‘Outros’ é obra de transição que transparece reflexões de um dos grupos mais importantes do país

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Depois de “Nós”, encenada em 2016, o Grupo Galpão traz “Outros” para o Rio de Janeiro. Em cartaz no SESC Ginástico, a peça coroa linguagem particular do grupo mineiro, um dos mais antigos e importantes do país, que propõe reflexão sobre lacunas nas relações.

O programa destaca o objetivo da montagem de pensar o tempo, “nosso tempo” em relação a um futuro, e o espetáculo tem, de fato, referências à passagem do tempo. Mesmo assim, o que mais me chamou a atenção foi como a linguagem adotada permitiu a expressão de uma série de lacunas nas interações humanas, independentemente de época, local ou contexto; lacunas oriundas, por exemplo, de hesitações, do exercício de se colocar no lugar do outro e pensar duas vezes antes de se dirigir a este.

Uma das digitais do Grupo Galpão, a música marca presença executada, como sempre, ao vivo pelos atores, cantores e poli-instrumentistas. Para além de seus talentos pessoais, seus corpos também são colocados no jogo como elementos fundamentais para a intercessão do que há de universal e de específico do grupo nas relações abordadas.

Cenário e figurino são bem neutros, contribuindo para uma ambientação que destaque as interações entre os atores, que também tomam a plateia.

Em suma, se pensarmos “Outros” como um espetáculo isolado, ele é consideravelmente abstrato, com reflexões difíceis de serem absorvidas sem um filtro (política, velhice, amor romântico, relações profissionais, enfim…). No entanto, esta me parece uma maneira pobre de encará-lo, sobretudo em se tratando do Grupo Galpão, que tem uma história (em si e no âmbito do teatro brasileiro) que não pode ser ignorada. Quando esta é inserida no quadro, vemos uma companhia em pesquisa contínua de renovação, de busca por novas formas de fazer teatro e pensar a sociedade através dele, sem, neste processo, abandonar suas bases: interação teatro-música, proximidade com o público, certa teatralidade calcada no equilíbrio entre os atores.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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