‘O Lado B’ – Uma aula de um excelente teatro contemporâneo, ‘não-cabeça’, graças a Deus!

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Uma das coisas que mais me dão prazer e alegria, no TEATRO, como já disse, várias vezes, é quando um espetáculo supera, e muito, as minhas expectativas. E, a cada vez que isso acontece, mais aumenta a minha paixão por essa arte milenar.

Num domingo, 13 de janeiro (2019), mais uma vez, para fechar a minha excelente semana teatral com chave de ouro, isso aconteceu, quando me propus a assistir a uma peça, na Sala Eletroacústica da Cidade das Artes“O LADO B”, com texto de GUSTAVO DAMASCENOdireção de MARCÉU PIERROTI e um elenco de cinco grandes atoresFLÁVIA PUCCI, CHARLES ASEVEDOCIRO SALES, PAULA MORENO JOELSON MEDEIROS.

Que gratíssima surpresa!!!

peça, de idealizaçãoconcepção e encenação arrojadas, porém ao alcance de qualquer espectador de inteligência normal e de bom gosto, “mergulha nas sombras dos indivíduos contemporâneos, com projeções ao vivo, karaokê em cena e cenário articulado, a quarta criação do grupo ÁGUA BENTA CIA DE CRIAÇÃO”, de acordo com o detalhado “release”, escrito por CIRO SALES, e que me chegou às mãos por intermédio de CHARLES ASEVEDO, um dos fundadores da Companhia, ao lado de FLÁVIA PUCCIJOELSON MEDEIROS e PAULA MORENO.

O alvo do grupo, já, claramente, demonstrado nos três trabalhos anteriores (“Antiga”“Uma Noite Sem o Aspirador de Pó” e “Olho de Vidro”), é “pesquisar  o comportamento de homens e mulheres, nas sociedades contemporâneas (…) o grupo se debruça sobre as contradições que permeiam a vida e o cotidiano dos seres humanos.”. Desde sua formação, vem investigando o indivíduo, suas ações, pensamentos e paradoxos.

Segundo FLÁVIA PUCCI“A vida em sociedade pode ser dividida em dois pilares: aquilo que mostramos ao outro e o que escolhemos não mostrar. Em cada história de ‘O LADO B’, exploramos toda a potencialidade humana, desde os comportamentos corriqueiros até os segredos mais sombrios da mente.”

O público entra em contato com “personagens ambíguos, atormentados e vulneráveis – como, afinal, somos todos nós. No enredo de “O LADO B”, entretanto, eles estão frente a situações-limite, que exigem escolhas radicais e podem mudar os rumos de suas vidas. E é justamente isso o que prende o espectador ao longo das quatro histórias que compõem a peça” (prossegue o “release”), com duração de quase duas horas, as quais passam sem a gente sentir e deixam vontade de “quero mais”.

“Corpos anestesiados pelos abusos externos e pela autocrítica diária vão implodir ou explodir em algum momento. Esses personagens estão buscando uma saída para suas dores, mas que, agora, – por as terem sufocado durante muito tempo – pode vir descontroladamente”, comenta o diretor“que buscou humanizar os dramas de cada personagem e escolheu estéticas bem diferentes para abordar cada trama.”.

processo de criação do espetáculo, até chegar à forma definitiva, servida ao público, em bandeja de ouro, foi muito interessante, demorado e enriquecedor, para todos os envolvidos no projeto. Primeiro, “Através de improvisações e composições coletivas, os atores criaram, em quase um ano de árduo trabalho, um repertório de cenas curtas, que foi o material de base, utilizado pelo dramaturgo, para criar a estrutura do espetáculo, dividido em quatro atos (sem intervalos, acrescento eu), cada um contando uma história diferente.”.

 

SINOPSE

 

REGINA (FLÁVIA PUCCI) é uma mulher sufocada pela rotina.

ANA (PAULA MORENO) é uma mulher solitária, viciada em sexo.

JONAS (CHARLES ASEVEDO) é um marido fiel, que se encanta por JAQUELINE, o lado mulher do “cross-dresser” ROBERTO (CIRO SALES).

MARCO (JOELSON MEDEIROS) é um homem inconformado com o fim de seu relacionamento.

