‘O Princípio de Arquimedes’ – É aí que mora o perigo

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida?

O excelente espetáculo “O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES”, em cartaz no Teatro I do SESC Tijuca traz à tona esse questionamento, que, tantas vezes, nos fazemos. Aqui, refiro-me a um tema que, constantemente, está presente, na grande mídia, de forma sensacionalista, na maioria das vezes, atingindo níveis que podem se aproximar do equivalente a uma devastação causada por um tsunâmi.

Reporto-me, especificamente, ao famoso caso da Escola de Educação Infantil Base, mais conhecida como Escola Base, no ano de 1994, em São Paulo, totalmente destruída – o prédio físico e a vida de sete pessoas – quando duas mães de alunos, de quatro anos de idade, sem qualquer prova concreta, procuraram uma Delegacia de Polícia e denunciaram, ao delegado, a prática de pedofilia na escolinha, supostamente cometida pelo casal que dirigia a instituição, os pais de um dos alunos, em cuja casa teriam acontecido “orgias sexuais”, uma professora, uma outra professora, também sócia da escolinha, seu marido e o motorista da van, que transportava as crianças, dentro da qual, também “se davam” as reprováveis e inaceitáveis práticas, além da esposa deste.

A maior rede de televisão do Brasil, quase vinte anos depois, condenada a uma indenização às vitimas de uma quase chacina, foi acionada, à época do suposto fato, pelos pais das crianças, e tratou de dar ampla divulgação a ele, no que foi acompanhada por muitos outros órgãos da imprensa. E, depois da publicação de um laudo errado, emitido por uma incompetente ou inconsequente perita do Instituto Médico Legal, tornaram-se, a tal rede de TV e todos os outros veículos de comunicação, responsáveis por divulgar informações totalmente levianas acerca do fato, o que gerou uma revolta da opinião pública, concretizada na total destruição do prédio onde funcionava o estabelecimento escolar, construído com tanto sacrifício e dedicação, por seus proprietários, agressão física aos acusados, os quais tiveram de se esconder, para não serem linchados completamente, sem provas, e ao aniquilamento de suas vidas. Disto, eles não escaparam, infelizmente.

Vários outros veículos da imprensa, principalmente a chamada “marrom”, noticiaram o fato, utilizando manchetes cruéis e, obviamente, sensacionalistas, execrando, por completo, os envolvidos no episódio – repito – sem provas concretas. As verdadeiras vítimas nem tinham prestado depoimento à Polícia, quando o escândalo foi criado. Todos esses maus veículos de imprensa foram processados e tiveram de pagar por sua irresponsabilidade, o que, de nada adiantou, uma vez que nenhuma compensação pecuniária, a título de pena, pode restituir a dignidade perdida de alguns inocentes.

O preâmbulo acima serve para que os que já assistiram à peça “O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES”, assim como os que ainda o farão, possam refletir melhor sobre o brilhante texto, premiado, do consagrado dramaturgo catalão JOSEP MARIA MIRÓ, um dos principais nomes da cena contemporânea, e tirar suas conclusões e ensinamentos. É o primeiro texto de MIRÓ a ser encenado no Brasil e espero que outros, de idêntica qualidade, ainda possam vir a ser montados aqui, quer pela LUNÁTICA COMPANHIA DE TEATRO, que apresenta o espetáculo, como sua terceira montagem, em cinco nos de existência, ou por qualquer outra companhia de mesmo excelente padrão.

Julgo importante informar que este rico texto já foi montado em países como Argentina, México, Reino Unido, França, Itália, Estados Unidos, Chipre, Grécia, Alemanha, Rússia, Croácia, Uruguai e Porto Rico, o que não deixa a menor dúvida quanto à sua qualidade.

SINOPSE

“O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES” gira em torno dos acontecimentos após um gesto de carinho de um professor de natação, infantil, em seu aluno, o que gera uma imensa onda de medos, preconceitos e pré-julgamentos.

No espaço asséptico e clorado do vestiário de uma escolinha de natação, quatro personagens – ANA, diretora da escolinha (HELENA VARVAKI), RUBENS, o professor acusado (CIRILLO LUNA), HEITOR, o outro professor (GUSTAVO WABNER) e DAVID, pai do aluno Daniel (SÁVIO MOLL) – discutem sobre o significado e as consequências de um beijo que um professor dá em um dos seus alunos, fazendo vir à tona medos, preconceitos e fantasmas íntimos e coletivos, levando o espectador a confrontar-se com  seu próprio julgamento, diante daquela situação e a tomar partido sobre que modelo social e educativo desejamos.

