‘O que é que ele tem’ – Uma prova de amor, um tributo à vida, um ato de coragem, um espetáculo emocionante

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Está em cartaz, no Teatro SESI Centro, no Rio de Janeiro, um monólogo que é, exatamente, tudo o que escrevi no subtítulo desta crítica. E mais algumas coisas…

Junte-se uma linda e emocionante história, um texto muito bem escrito, uma direção correta, uma interpretação impecável e os suportes criativos e técnicos necessários a uma boa montagem teatral e ela surge, num palco, sem mistérios e ao alcance de qualquer pessoa de sensibilidade apurada. E emociona muito o espectador.

Em seu primeiro solo, a excelente atriz LOUISE CARDOSO nos conta a trajetória de duas vidas: a da cantora OLÍVIA BYINGTON e de seu filho JOÃO, com o cineasta Miguel Faria Jr.. O espetáculo é uma transposição, para o palco, feita por RENATA MIZRAHI, do livro homônimo, “O QUE É QUE ELE TEM”, escrito por OLÍVIA, no qual ela conta o que representou, e representa, até hoje, a entrada de JOÃO na sua vida, a relação entre ambos, ele que nasceu com uma síndrome raríssima, a de Apert, sobre a qual falarei, de leve, um pouco mais adiante.

Da forma mais corajosa, e amorosa, também, OLÍVIA publicou, em 2016, um livro, a partir de suas memórias, abrindo o coração e escancarando as portas da sua intimidade, no qual ela remexe em cada meandro do seu interior, para tornar pública a sua vida, a partir dos 22 anos, quando JOÃO veio ao mundo, segundo ela, para fazê-la muito feliz. Na época do lançamento da publicação, houve muitos comentários elogiosos, da crítica e dos leitores, os quais se comoveram muito com os detalhes da narrativa. Assisti, à época, a inúmeras entrevistas da autora, sobre o livro, e fiquei conhecendo muito de seu conteúdo. Uma vez, com um exemplar, que me caiu nas mãos, por acaso, durante umas horas, li, rapidamente, alguns trechos, que mexeram bastante comigo e me instigaram a lê-lo na íntegra, o que nunca consegui fazer, infelizmente, mas continuo interessado em. Chamou-me a atenção, além, obviamente, da maneira natural e poética como ela ia contando, cronologicamente, os fatos, a linguagem empregada, a escrita, muito simples, para atingir qualquer leitor.

“O QUE É QUE ELE TEM” conta uma história de um amor incondicional entre uma mãe e seu filho, nascido com a síndrome de Apert, causada por uma mutação genética, que gera acrocefalia (desenvolvimento do crânio anormal) e sindactilia (pés e mãos fundidos total ou parcialmente), para simplificar as suas características e o que ela significa para os seus portadores.

 

SINOPSE

 

Logo que nasceu, em 1981JOÃO foi diagnosticado com a raríssima síndrome de Apert.

Aos 22 anos e mãe de primeira viagem, OLIVIA BYINGTON viu seu filho sair, diretamente da maternidade, para o centro cirúrgico, quando iniciou uma verdadeira odisseia, com dezenas de cirurgias, alguns erros médicos e viagens para tratamento em outros países.

Ela precisou interromper a bem-sucedida carreira de cantora, que iniciava, para se lançar ao enorme desafio que vinha pela frente.

Após todo o período inicial, ainda que os problemas de saúde, volta e meia, voltassem a aparecer, OLIVIA começou uma outra batalha, bem maior e, ainda, mais complexa: a luta pela inclusão de seu filho em um mundo que não está preparado para conviver com a diferença.

Essa tempestade de revelações e emoções é o que aguarda o espectador que vai assistir a “O QUE É QUE ELE TEM”.


Sei que o(a) meu(minha) leitor(a) pode estar pensando se vale a pena sair de casa, para assistir a uma peça “pra baixo”, que vai fazer com que ele(a) deixe o Teatro chateado(a), triste, deprimido(a), até (Quem sabe?) Pois é! Esse pensamento é bastante compreensível, no entanto, prepare-se para o oposto. Vale muito a pena assistir a este espetáculo. Eu diria, até, que todas as pessoas deveriam assistir a ele. Por mais que sejam abordados, comentados e mostrados momentos tristes, difíceis, durante os 37 anos de existência do filho tão amado, passagens dramáticas, isso surge de uma forma tão leve e natural, graças à maneira como OLÍVIA enxergou o “problema” de JOÃO, sem perder a lucidez e se utilizando, até mesmo, de pitadas de um humor ingênuo e leve e, mais ainda, pela maneira, tão delicada, como RENATA MIZRAHI soube dramatizar a narrativa, que acaba por ser um dos melhores monólogos deste ano de 2018, no Rio de Janeiro, fadado a uma longa carreira, sucesso de público e de crítica.

No princípio, como nem poderia deixar de ser, OLÍVIA teve de, ela, principalmente e em primeiro lugar, tentar entender o que estava se passando e, acima de tudo, “aceitar” o filho, como ele nascera. Mas “aceitação” é sinônimo de “aquiescência”“anuência”“concordância”“consentimento”… Envolve passividade, o que não combina com OLÍVIA BYINGTON. Mas, também, significa “acolhimento”“receptividade”. E era disso que JOÃO precisava, e precisará, até o final de sua vida. Mais que ser aceito, ele tinha o direito de ser amado, e não poderia ter caído em melhores braços do que os daquela mãe. OLÍVIA foi, é e sempre será “A MÃE”.

