‘O Olho de Vidro’ – Quando se sentir pela metade é, na verdade, ser inteiro

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

O espetáculo ora analisado esteve em cartaz, no ano passado, no Rio de Janeiro, tendo sido merecedor da aclamação do público e da crítica, motivo pelo qual volta ao cartaz.

Assistir ao espetáculo “O OLHO DE VIDRO”, em cartaz, até o dia 29 de abril, no Teatro Cândido Mendes, é viver uma experiência por inteiro. Nada, ali, é pela metade ou fragmentado, ainda que o espetáculo tenha sido escrito por RENATA MIZRAHI, contando com fragmentos de BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS.

Trata-se de um monólogoum dos melhores a que já assisti, na vida, interpretado por CHARLES ASEVEDO, que também é o idealizador do projeto, e dirigido, a seis mãos, pela competência de três pessoas sensíveis e de muito bom gosto: VERA HOLTZ, GUILHERME LEME GARCIA e FLÁVIA PUCCI. A relação de amor e amizade que há entre o quarteto gerou um dos melhores espetáculos em cartaz, no momento, no Rio de Janeiro.

É impossível um espectador não se emocionar com o belo trabalho com que é presenteado. Via de regra, muitas pessoas chegam às lágrimas, por total, ou parcial, identificação pessoal, ou relacionada a alguém próximo, com o que se vê naquele palco.

 

SINOPSE

 

A peça, na primeira pessoa, é um relato sobre a infância, a relação com o avô que queria ter, a descoberta da sexualidade, a relação de opressão com o pai e de amor incondicional pela mãe.

As histórias do livro “O OLHO DE VIDRO DO MEU AVÔ”, de BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS, e da vida de CHARLES AZEVEDO se misturam, numa criação poética, ficcional e documental.

Não existe um limite entre ficção e realidade.

O ator começa seu depoimento, acreditando que foi sempre pela metade e passou a vida buscando ser inteiro.

É através dessa busca que vamos conhecer suas memórias de infância, suas relações familiares delicadas, suas descobertas de vida, até chegar ao que se tornou hoje.


Um pouco do rico material, contido no “release”, que me foi enviado pela assessoria de imprensa (da época da primeira temporada) (MINAS DE IDEIAS – CARLOS GILBERTO e FÁBIO AMARAL)“Foi durante uma viagem a Belo Horizonte, que o ator CHARLES ASEVEDO conheceu o autor mineiro BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS. Um tempo depois, encontrou, entre sua extensa e premiada obra literária, o livro “O OLHO DE VIDRO DO MEU AVÔ”, publicado em 2004. Estava ali uma história que o inspirava a subir nos palcos, mas seu desejo ia além, pois as memórias do livro remetiam, diretamente, às suas próprias memórias de vida. Foi, então, que convidou os atores VERA HOLTZ e GUILHERME LEME GARCIA, para repetirem a dobradinha do premiado espetáculo “O ESTRANGEIRO”, e resolveram convocar a autora RENATA MIZRAHI, para escrever essa conexão, entre a vida do CHARLES e a história do BARTOLOMEU. Em seguida, a atriz FLÁVIA PUCCI foi chamada, para integrar o time de criadores, numa direção coletiva, que marca o olhar de três atores de formações diversas sobre o trabalho de um único ator em cena”.

Já fica claro que o lindo e comovente texto, brilhantemente dito, por CHARLES ASEVEDOé um misto de ficção e realidade. Muitas das vezes, o público fica meio “perdido”, sem saber quando termina uma, para dar lugar à outra, e vice-versa. Mas é um “perdido” bom, pois, logo, logo, a pessoa “se acha”; um “perdido” que prende a atenção do espectador e o atrai para o palco, para uma viagem na companhia do ator. Foi assim que me senti, naquela noite de sábado, 25 de março de 2017. “Viajei” no tempo, de mãos dadas ao CHARLES, na sua “viagem”, no seu tempo, do qual me apropriei. Ele me conduziu e eu me deixei conduzir.

Ainda do “release”: “Como diz BARTOLOMEU, ‘A memória é um grande patrimônio que a gente tem. A memória é o que eu tenho de mais precioso. Mas é preciso, também, saber que, na memória, tanto mora o vivido quanto mora o sonhado. Mora a vida que eu vivi. E mora a vida que eu sonhei viver. Então, quando você busca a memória, ela vem sempre misturada. Ela não vem pura. E é impossível ter uma memória pura. A memória é esta mistura, esta conversa entre a realidade e a fantasia’”.

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS nasceu em 1944, na cidade de Pará de Minas (MG) e faleceu em 16 de janeiro de 2012, em Belo HorizonteEscreveu mais de 40 livros, alguns dos quais traduzidos para o inglês, o espanhol e o dinamarquês. É autor do “Manifesto Por Um Brasil Literário”, do “Movimento Por Um Brasil Literário”, do qual participava ativamente. Por suas realizações, BARTOLOMEU colecionou medalhas e prêmios, incluindo um Prêmio Jabuti.

Ainda, de acordo com o “release”“…a peça é uma comédia dramática, que fala, poeticamente, de um olho que vê e outro que imagina”. O espectador também precisa ver o espetáculo com seus olhos, a grande maioria, com os dois, mas é necessário que o enxergue, pelo coração, até se for privado do sentido da visão.

É preciso, pois, que se estabeleça a diferença entre “ver” e “enxergar”. O “ver” está ligado a uma atitude mais superficial, presa aos aspectos físicos, não permitindo, geralmente, que se estabeleçam registros, como arquivos e memórias, do que foi visualizado. É mais imediatista, ligada ao concreto, ao passo que o “enxergar” extrapola o físico, deixando “ver” o que está oculto, abrindo caminho para a percepção do aqui e agora e do que mais houver para ser percebido, sentido. Abre a porta para o exercício da intuição, da inspiração, da imaginação, do sexto sentido.

“O OLHO DE VIDRO” É MUITO MAIS PARA SER ENXERGADO QUE VISTO.

CHARLES ASEVEDO, desde criança, escrevia, onde encontrasse espaço, seus anseios e registrava seus momentos de alegria e de dor, sua relação com os pais e todos os que o cercavam, durante sua vivência na Baixada Fluminense, de onde saiu, para abraçar, definitivamente, a vida artística, já adulto, embora ainda mantenha contato com aquela região, por ser professor, num dos municípios de lá, Belford Roxo.

Apaixonado pelo livro de BARTOLOMEU e encontrando nele muitos pontos em comum com sua vida pessoal, tomou a iniciativa do projeto e a escolha de RENATA MIZRAHI não poderia ter sido melhor, para costurar fragmentos literários de BARTOLOMEU com as informações que lhe foram passadas por CHARLES.

É impressionante como um outro olhar, de fora, foi capaz de captar, com tanta singularidade, os detalhes de ambos os relatos e amalgamar tudo num texto que, apesar de tanta densidade, também é alegre e transita pelo espaço entre o drama e a comédia.

Provocando o riso, em função de fatos tão insólitos, a autora nos “impõe”, sem querer (ou querendo) várias reflexões, que mexem com o íntimo de cada um. Não há como não se emocionar e sair do Teatro ileso, sem estar mexido, por algumas, ou muitas, coisas ditas em cena. De feridas, que consideramos cicatrizadas, podem gotejar sangue ou, mesmo, fazê-lo jorrar, em jatos.

RENATA – não me canso de dizer – é uma das melhores representantes da nova geração de dramaturgos brasileiros, vencedora de tantos prêmios, que, se relacionados aqui, ocupariam boa parte deste texto. Tem uma característica toda especial de escrever seus diálogos, difícil de ser descrita, porém, fácil de ser detectada por quem conhece bem sua obra, como eu. Se já não tivesse ido ao Teatro do Centro Cultural Correios, naquele dia, sabendo que ela era a autora do texto, certamente, afirmaria, ao final do espetáculo, na certeza de acertar: este texto é da RENATA, da mesma forma como reconhecemos os traços de um pintor.

O trabalho de direção é muito bom e merece destaque, porque manter um único ator em cena, fazendo um monólogo, em que realidade e ficção se misturam, não é tarefa das mais fáceis para um diretor. São excelentes as marcações das cenas e a linha de interpretação sugerida ao ator. Há um jogo lúdico, no palco, que faz com que o espetáculo se torne bastante dinâmico. É um monólogo, mas não é monótono; muito pelo contrário.

Fiquei extremamente encantado com a atuação do ator CHARLES AZEVEDO, que se emociona bastante em determinados trechos do espetáculo, talvez quando estes tocam nas suas feridas mais profundas. O seu relacionamento conturbado com o pai vai fundo nos nossos corações e nos torna aliados do menino e, posteriormente, do rapaz. Hoje, as coisas são diferentes, entre os dois. A sua admiração pela mãe e a identificação com ela são comoventes.

CHARLES tem uma considerável presença de palco, não por suas avantajadas proporções físicas, que, às vezes, muito pelo contrário, fazem-no parecer tão frágil, mas por sua técnica de representação, pela grande concentração de amor pelo que faz, por uma dose excessiva de emoção e verdade naquilo que diz. Faz transições impressionantes entre situações de grande tensão e tristeza e outras, que remontam a momentos de prazer, que pareciam contidos e, agora, com toda a coragem, são revelados a um público, tornado-o seu cúmplice, público este que o aceita em toda a sua plenitude.

O espetáculo conta com uma simples, porém, excelente cenografia, da premiada AURORA DOS CAMPOS. Nada mais seria necessário, em cena, do que uma enorme lousa, ao fundo, que o ator utiliza, em cena, uma mesa e uma cadeira, como se para compor uma sala de aula ou um auditório, para uma conferência, ainda que o trabalho de CHARLES se aproxime mais de uma conversa, bem intimista, durante a qual se despe de seus medos e pudores e abre o coração para quem nele quiser penetrar. E todos o querem.

Ajuda muito a valorizar cada cena a luz, de TOMÁS RIBAS, que também acompanha a linha da simplicidade, que o espetáculo requer, de grande sensibilidade e requinte.

Simplicidade é a tônica deste espetáculo, um dos motivos para seu sucesso. Há, também, nestes comentários, espaço para falar do figurino, que deve te sido uma escolha entre o ator e a direção, uma vez que nem consta na ficha técnica: uma calça e uma camisa de malha preta. Para que mais?

MACELLO H colabora com uma trilha sonora totalmente adequada ao espetáculo.

Eu recomendo muito este monólogo, do qual ninguém consegue sair da mesma maneira como entrou. Seus valores de vida serão, no mínimo, questionados por você. Se vão sofrer modificações, ficará a seu critério. Para mim, valeu muito!!!

E acredite, CHARLES ASEVEDO: NÃO HÁ COMO SER MAIS INTEIRO QUE VOCÊ!!!

Trata-se de um espetáculo de uma sensibilidade à flor da pele, que, certamente, toca a todos os espectadores, das maneiras as mais diversas possíveis.

Recomendo com o maior empenho!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA A MAIOR DIVULGAÇÃO DO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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