Pode um gesto de carinho de professor, para com um de seus alunos, acender todos os alarmes de segurança da sociedade? Quantas versões e pontos de vista compõem a verdade? Devemos nos apoiar na primeira impressão, para julgar e condenar alguém? Um comentário numa rede social pode ser determinante para incriminar alguém?  Essas e outras respostas o espectador terá que buscar e encontrar em “O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES”.

Talvez o aspecto mais importante do texto de “O PRINCÍPIO DE ARQUIMEDES” resida no fato de ele não resolver um determinado problema, não apresentar a solução ou uma leitura única e definitiva para o que se vê em cena. É um texto profundamente perturbador, instigante, que mexe com os nervos do espectador, desde as primeiras cenas até a final, e permite que cada um se ponha no lugar de quem desejar, para que assuma uma posição, uma opinião, a qual, até mesmo, poderá vir a se modificar posteriormente. As opções são muitas.

Veja-se na pele dos pais das crianças, assustados e preocupados com um caso (“algo”) acontecido numa brinquedoteca, a um quilômetro da escolinha. Não é revelado o que, realmente, teria acontecido lá, mas todos podem imaginar o que poderia ter sido.

Sinta-se na posição da diretora da escola, que tem de lutar pela reputação do seu negócio, que deseja, ardorosamente, crer na inocência de seu professor, porém depende das mensalidades pagas pelos pais, para sustentar sua escolinha, sem falar em alguns detalhes que parecem depor contra RUBENS, como uma sunga infantil, que teria sido “esquecida” no vestiário dos professores. Ela defende o rapaz, mas sempre deixando, no ar, uma certa dúvida. Ela quer se apoiar numa certeza, que lhe escapa, bem vagarosamente, entre os dedos, diante de tanta pressão.

Assuma a posição do professor acusado, que tenta, de todos os meios, provar sua inocência, mas se vê numa posição frágil, com a incerteza da confiança total nele, por parte dos que o cercam, profissionalmente, além de algumas circunstâncias que pareciam trabalhar de bandido contra ele. Não adiantava explicar que Alex, o pivô, involuntário, de toda a confusão, tinha medo da água, de nadar (provavelmente, estava ali obrigado pelos pais) e estava chorando, por causa disso, tendo sido merecedor de uma atenção especial de RUBENS, que o abraçara e beijara, no único intuito de acalmá-lo.

Viva a posição de HEITOR, o colega de trabalho do acusado, que tinha dúvidas quanto à masculinidade do amigo e o via como uma pessoa rebelde, transgressora (RUBENS fumava escondido no vestiário dos professores), o qual, por esses “motivos”, talvez fosse capaz de um deslize, como o da acusação.

Os alunos eram divididos por faixas etárias: os “cavalos-marinhos”, que eram os menores, e os “golfinhos”, os adolescentes. RUBENS era professor dos “cavalos-marinhos”. HEITOR propusera uma troca à frente de cada turma, o que RUBENS não aceitava, de jeito nenhum. Essa negativa teria algum motivo “escuso” por trás ou era apenas porque ele preferia trabalhar com os menores?

Como se posicionar? Como se chegar a uma conclusão, após a utilização de uma balança, diante de tantas coisas nebulosas, não definidas, não comprovadas? Como fazer frear os mecanismos do nosso cérebro, que se deixa levar pelas informações que chegam a ele, obrigando-nos a travar uma difícil batalha para filtrá-las. E o que dizer da batalha mais complexa entre cérebro X coração?

Durante todo o espetáculo, sofri muito, pelo personagem RUBENS, brilhantemente interpretado por um dos melhores atores de sua geração, CIRILO LUNA. Ele tenta, por todos os meios, fazer com que acreditem na sua inocência, porém vai, cada vez mais, se enredando numa teia da qual fica difícil escapar. Saí do Teatro I, do SESC Tijuca, muito angustiado e, até certo ponto, culpado, não sei por que motivo, sentindo-me pequeno, impotente, diante de tanta intolerância e ignorância, duas palavras que não apenas rimam, como se aproximam semanticamente.