Não sobra, neste espetáculo, espaço para a vitimização e a autocomiseração. De acordo com o “release” da peça, enviado por PEDRO NEVES (FACTORIA COMUNICAÇÃO)“É uma história de muitas vitórias. OLÍVIA não se faz de coitada, em momento algum. Ela vai à luta, enfrenta os problemas, com absoluta leveza, coragem e muita determinação. Ela e JOÃO são exemplos de otimismo e amor à vida. A adaptação para o TEATRO privilegia muito a essência desse comportamento e dessa visão de mundo tão importante”, no dizer de LOUISE CARDOSO.

LOUISE leu o livro, apresentado a ela por FLÁVIO MARINHOidealizador do projeto, apaixonou-se por ele e chegou até OLÍVIA, com a proposta de tornar sua obra numa peça teatral. Desde logo, acho que não a OLÍVIA escritora, mas “a mãe do JOÃO” comprou a ideia, embarcou naquele sonho, agora tornado realidade. E que bela realidade!

Foi ótima a lembrança do nome de RENATA MIZRAHI, para a transformação da obra, de uma mídia em outra. RENATA é dos mais representativos nomes, dentre os jovens dramaturgos brasileiros, vencedora de vários prêmios e indicada a tantos outros. Ela parece ter sido bastante fiel ao livro de origem (Não o li, ainda, mas quem já o fez me garante que sim.), costurando bem todas as passagens, transformadas em cenas, numa linguagem também simples e direta, com pequenos intervalos, breves, porém profundos silêncios, que servem de descanso, físico e emocional, à atriz, para uma retomada de fôlego, e de toques para a reflexão do espectador, conseguindo, facilmente, prender a atenção do público, o que não é fácil, num monólogo, aproximando bastante, numa grande cumplicidade, palco e plateia.

montagem é bastante simples, porém de um requinte total, representado, além da impecável atuação da atriz, por um conjunto de elementos, que, somados, atingem um excelente resultado.

Poucas atrizes, além de LOUISE CARDOSO, quero crer, estariam tão bem em cena, na pele de OLÍVIA BYINGTONLOUISE não parece, mesmo, representar; ela conversa com as pessoas. É como se estivesse fazendo uma leitura dramatizada, valorizando, bastante, o texto, com sua vasta experiência de grande atriz, amparada pela ótima direção de FERNANDO PHILBERT, o qual explora a empatia do público, em relação à personagem em cena.

Na cenografia, assinada por NATÁLIA LANA, destaca-se um moderno e arrojado conjunto, formado por um sofá e uma cadeira, de metal, esta, durante quase todo o tempo de duração do espetáculo, ao lado daquele, como se formasse uma só peça, tendo, como assento, tiras largas de espuma, retorcidas, formando, o todo, algo diferente, raro de ser visto, um pouco estranho, parecendo desconfortável, à primeira vista. Só que não!!! Ao lado desse agrupamento, uma pequena mesa, no mesmo estilo. No centro do palco, um enorme tapete vermelho e, ao fundo, penduradas, placas metalizadas, disformes, sobre as quais são projetadas imagens, acompanhando o texto, num excelente trabalho de videografismo, dos irmãos RICO e RENATOVILAROUCA, sobre ilustrações, para o livro, da própria OLÍVIA BYINGTON.

Durante toda a peçaLOUISE CARDOSO veste um único figurino, elegante e discreto, desenhado por RITA MURTINHO.

peça não exige muito da iluminação, mas VILMAR OLOS encontrou os momentos exatos em que mudanças de luz devem ser feitas, para realçar detalhes e situações ou tirar de foco o que não é de interesse, temporariamente.

MARCELO ALONSO NEVES merece um elogio especial, pela felicíssima ideia de montar uma trilha sonora calcada em gravações de OLÍVIA BYINTON, uma justa e merecida homenagem, que, ainda por cima, não foi gratuita, uma vez que as canções se encaixam, perfeitamente, nos momentos em que são inseridas na montagem.

Belo trabalho de direção de movimento realizou MÁRCIA RUBIN. Não é tarefa muito fácil estabelecer posturas e movimentos para uma só pessoa num monólogo, para evitar a monotonia.

Pegando carona no já citado “release”“O QUE É QUE ELE TEM” “Mais do que uma história de superação, é uma história de amor, que nos faz refletir sobre conviver em sociedade e lidar com as diferenças.” (LOUISE CARDOSO).

peça, além de tudo o que tem de bom, é muito oportuna, bastante aplicável aos dias de hoje, quando tanto se discute a importância e a necessidade da inclusão social, para aqueles que são considerados “diferentes”.

Alguns, como aconteceu comigo, antes de assistir ao espetáculo, a princípio, devem estranhar a falta de pontuação, ao final do título, que é uma frase; ou não. Se viesse seguido de um ponto de interrogação, seria, exatamente, a pergunta que OLÍVIA ouviu tantas vezes, na vida, feita por palavras ou por olhares covardes ou indiscretos. Se viesse seguido de um ponto, este indicaria um final, uma conclusão. Parece-me que a ausência de pontuação é proposital e mostra, simplesmente, que OLÍVIA não deseja nada mais do que esclarecer a síndrome que JOÃO carrega e mostrar que ele tem muito mais do que deformações físicas e outras sequelas. Ele tem muita alegria, amor à vida, paixão por uma namorada, bom humor e uma luz interior, que cativa aqueles que com ele convivem, parentes e amigos.

Para encerrar, nada melhor que transcrever duas frases que me marcaram, durante a peça, desde o momento em que foram ditas, seguidas, até o fechar da cortina:

“Nada é melhor, para alguém com deficiência, do que o convívio em sociedade”.

 “Nada é melhor, para a sociedade, do que o convívio com as diferenças”.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS,POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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