‘O som e a Sílaba’ – Resumo da ópera: Obra-prima!

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Por mais de uma vez, felizmente, vi-me diante de uma situação, paradoxalmente, boa e ruim, ao mesmo tempo; fácil e de dificílima resolução, simultaneamente.

A pessoa assiste a um espetáculo (Perdão: a uma OBRA-PRIMA!!!), sai do Teatro em total estado de graça, com a nítida sensação de ter visto e sentido Deus, sentado na poltrona do lado, e trocado comentários com ele, e volta para a sua casa, em êxtase total.

Já estava decidido a escrever uma crítica sobre o espetáculo, muito antes de ter assistido a ele, pois tinha a certeza plena (Vale o pleonasmo, porque todos os pleonasmos e hipérboles ainda serão insuficientes, quando se trata do espetáculo que é motivo desta crítica.), por tudo o que já lera e ouvira falar da peça, senta-se diante de um computador e… …TRAVA. Não sabe nem por onde começar e o que dizer. E já fica preocupado com a descoberta de adjetivos novos, ao nível da encenação aqui analisada. Se não conseguir criar meus neologismos, paciência! Apelo para os epítetos de “domínio público”.

Bem! Já escrevi alguma coisa e parece que está começando a “destravar”. Agora, que os DEUSES DO TEATRO me inspirem!!!

Dizer que MIGUEL FALABELLA é um gênio é tão comum e verdadeiro quanto as centenas de ditados populares, como “Água mole em pedra dura, tanto bate, até que fura.”“Santo de casa não faz milagre.”“Mais vale um pássaro na mão que dois voando.”, e por aí vai… Dizer que ele se superou, com “O SOM E A SÍLABA”, em cartaz no Teatro XP Investimentos, antigo Teatro do Jockey, não seria verdade, pois, com este espetáculoMIGUEL completa uma “quadra” de OBRAS-PRIMAS, que se equivalem, por caminhos e características diferentes, iniciada com “A Partilha”, seguida de “Império” e “O Homem de La Mancha”. As duas primeiras, como autor, que é sobre o que estou falando agaora (A segunda, em parceria com Josimar Carneiro.) e esta, mais como diretor, embora tenha sido responsável, também, pela adaptação do texto original. Costumo, em tom de brincadeira (É óbvio!!!) dizer, inclusive ao próprio FALABELLA, que “ele tem todo o direito de escrever os piores textos para o TEATRO”, o que jamais ele faria, evidentemente, porque seria “perdoado”, até seu último dia de vida, e mesmo depois de morto, pelas três OBRAS-PRIMAS anteriores a “O SOM E A SÌLABA”. Agora o “perdão” vale pelas quatroQuatro OBRAS-PRIMAS!!! E por outras, que, certamente, virão por aí, porque MIGUEL é uma fábrica de sonhos e surpresasMIGUEL FALABELLA é sinônimo de soma ou multiplicação; está mais para esta.

 

SINOPSE

 

“O SOM E A SÍLABA” trata da relação entre SARAH LEIGHTON (ALESSANDRA MAESTRINI) e LEONOR DELISE (MIRNA RUBIM), duas mulheres muito diferentes, opostas em quase tudo, porém guardando algumas afinidades entre si.

A primeira é uma jovem com dificuldades em se enquadrar na sociedade, porém completamente única, por conta do diagnóstico de Síndrome de Asperger, um transtorno neurobiológico, uma “variação” do autismoSARAH é, mais propriamente, uma portadora da síndrome de “Savant”, o que significa dizer que possui um autismo altamente funcional, que, por um lado, lhe permite habilidades em algumas áreas, entre elas números e música, como se vê em cena; e que, por outro, faz com que ela se comunique com o mundo de uma maneira inusitada, gerando situações hilárias.

