‘O Segundo Armário’ consegue transformar tema literário em material teatral de ótima qualidade!

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“O Segundo Armário” nasce de uma inquietude genuína, e toma forma (tanto o livro quanto a adaptação teatral) a partir de uma decisão inteligente e sensível: tematizar a discriminação sofrida por quem tem uma doença incurável. Esta discriminação transforma completamente a vida do portador, obrigando-o a esconder-se em um “segundo armário”, comparável ao “armário” da sexualidade. Belo título, que traduz plenamente um enredo que também aborda o preconceito em relação à homossexualidade.

Para além dos elogios ao texto de Salvador Corrêa e à adaptação de Antonio de Medeiros, a peça possui tantas qualidades que chega a suplantar o que seria uma “limitação teatral” inerente ao tema: a encenação de uma impressão interna. Mesmo em um monólogo, é praticamente impossível você conseguir traduzir cenicamente as sensações de um protagonista sem incorrer em um processo ininterrupto de descrições, deixando a peça chata. Isso não acontece em “O Segundo Armário”.

Em primeiro lugar, porque estas descrições são entrecortadas por estados de espírito praticamente opostos, intercalando tragédia e comédia. Em segundo, porque a peça não economiza na realização de pausas e partituras corporais. Estas variações não só colorem a narrativa como transferem considerável importância ao ator, intensificando a característica responsabilidade de um monólogo.

Com enorme peso sobre seus ombros, e somando-se uma limitação do espaço (um auditório que oferece quase nenhuma estrutura para cenário e iluminação), Hugo Caramello se sobressai em cada decisão tomada, em cada pequena entonação e opção por virilidade ou delicadeza física. É impressionante como a atuação (aí incluso o trabalho de Silvana Stein como supervisora corporal e vocal) consegue concentrar tamanha condução dramática.

No fim das contas, “O Segundo Armário” consegue ser um encontro de elementos de excelência, harmonizados pela direção de Jean Mendonça. No outro polo, há que se lembrar que, apesar do tema provocar empatia, ele permanece circunscrito a uma realidade específica, cujas inquietudes, apesar de genuínas, encontram melhor tradução na literatura do que no palco, reduto mais confortável para embates de proporções menos subjetivas.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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