Como professor, profissão da qual muito me orgulho, exercida durante 47 anos, pude sentir todo o sofrimento de RUBENS, porque já testemunhei muitas situações análogas e vivi os últimos anos de minha militância educacional, caminhando sobre uma corda bamba, querendo, profundamente, exercer meu instinto paternal e humano sobre muitas crianças e adolescentes, ignorados pelos pais, demonstrar-lhes o meu carinho, o meu profundo afeto e a minha proteção, de que muito necessitavam, por não encontrarem nada disso em suas próprias casas, e sentia-me tolhido de exercer esse meu direito, essa minha obrigação, como educador, essa minha vontade, esse meu sentimento, por meio de um amigável abraço, de um simples afago ou, até mesmo, um ingênuo beijinho, na cabeça ou na face. Tinha de me conter, porque éramos bombardeados, eu e meus colegas de profissão, a cada reunião de professores, pela direção ou pela coordenação pedagógica, prevenidos a evitar contatos físicos com os alunos, para que isso não pudesse ser decodificado, de forma torta, por alguém mal intencionado ou por pura ignorância e desconhecimento de que um mestre deve ter, por seu discípulo, um carinho especial, mesmo que a recíproca, às vezes, não seja verdadeira.

Nas minhas quase cinco décadas de sala de aula e, também, como gestor, pude verificar que muito do que reclamamos do péssimo comportamento de alguns alunos, principalmente nos últimos anos, não seria culpa deles. Quando, por necessidade de resolver algum problema com um aluno, convidávamos seus pais a comparecer à escola, para uma conversa, no sentido de fazer com que o seu comportamento melhorasse, ao conhecer os seus “responsáveis” e tentar conversar com eles – isso, quando atendiam ao convite -, sentíamos vontade de colocar o aluno no colo, envolvê-lo em carinhos e, até mesmo, levá-lo para a nossa casa, com o único objetivo de lhe mostrar o que é amor de pai e mãe, ou seja, o que lhe faltava em casa. Os pais, muitos deles, mais do que possa imaginar quem me lê, acham que, pagando a escola, colocam os professores na obrigação de suprir a parte que lhes cabe na educação dos filhos, incluindo a atenção e o amor. Esses alunos são reflexos de uma péssima educação recebida nos seus “lares”.

Na peça, um perfeito representante desse tipo de “responsável” é o personagem DAVID, vivido por SÁVIO MOLL, pai de uma das crianças matriculadas na escola, o Daniel. DAVID demonstra, exatamente, o que não é ser pai, como não se deve agir, como um pai. Nem o nome do professor de natação do filho o sujeito sabia; totalmente ausente. Só foi à escolinha, pela primeira vez, para reclamar contra o “professor tarado”. Sua inconveniência, no afã de incriminar RUBENS chegou às raias do inaceitável, ao fazer, a ANA, perguntas sobre a intimidade do professor, inclusive se este seria “gay’.

O pai extrapola em seus “argumentos”, expõe-nos, sob uma lente de aumento, superdimensionando tudo, e insiste em que ANA é incapaz de entender a sua “preocupação”, pelo fato de ela não ter filhos, porém, para a sua surpresa, e a nossa também, ela lhe confidencia que teve um filho, morto aos 16 anos, que teria 23, quando daquela conversa.

O meu envolvimento com o que se passava em cena era tão profundo, que a vontade era subir ao palco e tirar de cena o personagem DAVID, sob agressão física. Esse absurdo, por parte de um espectador, se viesse a ocorrer, teria sido uma grande catarse, e o mérito iria todo para o ator SÁVIO MOLL, que interpreta muito bem o personagem.

Voltando ao texto, é muito interessante a sua construção, que vai progredindo, em tensão, até atingir o seu clímax, representado por um final aberto, permitindo, a cada espectador, construir o seu epílogo.

É um texto que se comunica com o público e ganha seu interesse, logo de saída, por tratar de temas muito próximos à realidade atual e que provocam desconforto em quem se vê incapaz de interferir na trama.

Concordo, “ipsis litteris”, com DANIEL DIAS DA SILVA, o ótimo diretor do espetáculo, quando ele diz sobre a peça: “Trata-se de um espetáculo instigante e moderno, premiado e montado em diversos países, que provoca o espectador a cada cena, estimulando a reflexão sobre o mundo que queremos para nossos jovens e o modelo de educação que desejamos”.

Não sei se é exigência, ou sugestão, do texto ou se a ideia surgiu da cabeça do diretor, mas o fato é que funcionam muito bem as marcações, para algumas cenas, que se repetem, feitas, porém, por outro ângulo. Não se trata de uma “técnica do espelho”, mas guarda uma certa relação com esta. DANIEL faz um excelente trabalho de direção, não só das cenas à vista dos espectadores como também do que se passa fora da visão deste. Tudo é feito com tanta verdade e correção – a aí entra, também, a participação do elenco – que somos capazes de “enxergar” o que não é visível aos olhos.

O diretor parece ter trabalhado, à exaustão, com os atores, até extrair de cada um deles o máximo exigido por seu personagem, atingindo o limite exato de interpretação, sem que cada um exagerasse ou ficasse a dever, quanto às reações do personagem encarnado.