SARAH mora com o irmão e a cunhada, a qual a rejeita explicitamente e tem como grande intento se livrar daquele “estorvo”. O irmão de SARAH, tendo descoberto seu dom para o canto, resolve levá-la a procurar LEONOR, com o objetivo de refinar sua vocação, e a moça, que já se descobrira dona de uma belíssima e possante voz, deseja mais: tornar-se uma grande cantora lírica e ocupar um espaço que lhe é negado na, e pela, sociedade, alçar voos muito altos.

Já a segunda é uma diva internacional da ópera, do “bel canto”, com mais de 50 anos, que, por acasos da vida, se tornou professora de canto. Direta, elegante, refinada e aparentemente bem resolvida. Aparentemente, pois é uma mulher com uma história de vida traumática, do ponto de vista afetivo, a ponto de estar rompida com a filha, que lhe “roubara” o segundo marido.

A relação entre as duas não começa muito bem, porque a mestrademonstra uma certa incredibilidade, com relação à discípula, evoluindo para a irritabilidade, por mero preconceito, entretanto, com o passar do tempo e a persistência e determinação de SARAH, tudo se transforma numa linda amizade.

Na verdade, uma faz bem à outra. Enquanto LEONOR conduz SARAH a atingir seu objetivo maior, esta ensina àquela os caminhos para recuperar os afetos perdidos, a relação mãe / filha. E fica a pergunta: Quem está ensinando a quem?

De forma brilhante, o impecável texto mergulha, profundamente, na temática da inclusão social e cria um espetáculo que pode ser classificado como uma comédia dramática musical; não, exatamente, um musical, explorando, com o máximo de maestria e cuidado, a seara do canto lírico.


Por duas vezes, tentei assistir à peça, em São Paulo, contudo, por motivos diversos e alheios à minha grande vontade, não consegui lograr êxito e, bastante frustrado, fiquei numa torcida nervosa, para que a montagem viesse logo para o Rio de Janeiro, o que, felizmente, está acontecendo agora.

Além de uma brilhante carreira na “terra da garoa”, onde estreou, em temporada oficial, no dia 02 de outubro de 2017, no lindo e aconchegante Teatro Porto Seguro, a peça vem viajando, por mais de um ano e meio, tendo passado por várias cidades do interior paulista e algumas capitais, sempre com o maior sucesso de público e de crítica, tornando-se uma unanimidade, o que serve, mais uma vez, para contradizer a “equivocada” (para ser bem eufemístico) teoria de Nelson Rodrigues, de que “toda unanimidade é burra”MAS NÃO É MESMO, em casos como este!!!Antes da estreia paulistana, o espetáculo fez uma espécie de “esquenta”, por cidades do interior paulista, começando por Osasco, em 17 de agosto de 2017.

altíssima, extremíssima, qualidade do espetáculo rendeu-lhe muitos prêmios e indicações, até o presente momento, porque, certamente haverá mais, a saber:

PRÊMIOS RECEBIDOS NO TOTAL – 05

– 02 de Melhor Roteiro Original, para Miguel Falabella;

– 01, de Melhor Direção, para Miguel Falabella;

– 01, de Melhor Atriz, para Alessandra Maestrini;

– 01, de Melhor Figurino, para Lígia Rocha e Marco Pacheco.

INDICAÇÕES NO TOTAL – 23

– 04 Indicações a Melhor Produção / Melhor Musical / Melhor Musical Brasileiro, para Maestrini Produções;

– 04 Indicações a Melhor Texto, para Miguel Falabella;

– 05 Indicações a Melhor Direção, para Miguel Falabella;

– 05 Indicações a Melhor Atriz, para Alessandra Maestrini;

– 02 Indicações a Melhor Elenco, para Alessandra Maestrini e Mirna Rubim;

– 01 Indicação a Melhor Atriz Coadjuvante, para Mirna Rubim;

– 01 Indicação a Melhor Iluminação, para Wagner Freire;

– 01 Indicação a Melhor Figurino, para Lígia Rocha e Marco Pacheco


peça foi escrita, especialmente, para duas das mais representativas celebridades do TEATRO BRASILEIRO, mormente na área dos musicais“Celebridades”, no melhor sentido denotativo da palavra, bem distante do conceito que a mídia e o grande público atribuem ao vocábulo: ALESSANDRA MAESTRINI eMIRNA RUBIN. E, apesar de substituições, em elencos, serem comuns, no TEATRO, não posso conceber a mínima possibilidade de ver qualquer uma das duas substituída, a despeito de termos grandes atrizes / cantores no Brasil.

Mas o que tem de tão especial este espetáculo“TUDO” resumiria tudo. Do texto às atuações, passando por todos os elementos técnicos e de criação na montagemTrata-se de um dos melhores, mais lindos e marcantes espetáculos a que já assisti em toda a minha vida. Desafio quem, tomado pelo maligno “espírito de porco”, insista em encontrar um senão nesta montagem. Perderá seu tempo e merecerá um “BEM FEITO!”.

O TEXTO É UM PRIMOR!!! Embora apareça, na ficha técnica, como uma “comédia musical”, ele está mais para uma “comédia dramática musical”. E as três palavras estão, visivelmente, presentes no espetáculo. É uma “comédia”, porque, o comportamento de SARAH, por meio de suas palavras, teorias e gestos, provoca o riso, por trás do qual há, sempre, uma crítica, uma verdade, uma espécie de vetor para uma boa reflexão. O adjetivo “dramática” fica por conta dos dramas de ambas as personagens, que estavam ocultos e que vêm à tona, a partir do relacionamento entre elas; dramas diferentes, porém muito sofridos, ambos. Já o “musical” qualifica um espetáculo em que a música surge com uma força enorme e de primordial importância, como um elo, a unir a vida e os caminhos futuros das duas personagens. Não se trata de um musical, no formato que, logo, nos vem à cabeça, porém nos remete a uma espécie de musical de câmara, discreto, circunspecto, sem coreografias e grandes mirabolâncias. A música entra para costurar as cenas, sob a forma de árias e duetostrechos de algumas óperas, sendo que todas, em suas letras, têm uma relação com a cena a que estão atreladas. Não foram selecionadas aleatoriamente. Entrou aí o trabalho de pesquisa e o conhecimento musical erudito de FALABELLA. Que delícia, que afago, na alma e no coração, é ouvir trechos de belíssimas óperas, e tudo isso nas potentes, lindas, afinadas e harmoniosas vozes de duas sopranos, duas virtuosesALESSANDRA MAESTRINI e MIRNA RUBIN, em solos ou duetos.

Giacomo Puccinicompositor italiano, do século XIX, é o autor que mais aparece na trilha sonora, com “Vissi D’Arte”, da “Tosca”“Quando M’En Vo”, extraído de “La Bohème”“Oh Mio Babbino Caro”, da ópera “Gianni Schicchi”; e “Chi Il Bel Sogno Di Doretta”, da ópera “La Rondine”Gounod também se faz presente, com “Je Veux Vivre”, da ópera “Romeu e Julieta”, assim como, também, tem a sua vez Leo Delibes, com “Viens, Mallika” e “Les Lianes Na Fleurs”, que fazem parte da ópera “Akmé”.

roteiro tinha tudo para acabar num melodrama mexicano, piegas e enfadonho, entretanto, com esta história tão simples e, por isso mesmo, candidata a mais um texto teatral comum, como tantos outros, ocorre, exatamente, o contrário. E não há nenhum mistério nisso. Nas mãos competentes de FALABELLA, o textoexplode, de dentro para fora, ao colocar em “contenda” duas personalidades tão díspares, mantendo um diálogo muito bem construído, do ponto de vista técnico, com excelentes tiradas engraçadas, muito divertidas mesmo, piadas inteligentes e oportunas, formando um amálgama com cenas que causam profunda emoção, havendo, nitidamente, em todo o corpo textual, demonstrações de humor, afeto, empatia e comoção.

Antes de ter assistido à montagem, apesar de já conhecer sua sinopse, muita curiosidade havia em mim, com relação ao título da peça, porém, ao final da sessão, creio (Pode ser que seja uma “viagem” de minha parte.) que se trata de uma singela homenagem à grande poeta norte-americana Emily Dickinson, de quem o autor é grande admirador, assim como eu. Pela junção da música com a literatura, deve ter surgido “O SOM E A SÍLABA”.

Ambos, eu e ele, estudamos na Faculdade de Letras, da UFRJ. Fomos quase contemporâneos – ele um pouco depois de mim – e penso que todas as disciplinas eletivas, na cadeira de literatura americana, que fiz, sobre a obra de Dickinson, ele também deve ter cursado, nos semestres seguintes. Essa formação acadêmica, certamente, foi, ainda é e será, sempre, importante no seu ofício de escritor.

Nesta peçaMIGUEL, sem intenção aparente, nos passa, didaticamente, sem ser “didático”, pejorativamente falando, muitas informações acerca do universo de um tipo de gente muito “especial”, que são os portadores de distúrbios neurológicos ligados ao autismo. Ele nos ajuda a enxergar o “problema” de forma empática e desmitificada. Mostra-nos quão fácil e necessário é trabalhar pela inclusão social.

Se falei muito do MIGUEL autor, menos procurarei falar sobre o diretor. Não porque não haja o que ser dito, mas por se tornar desnecessário e para encurtar esta, já tão longa, crítica. Ele sabe que a peça é para (as) e das duas atrizes. Ele conhece, como a palma de sua mão, o potencial de cada uma delas, o quanto de talento cada uma esbanja, interpretando e cantando. Aqui, MAESTRINI leva um pouco mais de vantagem sobre MIRNA, já que esta se dedica, muito mais, à música, às sua preciosíssimas aulas, à preparação vocal, apresentando-se, bissextamente, como atriz, porém, quando o faz, mergulha, de cabeça, no seu trabalho e consegue resultados brilhantes, como no espetáculo em tela. E quem lucra somos nós.

FALABELLA apostou todas as suas fichas no virtuosismo de suas duas magníficas atrizes / cantoras e não se preocupou em querer que seu trabalho de direção aparecesse mais que a atuação das duas. Não deve ter tido muito trabalho na condução da proposta de direção de atrizes, até porque ambas são de um profissionalismo a toda prova. Foi certeiro nas marcações, procurou preencher o espaço cênico, de forma que, apesar de apenas duas pessoas em cena, passa a impressão de que estamos diante de um elenco de muitos atores. Não posso deixar de repetir o tratamento que utilizei, quando me referi ao textoA DIREÇÃO DE MIGUEL FALABELLA É PRIMOROSA!!! É cheia de detalhes, requintes, sensibilidade, ousadia, delicadeza, de um bom gosto extremo, bordada em filigranas de ouro.

E o que dizer das duas interpretações? E haja redundâncias:

ESPLÊNDIDAS!!! COMOVENTES!!! CONVINCENTES!!! PRIMOROSAS!!!IMPECÁVEIS!!! IRRETOCÁVEIS!!!

INACREDITÁVEL!!! É impossível conter o riso e as lágrimas, diante de um trabalho que quase nos obriga a uma autoflagelação, por meio de fortes beliscões, na própria carne, para termos a certeza de que não estamos sonhando, de que não estamos no céu, de que não são dois anjos celestes a nos embriagar com sua música, com suas vozes cristalinas, seguras, suaves… Angelicais!!!

