‘O Papagaio’ – Uma bela comemoração é família

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Parece que foi ontem, que um galã mexia com os corações das mocinhas e senhoras na TV, com seu jeito romântico, de bom menino; do filho, que toda mãe queria ter; do genro, que toda sogra procurava. Mas lá se vão 50 anos de carreira e MARCELLO PICCHI pode ser encontrado, ao vivo e em cores, com as marcas do tempo, ainda que em boa forma física, guardando traços do belo rapaz, com o mesmo talento para representar, comemorando, em família, sua bela trajetória, no TEATRO e na TV.

MARCELLO está em cartaz com o monólogo “O PAPAGAIO”, no Teatro Cândido Mendes, escrito e dirigido por seu filho, o também ator e escritor THIAGO PICCHI.

THIAGO levou, para o palco, quatro de seus contos, bastante adaptados, com acréscimos, cortes e alterações de algumas passagens, com o objetivo de torná-los mais teatrais. Eles estão presentes em dois de seus livros, “O Papagaio e Outras Músicas” e “A Arte de Salvar um Casamento”.

Os contos utilizados na peça foram “O Papagaio”, que dá título ao espetáculo, “O Marquês do Pombal”, “Sorria” e “O Leilão”. O que os quatro têm em comum é a abordagem do tema “solidão”. Está em jogo não apenas a solidão, como sentimento ou estado de espírito, mas a forma inusitada como os personagens, todos bem maduros, velhos, convivem com ela.

THIAGO se apropriou de alguns de seus personagens dos livros e os colocou, em cena, numa ordem diferente da encontrada nas publicações, de modo que houvesse um fluxo dramático, e tentou ligar uma história à outra, sem que cada uma perdesse a sua independência, fazendo pequenas referências de uma na outra. Este é o primeiro texto que escreveu para o chamado “teatro adulto”.

O texto de THIAGO, que bebeu na fonte do realismo fantástico, ainda que parta de vivências tão naturais e corriqueiras, é de excelente qualidade. Fatos do cotidiano servem de motivação aos personagens, para uma busca, que não se sabe certa e garantida, mas representa uma porta para novas possibilidades, dentre as quais – espera-se – haverá algo melhor a ser vivido.

Para mim, o texto é o ápice da peça, o que há de melhor nela, além de outros elementos elogiáveis. Aprecio o estilo literário de THIAGO e gostei bastante das adaptações, que funcionam muito bem, nos quatro monólogos, pela boca de MARCELLO PICCHI.

Para MARCELLO, afastado, há algum tempo, dos focos dos refletores, fazer este espetáculo corresponde a um desafio inédito, já que, pela primeira vez, está sozinho no palco. Fazer monólogo não é para os fracos!

São quatro contos, protagonizados por personagens que se sentem presas em um cotidiano sufocante. Para elas, urge se libertar e voar para outra realidade possível, nem tão real assim, talvez. Daí a escolha do título, “O PAPAGAIO”, uma ave que, na peça, um dia, fugiu de seu “cativeiro” e voou, em busca de liberdade, de oxigênio, que lhe garantisse a vida. São pessoas levadas a transcender o real, para, assim, vivê-lo plenamente.

O espetáculo, bastante leve e agradável de ser visto, tem, aproximadamente, 50 minutos, com uma encenação simples e sem grandes efeitos visuais, cujo foco recai sobre o poder imagético das palavras.

Os elementos técnicos, como cenário, figurino, iluminação e trilha sonora, por exemplo, são bem simples e discretos, secundários, cedendo o destaque ao texto e à interpretação, funcionando todos, porém, a contento.

Como já disse, neste espetáculo, o foco mais intenso recai na palavra. Em cena, fisicamente, apenas o ator e alguns raros elementos cenográficos.

A palavra “monólogo”, geralmente, reporta à ideia de algo monótono, “insosso”, o que não é verdade. Há “monólogos” e monólogos. Aqueles podem funcionar, mesmo, como soníferos, porque não foram bem montados, por quaisquer motivos. Estes, ao contrário, prendem a atenção do espectador, graças a um bom texto e trabalho de direção e de interpretação. “O PAPAGAIO” se enquadra neste tipo.

THIAGO não procurou inventar a roda e, ao que parece, deixou MARCELLO bem à vontade, em cena, com marcações bem naturais e permitindo que o ator desenvolvesse, naturalmente, seu potencial de interpretação.

MARCELLO se houve muito bem, interpretando personagens bem diferentes, inclusive femininos, imprimindo, a cada um, uma marca distinta, fácil, para a plateia, de serem identificados e analisados.

Se você procura um bom espetáculo, no horário alternativo, pra preencher sua necessidade de alimentar a alma de alegria e emoção, “O PAPAGAIO” é uma boa pedida.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.