CIRILO LUNA, GUSTAVO WABNER, SÁVIO MOLL e HELENA VARVAKI, atriz convidada, desempenham suas funções com o máximo de profissionalismo e competência e fazem cumprir o papel do ator: fingir, “sendo”; mentir, “dizendo a verdade”.

Fico muito feliz ao ver que, numa época em que faltam patrocínios e incentivos, e os artistas têm de reunir suas economias e apelar para financiamentos coletivos, a fim de que, num ato de resistência, possam erguer um espetáculo, tantas peças de boa e/ou excelente qualidade, como este “…ARQUIMEDES”, estejam estreando, inclusive com ótimos elementos técnicos, que, em geral, custam caro, como os cenários, os figurinos, a iluminação

Aqui, o cenário (CLÁUDIO BITTENCOURT) é extremamente simples e de uma adequação total à montagem. Tudo se passa dentro de um vestiário de uma escola da natação, dentro do qual não falta, absolutamente, nada do que pode ser encontrado num desses espaços “de verdade”: armários, bancos e objetos utilizados nas aulas.

Os figurinos (VICTOR GUEDES) são os exigidos pelo texto: roupas de banho e roupão, para os professores; um traje sóbrio, para a diretora da escolinha e o pai do aluno.

O texto não oferece muitas condições para que a iluminação (WALACE FURTADO e VILMAR OLOS) ganhe destaque. Mesmo assim, ambos procurou, e atingiu, algumas variações que enriquecem certas cenas.

Nota-se, num espaço bem limitado, no palco, uma boa movimentação dos atores, graças ao trabalho de direção de movimento, de Sueli Guerra.

Pode parecer, a quem ainda não viu o espetáculo (e não sabe o que está perdendo) que a peça gira em torno de um tema único: a pedofilia. Não é, entretanto, esse ignóbil problema que está em jogo, reinando isolado. Paralelamente, e com a mesma importância, discute-se – ou se põe à discussão – aspectos como acreditar numa menina de cinco anos, Paula, coleguinha de turma da “vítima”, cujo testemunho ganha relevo, na trama. Ela afirma ter visto RUBENS beijar Alex “na boca”. Essa petiz poderia, muito bem, na sua imaginação “fértil”, de criança, estar associando o que ela não viu com o que está acostumada a ver, a qualquer hora do dia e da noite, na TV: casais se beijando na boca.

A interferência exacerbada dos pais nas escolas, os pais querendo impor atitudes e ações à direção da escola, pelo simples fato de estarem pagando pela educação de seus filhos, é outro aspecto que está presente no texto.

O autor também não perdeu tempo e critica os pais que não encontram tempo para educar seus filhos, mas perdem horas do dia em grupos de redes sociais, nos quais tratam das mais frívolas amenidades, mas nunca dedicam parte desse tempo inútil a algo que poderia ajudar na educação de seus filhos. Essa questão das redes sociais é, por demais, perigosa, uma vez que as pessoas, via de regra, vão postando, e repostando o que recebem, sem conferir a autenticidade da informação, como fez a mãe de Paula, e uma bola de neve vai se formando, até atingir violentamente algum inocente.

JOSEP MARIA MIRÓ quer mostrar – e consegue – como a informação, verdadeira ou falsa, circula rapidamente, e as pessoas arvoram, para si, o papel de juiz, mesmo quando não atingidos diretamente ou quando nada as ameaça, de verdade. O medo ou a mera possibilidade de algo condenável vir a lhes acontecer já detona o pânico delas. Vivemos dentro de uma “aldeia global”, já transformada num paiol de pólvora.

Sem que procuremos responder à questão de “a arte imitar a vida ou a vida imitar a arte”, chegamos ao final da história com os pais cancelando as matrículas de seus filhos e tomando atitudes totalmente reprováveis e inconsequentes, além de violentas, que poderão ser conferidas por quem for assistir a este excelente espetáculo.

Como um totalmente leigo em Física, fui pesquisar o tal “princípio de Arquimedes”, que diz que “Todo corpo imerso em um fluido sofre ação de uma força (empuxo) verticalmente para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo.”. O título da peça é bem sugestivo e guarda uma estreita relação com o que ocorre na trama, metaforicamente falando. Um bom exercício para os espectadores.

O final aberto nos proporciona horas de discussão acerca do que vemos em cena.

O TEATRO instiga.

O TEATRO educa.

O TEATRO faz pensar.     

O TEATRO constrói.

VIVA O TEATRO!

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