As vidas dos cinco se entrelaçam, seus conflitos pulam o muro da casa do vizinho, invadem-na e todos eles nos revelam um pouco de quem somos, sem poupar aquele lado que não gostamos de revelar; menos ainda, de reconhecer: o nosso LADO B.


elenco é magnífico, em atuações impecáveis, sob a fantástica direção de MARCÉU PIERROTI, neste seu segundo brilhante trabalho com a batuta de diretor nas mãos. Quem viu “Moléstia”, no ano passado, seu trabalho de estreia como encenador, e se encantou com o que viu (motivos não faltavam), como eu, não imagina o quanto de acertos existe nesta sua segunda assinatura, muitas vezes superior à de estreia, que já era excelente.

Há uma grande cumplicidade, um perfeito e harmonioso entrosamento entre os cinco atores e um nivelamento, nas atuações, que não me permite destacar um ou outro nome. Todos brilham nos seus momentos de maior destaque na trama. Os personagens exigem muito dos atores, para que ganhem vida, e todos estão inteiros, sem sobrar nem faltar nada nos seus estereótipos.

Quanto à direção, a despeito do ótimo texto, da irrepreensível interpretação do quinteto de atores e dos demais elementos que dão suporte a esta corretíssima montagem, penso que seja a direção o que mais contribui, para que o espetáculo agrade tanto e mexa com o público, cada um espectador se identificando, ainda que “a contragosto”, com este ou aquele comportamento dos personagens. É magnífico o inventivo trabalho do diretor, que criou soluções nem tão complicadas, porém complexas e inteligentes, para contar as histórias, utilizando recursos tecnológicos, sem nenhuma parafernália, bem dosados e, melhor ainda, aproveitados.

MARCÉU foi convidado a se incorporar ao grupo já depois de bastante tempo do início do projeto e do processo, o que, a meu juízo, valoriza, mais ainda, o seu trabalho, no qual ele imprime uma pesquisa das linguagens cênica e cinematográfica, iniciada durante a sua graduação, em direção teatral, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e aprofundada em seu já citado primeiro trabalho de direção, “Moléstia”, em 2018. Há interessantes projeções de imagens de vídeo, captadas por uma câmera, acoplada à cabeça do personagem/operador da vez.

Percebe-se, nítida e facilmente, no decorrer da peça, que se trata de um trabalho, realmente, coletivo. O TEATRO é uma arte feita em conjunto, em comunhão de ideias e propósitos, o que, às vezes, infelizmente, não é bem posto em prática. Não é o caso aqui, porque a encenação mostra ter havido um entrosamento total do diretor com a responsável pela cenografia, assinada pela premiada cenógrafa CARLA BERRI“que propõe, para esse trabalho, uma cenografia modular, em cabines articuladas, que os atores manipulam e modificam, de acordo com o avançar da história”. São painéis articulados, de ferro, vazados, com persianas agregadas, os quais assumem diversas e curiosas formas, além de duas cadeiras e uma mesinha de serviço, também de ferro.

Colaboradora antiga da companhia, merece destaque o trabalho da atriz e artista plástica MAUREEN MIRANDA, que assina os figurinos, a qual, em consonância com a proposta da direção“reforça, com suas criações, as diferenças estéticas entre os atos da peça. Na primeira trama, toques de realismo fantástico e referências a histórias em quadrinhos. Na história seguinte, linguagem cinematográfica e tons mais realistas. ‘Exagero é a palavra de ordem das peças que compõem o terceiro bloco de ‘O LADO B’, brinca a figurinista, que explora todas as possibilidades do universo de JONAS e ROBERTO. Já para a narrativa final, ela adotou uma estética mais seca, que beira o estilo militar.”.

LUAN DE ALMEIDA também “trocou muita figurinha” com o diretor, até chegar a uma iluminação indispensável e indicada para aquela narrativa teatral, num trabalho merecedor de muitos elogios.

Quem, também, se destaca, na sua parte, é TONI RODRIGUES, com seu trabalho de direção de movimento, excelente, por sinal.

Para ajudar a criar o clima para as cenas, entra a boa trilha sonora, criada por LEONARDO NETTO.

“O LADO B” é um trabalho dificílimo, para diretor e atores, do qual o sexteto conseguiu dar conta, à altura de ser considerado um ÓTIMO ESPETÁCULO, daqueles IMPERDÍVEIS, que, com total certeza,  vão marcar a temporada teatral de 2019, ainda engatinhando.

Por favor, deixem de lado esse negócio, essa bobagem, de achar que a Barra da Tijuca fica em outro país e não percam, de modo algum, este, que é um espetáculo que merece ser visto, por sua extrema qualidade!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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