Tão diametralmente opostas são as duas personalidades, defendidas, com total segurança, apuro e beleza pela dupla ALE$SSANDRA e MIRNA. Esta, que, na vida real, é professora de canto daquela, na pele de LEONOR DELISE, se comporta como uma diva “recolhida”, pelas armadilhas que a vida coloca no nosso caminho. É uma mulher que traz marcas indeléveis de dor, na sua alma; é de gestos curtos, econômica nas palavras, a não ser que seja provocada; é pragmática e, aparentemente, desapegada dos bons sentimentos e prazeres da vida, à exceção da música, seu alimento principal. Merece um destaque especial a transformação pela qual a personagem vai passando, à medida que os laços entre ela e SARAH vão sendo construídos e tornados robustos. Ela vai, aos poucos, deixando de lado a frieza e, até certo ponto, um pouco de arrogância, do início da peça, passando para um amolecimento de coração, um sentimento de amor, quase maternal, pela aluna.

ALESSANDRA, como SARAH LEIGHTON, por sua vez, a que não é a “normal” da dupla, tem um comportamento que a leva para “fora da caixinha”, conquanto, na verdade, seja a que mais está dentro dela. De sua boca, sai um texto mais leve, engraçado, porém de muita profundidade. É de uma enorme sagacidade e consegue, a personagem, coisas mirabolantes, como saber o que alguém está digitando, no teclado de um computador ou de um celular, de longe, apenas por ter decorado a posição das teclas. Algo totalmente inusitado, uma das características de quem leva consigo a marca de um / uma “Savant”, pessoa que é capaz de fazer, de cabeça, as mais difíceis operações matemáticas ou de tocar uma canção, ao piano, tendo-a ouvido uma única vez. “A Síndrome de Savant (palavra de origem francesa, que significa ‘sábio’ – daí a síndrome do sábio, pela qual também é conhecida) é um distúrbio psíquico raro, que faz com que algumas pessoas tenham habilidades intelectuais extraordinárias, conhecidas, também, como ‘ilhas de genialidade’. Esses talentos estão sempre ligados a uma memória acima da média, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito. Como abordado anteriormente, a principal característica da Síndrome de Savant é a capacidade extraordinária em determinadas áreas, como arte, música, cálculo de calendário, matemática e habilidades mecânicas / visuoespaciais. Outras habilidades não tão frequentes são estas: linguagem (poliglotia), discriminação sensorial, atletismo e conhecimento em áreas específicas, como neurofisiologia, estatística e programação de computadores.”.(https://www.minhavida.com.br/saude/temas/sindrome-de-savant).

É bem significativo o grau de dificuldade, para ALESSANDRA MAESTRINI, ao representar uma personagem como SARAH, que tem um jeito de olhar diferente, expressões faciais diferentes, gestos diferentes, um jeito de falar diferente, que precisa ser muito bem dosado, na composição da personagem, a fim de que não penda para a caricatura, o que, infelizmente, vemos, muitas vezes, no palco. Ao contrário disso, ela nos brinda com uma interpretação tão ajustada, no ponto, sem gorduras desnecessárias.  O que não se pode negar é que essas duas grandes artistas “abusam do direito” de serem PERFEITAS, em cena, atuando e / ou cantando, e ambas se complementam no espetáculo, com vozes e maneiras de cantar distintas, mas que se equivalem em qualidade, sensibilidade e técnica.

Não deixa de ser curioso, antes do início de cada sessão, ouvir-se, em gravação, a voz de FALABELLA, esclarecendo que não há “dublagens”, que “todos os números musicais são ao vivo”. Curioso, porém necessário, para alguns desavisados, que podem achar que o cantar que passarão a ouvir possa ser “de mentirinha”, tão fantástica é a “performance” das duas divas.

Quanto aos elementos técnicos e de criação, passo a analisar um pouco do que vi, em cena, e que, no conjunto, marca muito ponto para o esplendor desta montagem.

