integrante da narrativa (…)”. Originalmente composta por MARCELO ALONSO NEVES, são todas executadas ao vivo, contando com o acompanhamento dos próprios atores, que tocam vários instrumentos musicais, de forma simples e singela, seguindo o tom da peça.

Considero quatro grandes destaques no espetáculo: o texto, a trilha sonora original, a iluminação e a interpretação de CAROL MACHADO, entretanto todos os demais profissionais envolvidos no projeto e os outros elementos também contribuem para esta ótima montagem.

O texto, além da ótima ideia, nos passa uma linda, grande e importante mensagem, a de que, para que consigamos ser felizes, não importam os obstáculos que surjam à nossa frente, é necessário pôr em prática a teoria do “carpe diem”, uma expressão, em latim, que significa “aproveite o dia”. Trata-se de uma metáfora que nos sugere ou, mais que isso, nos impele a viver a vida intensamente, minuto a minuto, uma vez que ela é efêmera, o tempo passa rapidamente e não podemos deixar escapar as oportunidades de conhecer e vivenciar o máximo possível daquilo que ela nos oferece, principalmente as coisas boas. O termo foi escrito pelo poeta romano Horácio (65 a.C.-8 a.C.), no Livro I de “Odes”.

A principal característica estrutural do texto reside no fato de os diálogos serem muito curtos e ágeis, “secos”, sem qualquer “gordura”, o que concede um potente dinamismo à peça. Devo chamar a atenção de quem me lê para alguns pontos, no texto, como o motivo que levou a personagem a se casar (Amor ou um “certo” interesse?); as intervenções da mulher do primo do marido, em cuja casa o casal migrante morava, quando vieram para o Rio de Janeiro; a importância do advérbio de lugar “lá”; o pouco valor que o marido dava para o mar (Quem tem não valoriza.); os diversos sentidos (valores denotativos e conotativos) do verbo “passar”; a fusão, de sentido, do verbo “esperar” (algo no tempo e a chegada de uma filha); as coincidências que havia no texto de um folhetim, que a personagem conseguiu numa igreja, com toda a sua vida, quando ela decidiu ir, sozinha “lá”. Vale muito a pena prestar bastante atenção ao texto.

A trilha sonora original, composta por um mestre no ramo, MARCELO ALONSO NEVES, tantas vezes premiado, é um primor, pela simplicidade e singeleza das melodias e das letras, que ajudam a construir e contar a saga da personagem. Estas se apoiam num mote: adiamento e passagem do tempo.

RENATO MACHADO, outro premiadíssimo profissional, assina uma das melhores iluminações, considerando as peças a que venho assistindo neste ano. A luz “dialoga” com os atores e marca, em zonas, distintamente, cada momento da peça, servindo, também, de elemento para mostrar o tempo passando e a eterna espera. É feita, digamos, de forma setorial, privilegiando os vários espaços por onde a ação acontece.

CAROL MACHADO apresenta-se em uma de suas melhores atuações. Ela encarna a mulher que, à medida que o tempo passa, se anula, diante das exigências da vida, cuidando da família, do irmão, depois do marido e dos filhos, da casa e dos pequenos afazeres da comunidade em que vive, enquanto deixa de lado suas vontades e desejos”. Uma bela lição de altruísmo. Em qualquer que seja a situação, qualquer que seja a idade da personagem, a atriz se mantém atenta ao que faz, sabendo utilizar, de forma bem expressiva, as ferramentas da voz e das expressões corporais, principalmente as máscaras faciais. Os desejos da personagem, não realizados, geram frustrações, como não poderia deixar de ser, mas ela parece, de certa forma, assimilá-las e “dar a volta por cima”, nem que seja aparentemente.

Os que, com CAROL, completam o elenco cumprem, com sobriedade e correção, seus papéis. São eles: ANA MOURA, CLEITON RASGA, GISELDA MAULERLUCAS MIRANDA, LUCIANO MOREIRA e SÔNIA PRAÇA.

O cenário, de DÓRIS ROLLEMBERG, é muito simples e atende à proposta da peça, comportando o mínimo necessário para o desenvolvimento das cenas: um feixe de galhos secos, no teto (confesso que não consegui atingir a proposta); uma mesa; duas cadeiras; uma mesinha de canto; alguns instrumentos musicais, agrupados numa parte da arena; duas maletas; um banquinho e alguns objetos de cena, como um ferro elétrico e utensílios de cozinha.

Os figurinos, de MAURO LEITE, não apresentam detalhes de destaque a serem comentados, a não ser o fato de apresentarem um certo “exotismo” nas combinações das peças (não combinam, propositalmente), puxando para um lado meio em desajuste com uma estética, “dita”, normal.

JOÃO BATISTA, contando com a facilidade de também ser o autor do texto, faz um bom trabalho de direção, com uma proposta de que os personagens falem com ênfase em determinadas sílabas, num ritmo frasal que foge ao convencional, muito próximo dos personagens rodriguianos.

Esta peça foi uma grata surpresa, para mim, motivo que me leva a recomendá-la.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,

POSSAMOS DIVULGAR O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE