‘O Julgamento de Sócrates’ – O ‘julgamento’ de Tonico Pereira

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Está em cartaz, no Teatro Cândido Mendes, um interessante espetáculo, que é parte das comemorações do jubileu de ouro da carreira de um dos nossos melhores atores: TONICO PEREIRA.

A peça se chama “O JULGAMENTO DE SÓCRATES” e vem lotando aquele simpático espaço teatral, além de contar com a aprovação do público, que é o mais importante, e também tem sido merecedora do reconhecimento da crítica.

É a primeira vez, em 50 anos, que TONICO não divide o palco, generosamente, como sempre o fez, com outros companheiros de cena. Sim, este é seu primeiro trabalho solo. E que solo!

Segundo o “release” do espetáculo, enviado pela assessoria de imprensa (DOIS PONTOS ASSESSORIA – FERNANDA MIRANDA)“TONICO faz, nesta peça, um verdadeiro ‘tour-de-force’, conversando e levando a plateia, com a intimidade de um grande artista”.

O papel de SÓCRATES, diante das acusações sofridas, é, nada mais, nada menos, o de defender, à frente de seus iquisidores, suas ideias e, acima de tudo, o seu direito, como cidadão, extensivo a todos, de tê-las. Essas ideias visavam ao dever de um exame acerca do sentido da ética e de sua prática, assim como a eterna busca pela sabedoria. Humilde, repetia uma frase, que o tornou célebre: “SÓ SEI QUE NADA SEI”.

“O espetáculo dramatiza a defesa de SÓCRATES, no julgamento que o condenou à morte, por envenenamento (ingestão de cicuta). Trata-se, talvez, do primeiro grande caso, na história da humanidade, de um homem ser condenado, por ter ideias diferentes do estabelecido pela sociedade (Abriu portas para uma quantidade incalculável de outros exemplos, até os nossos dias.). Através desse caso, a peça debate a liberdade de expressão e o pensamento no mundo contemporâneo”.

A interessante estrutura do espetáculo pontua, de forma bem marcada, três momentos. O primeiro deles é representado pela defesa, propriamente dita, do acusado. Em seguida, após sua condenação, pela qual ele não esperava, vem a segunda, o momento em que lhe é outorgado o direito da proposição de uma pena alternativa, o que é recusado por SÓCRATES, com base no raciocínio de que, se aceitasse aquela “benesse”, estaria admitindo uma culpa, da qual ele não era reconhecedor. Não tendo aceitado a proposta, nada mais resta que a terceira e última parte, durante a qual o condenado se dirige, vencido, agora não mais a seus juízes, mas à sociedade que o condenou, lamentando sua desdita e demonstrando seu temor por dias difíceis, tempos de trevas, para aquela Atenas e para as sociedades futuras, de uma das quais fazemos parte.

                                                                                         SINOPSE

Diante de um tribunal popular – a plateia – SÓCRATES, interpretado por TONICO PEREIRA, defende-se das acusações que lhe são feitas: ter ideias diferentes do estabelecido pela sociedade e pela religião, como o livre pensamento e a busca pelo conhecimento, pois estaria corrompendo a juventude com essas ideias.

No espetáculo, SÓCRATES faz sua defesa e, após a condenação, tem o direito de propor uma pena alternativa, mas se nega a fixar uma pena para si mesmo, pois isso seria reconhecer alguma culpa.

Na condenação final, ele diz suas últimas palavras para a sociedade que o condenou, prevendo tempos duros para Atenas e para todas as sociedades posteriores.

O espetáculo, embora tenha um personagem histórico, trata de questões contemporâneas e que estão em debate também nos dias de hoje.

O bom texto, de IVAN FERNANDES, é uma livre adaptação, muito bem costurada, diga-se de passagem, de “APOLOGIA DE SÓCRATES”, de Platão. A qualidade do texto ganha um “up” na boca de TONICO PEREIRA, reconhecidamente, um nome que pertence à galeria dos grandes mestres brasileiros da representação, em todas as mídias.

A intenção maior do autor da peça é “falar dos tempos de hoje, tempos conturbados, política e socialmente, que estamos vivendo. Ao estudar o texto original, escrito por Platão, e fazer a adaptação, IVAN ficou impressionado em como as coisas escritas naquela época (399 a.C.), sobre aquele julgamento, cabem tão bem no momento em que nossa sociedade vive hoje”.

dramaturgo ampliou o julgamento para tudo o que faz parte deste caos universal em que estamos mergulhados. Todos julgam, todos se julgam, tudo é julgado. Julgam-se as pessoas, julga-se a sociedade, no seu todo, mas também sobra espaço para o julgamento até de tudo o que existe para tornar a Terra uma grande “aldeia global”, como a chamou o destacado educador, intelectual, filósofo moderno e teórico da comunicação, o canadense Marshall McLuhan. Estou me referindo aos meios de comunicação, com destaque para a televisão e as redes sociais.

Na visão de IVAN FERNANDES“o julgamento de SÓCRATE é considerado o primeiro grande julgamento da história, e, por muitos, o ponto inicial em que a sociedade rejeitou a razão em nome de outros interesses”.

O pensamento de TONICO, com o qual concordo plenamente, é de que “o espetáculo é um ‘anti-teatro’, ou seja, não é um espetáculo pirotécnico, cheio de ‘glamour’, e sim uma troca de ideias, um teatro em que o ator é o responsável pelo espetáculo”.

Se tivesse um “slogan” para peça, o ator a chamaria de: “VENHAM TROCAR PENSAMENTOS”. Embora o espetáculo não seja interativo, no sentido de o público poder falar, na verdade, ele dialoga, por meio do seu silêncio, com o ator.

Realmente, sem desmerecer nenhum dos demais componentes desta montagem, todos os focos, durante os 45 minutos de ação, convergem para TONICO PEREIRA.

É impressionante a capacidade de interação que TONICO consegue com suas plateias, não só neste espetáculo, mas como em todos os de que participou. Muito recentemente, tive o prazer e o privilégio de aplaudi-lo, também, em “Os Sete Gatinhos”, numa temporada de enorme sucesso, de público e de crítica, como vem ocorrendo com “O JULGAMENTO DE SÓCRATES”. Aqui, o detalhe do interagir ganha realce, em função da proposta de a plateia funcionar como os juízes e o espaço ser bem acanhado, aproximando, ao máximo, ator e público.

direção também é de IVAN FERNANDES, contando com a colaboração de TONICO. Na verdade – pode ser que eu esteja errado -, a impressão com a qual fiquei foi a de que IVAN deve ter dito: “Vai, TONICO! Seja você em cena!”. O ator, que, no dia em que assisti ao espetáculo, estava sofrendo muito, em função de dores, provocadas por uma bursite, num dos braços, pouco utiliza uma cadeira, que faz parte do cenário, permanecendo, a maior parte do tempo, de pé, falando aos olhos e ouvidos das pessoas, movimentando-se, agitadamente, por todo o espaço cênico, deixando a impressão de que, se houve marcas definidas pela direção, ele as ignorou, tamanha é a naturalidade com que se expõe naquele espaço.

TONICO é de uma simplicidade e autenticidade a toda prova, o que mais, ainda, me fazem admirá-lo, como pessoa e como artista. Avesso a “aparecer”, guarda este momento para quando atua. É impossível desviar os olhos dele.

Embora suas pausas já, naturalmente, sejam bastante representativas, como, ultimamente, ele vem atuando com o apoio de um ponto eletrônico, elas se tornam melhores, ainda, embora isso possa soar estranho ou curioso.

Simples, como TONICO, é toda a estrutura desta ótima montagem, que tem a produção de um jovem e corajoso grande produtorCAIO BUCKER. E quem diz que a boa qualidade de um espetáculo teatral fica na dependência de uma produção cara, sofisticada e complexa está redondamente enganado. “O JULGAMENTO DE SÓCRATES” é uma excelente prova disso.

Tudo é franciscano, como TONICO. E não precisava mais nada mesmo.

cenário, de PALLOMA MORIMOTO, se resume a uma cadeira antiga, ao lado da qual fica uma pequena coluna grega e, sobre esta, uma grande taça de estanho, que “contém” a cicuta, que será responsável pela morte do protagonistaPerfeito!

figurino do personagem, também de PALLOMA. não difere muito dos trajes do dia a dia do ator, incluindo a rústica sandália de couro. Como diz o “release” da peça, um “figurino neutro e atemporal”; uma calça e uma camisa, em tecido grosso, num tom pastel, sem o menor apelo estético visual. Perfeito!

É excelente a luz, de FREDERICO EÇA.

“Na condenação final, ele diz suas últimas palavras para a sociedade que o condenou, prevendo tempos duros para Atenas e para todas as sociedades posteriores”; consta na sinopseQuão visionário foi SÓCRATES!!! Brasil é a Atenas da época do filósofo, elevada a alguma potência, o que comprova ser a peça tão apropriada para uma reflexão sobre os dias negros por que estamos passando, em nosso país, (des)governado, indiscriminadamente, por políticos sórdidos, corruptos, comprometidos com a ganância e a desfaçatez, totalmente alheios a quem os combate, quando não os pune com outros castigos mais perversos.

Por oportuno, com relação ao que sustenta o parágrafo anterior, transcrevo a letra de uma canção, composta por Zé Ramalho, para provocar uma reflexão relacionada à peça, partindo de um paralelo entre as duas obras de arte:

ADMIRÁVEL GADO NOVO

(Zé Ramalho)

Vocês, que fazem parte dessa massa,

Que passa nos projetos do futuro,

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber.

E ter que demonstrar sua coragem

À margem do que possa parecer.

E ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer.

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

Lá fora, faz um tempo confortável,

A vigilância cuida do normal,

Os automóveis ouvem a notícia,

Os homens a publicam no jornal.

E correm, através da madrugada,

A única velhice que chegou.

Demoram-se na beira da estrada

E passam a contar o que sobrou.

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

O povo foge da ignorância,

Apesar de viver tão perto dela,

E sonham com melhores tempos idos,

Contemplam essa vida numa cela.

Esperam nova possibilidade

De verem esse mundo se acabar.

A arca de Noé, o dirigível

Não voam, nem se pode flutuar.

Não voam, nem se pode flutuar.

Não voam, nem se pode flutuar.

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

Ê, ô, ô, vida de gado!

Povo marcado, ê!

Povo feliz!

Rio de Janeiro e, posteriormente, o Brasil inteiro, já que a peça tem tudo para viajar por todo o país, agradecem a TONICO PEREIRA, por este belo espetáculo e por tudo o que já fez, e ainda fará, pela grandeza do bom TEATRO BRASILEIRO, a despeito de todos os óbices que lhe são postos à frente.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS AS SALAS DE ESPETÁCULO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilbertobartholo@rioencena.com.br.