Começo pela linda, discreta e requintada cenografia, de ZEZINHO SANTOS e TURÍBIO SANTOS, reproduzindo a sala de estar da professora de canto, com móveis e elementos de decoração um tanto “vintage”, o que significa dizer algo clássico, antigo e de excelente qualidade, bem de acordo com a personalidade de LEONOR.

Pulo para os figurinos, assinados por LÍGIA ROCHA e MARCO PACHECOUm verdadeiro deslumbramento e todos vestindo, “comme il faut”, as duas personagens. Os trajes de LEONOR, requintadíssimos e de um acabamento ímpar, contrastam com os de SARAH, muito simples, despojados de requinte, embora, ao longo da trama, a personagem vá evoluindo, no seu “look”, tornando-se mais leve e moderna, mantendo, sempre, porém, sua simplicidade.

WAGNER FREIRE é o responsável pelo desenho de luz, que valoriza tudo o que há em cena. A iluminação é belíssima e com mudanças muitos sensíveis e oportunas, para o deleite de nossos olhos.

Um elemento, num espetáculo como este, da maior importância, é o chamado desenho de som, aqui, sob a responsabilidade de MÁRIO JORGE ANDRADE, o qual fez um ótimo trabalho, que nos permite ouvir, em detalhes, tudo o que é tipo de som, devidamente equalizado e agradável aos ouvidos.

visagismo também merece ser destacado, nesta encenaçãoWILSON ELIODÓRIO foi de uma precisão cirúrgica na caracterização das duas personagens, de modo a contribuir para que possamos acreditar que elas “existem”.

Esta é a terceira empreitada, como produtora, de ALESSANDRA, por meio de sua MAESTRINI PRODUÇÕES. A primeira foi o delicioso “show” “Drama ‘n Jazz”, que virou um CD, que não me canso de ouvir; a segunda foi a emblemática “Yentl em Concerto”, baseado no filme “Yentl”, transformada num DVD de cabeceira. Pela primeira vez, ela assina a produção e realização de um projeto idealizado por um terceiro, e seu grande amigo: MIGUEL FALABELLA.

E o que mais dizer sobre esta OBRA-PRIMA?

Que ele consegue ser um espetáculo popular, ao mesmo tempo que imerge no campo do canto lírico, da ópera, e que, mesmo os que não têm a menor intimidade com este tipo de arte vão adorá-lo e poderão se interessar por esse segmento de espetáculo? Que ele é um grande desafio, para MIGUEL FALABELLA e lhe abre uma nova identidade, como artista? Que ele é capaz de fazer rir e chorar, na mesma intensidade, pessoas de qualquer idade, uma vez que é um espetáculo para a família e que toca, muito profundamente os corações mais empedernidos? Que ele transborda amor à música, um sentimento de paixão pela vida, é uma celebração à amizade verdadeira e é transformador, como é o TEATRO, de uma forma geral? Que é algo arrebatador e que merecia ser visto, e revisto, por todas as pessoas, ficando em cartaz “ad aeternum”? Que ele é uma espécie de “droga”, que anestesia, sem fazer mal; aliás, muito ao contrário? Que tudo o que se possa dizer sobre ele sempre será insuficiente, porque é algo para se ver, ouvir, e sentir? Que, plagiando o poeta, meu xará, Gilberto Gil, se eu quiser falar com Deus, tenho de assistir a “O SOM E A SÍLABA”Que ele é um dos espetáculos mais lindos e marcantes que já vi em toda a minha vida?

É melhor parar por aqui, sem, antes provocar os que já viram a peça e os que ainda assistirão a ela. Na cena final (Isso não é “spoiller”.)ALESSANDRA eMIRNA cantam em dueto, durante a etapa final de um concurso de música, no qual SARAH se inscrevera, às escondidas e sob os protestos de LEONOR, quando soube, do qual a mestra não acreditava que a moça pudesse se sagrar vencedora. Quem é aquela que canta junto com SARAH? Prestem bastante atenção à cena que antecede esta última!

Não vejo a hora de rever o espetáculo!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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