‘O Jornal – The Rolling Stone’ – O Espetáculo acaba, mas a sua marca fica indelével na nossa alma

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

A minha ansiedade por assistir a este magnífico espetáculo só pode ser comparável à de escrever sobre ele, para exorcizar, de vez, o que me fez tremer e ficar com a respiração comprometida, ao término da peça, que está em cartaz no Teatro Poeira.

É impossível assistir a “O JORNAL – THE ROLLING STONE” e não sair mexido do Teatro, com, no mínimo, medo de continuar vivendo neste mundo cão, que, cada vez mais, toma corpo ao nosso redor e nos sufoca e quase acaba com a nossa crença na humanidade. E pensar que aquela ficção está na nossa frente, atrás, nos lados… Não é ficção; estamos cercados dela. Não é a ficção que nos causa medo; é a realidade o que nos apavora.

Como diz o “release” da peça, que me chegou às mãos via ANTÔNIO TRIGO (assessoria de imprensa), a “Montagem (…) propõe reflexões urgentes sobre a busca pela identidade e o amor, num mundo que cerceia a liberdade e a individualidade”. Eu iria além: propõe reflexões que nos levam a admitir que o Homem não foi a obra-prima do Criador, mas, sim, um grande fracasso da Sua Criação. Diria que Deus não é perfeito, porque “errou”, no penúltimo dia de Seu trabalho, antes de descansar, no sétimo. Poderia não ter criado o ser “racional”.

texto de “O JORNAL…” é muito recente e sua temática, atualíssima. A peça estreou, em Londres, em 2015, e já pode ser considerada um imenso sucesso, com direito a prêmios. 

                                                                                  SINOPSE

Baseada em fatos reais, infelizmente, e, tendo, como pano de fundo, a intolerância e a crueldade contra os homossexuais, o texto fala de uma história de amor, vivida por dois jovens, um genuíno ugandense, DEMBE (DANILO FERREIRA) e outro mestiço, filho de mãe africana e pai irlandês, SAM (MARCOS GUIAN), um médico.

Num país em que a homossexualidade é criminalizada, uma “aberração”, não admitida pelo Pai, não só a relação dos dois se torna impossível, como também atinge e afeta, sobremaneira, todos os que giram à volta de DEMBE, principalmente sua irmã WUMMIE (INDIRA NASCIMENTO) e seu irmão JOE (ANDRÉ LUIZ MIRANDA).

Desde que o pai dos três morreu, eles, com dificuldades financeiras, lutam por reorganizar a vida da família, dentro dos padrões culturais locais, com muito sacrifício e determinação.

O caminho de JOE parece já estar traçado, visando à sua nomeação, como pastor da comunidade em que vivem. Aos outros dois, estariam destinadas duas vagas na universidade, a qual cursariam com bastante dificuldade. Isso, se as coisas não tivessem tomado rumos diferentes do planejado pela família; se SAM não tivesse cruzado o caminho de DEMBE, ou vice-versa, e ambos não tivessem se apaixonado.

É exatamente nesse detalhe do final do parágrafo anterior que está concentrada toda a carga dramática do espetáculo, uma vez que, vivendo num país que pune a homossexualidade com a prisão perpétua, contando com a incitação de um periódico local – “THE ROLLING STONE” –, que publica listas e fotos de “supostos” homossexuais, sugerindo-lhes a forca, os dois amantes se veem, num determinado ponto da narrativa, numa bifurcação da estrada, na qual caminhavam, juntos, na condição de ter de optar por um rompimento, pelo fim de uma linda, porém “proibida”, história de amor ou pôr em risco a própria vida, talvez, até, com uma punição cruel, em que o povo, numa prova de barbárie explícita, faria “justiça” com as próprias mãos.

Para que o leitor possa compreender melhor o drama dos dois rapazes, os protagonistas, e dos que os cercavam, transcrevo trechos, com ligeiras adaptações, extraídos da Wikipédia, fonte que me serviu de pesquisa para estes escritos. O material está reproduzido, aqui, “enxuto”, tendo sido mantido o essencial, para a compreensão do texto da peça.

“A homossexualidade em Uganda possui ‘status’ ilegal, sendo que os cidadãos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) do país não possuem qualquer proteção contra discriminações e agressões físicas e/ou verbal, como previsto na legislação.

O número de cidadãos assumidamente LGBT no país é de, aproximadamente, 500 000 pessoas. (Não sei se os números são os de hoje.).

A atividade homossexual, tanto masculina quanto feminina, é ilegal no país. Cidadãos LGBT que praticam a homossexualidade são tidos como criminosos, de acordo com os termos do Código Penal de Uganda, o qual diz que a ‘prática carnal com outra pessoa do mesmo sexo é contra a ordem da natureza’A homossexualidade é altamente criminalizada e, no caso da homossexualidade masculina, a punição chega a uma pena de prisão perpétua.

De acordo com o ‘Pew Research Center’, 96% dos habitantes de Uganda acreditam que ‘a homossexualidade é um modo de vida que a sociedade não deve aceitar’A porcentagem de homofobia era a quinta maior, em 45 países pesquisados.

Uma outra pesquisa, realizada em 2010, revelou que 11% dos ugandenses viam o comportamento homossexual como ‘moralmente aceitável’. Comparando com outros países do Leste Africano, apenas 1% na Tanzânia afirmou aceitar a homossexualidade, 4% em Ruanda e 1% no Quênia.

Em novembro de 2012, o presidente do Parlamento de Uganda prometeu promulgar uma lei anti-homossexualidade, que prevê sanções mais duras contra pessoas homossexuais e qualquer um que não denunciá-los às autoridades, incluindo a prisão perpétua para mulheres LGBT e prisão perpétua para “homossexuais reincidentes”.

A lei, em Uganda, que proíbe atos sexuais homossexuais, foi promulgada ainda durante o domínio colonial britânico, no século XIX, e consagrada na Lei de Código Penal de 1950, tendo sido mantida, após a independência.

Atenção ao Artigo 145Ofensas antinaturais. Qualquer pessoa que:

(a) tiver relação carnal com outra do mesmo sexo, contra a ordem da natureza;

(b) mantiver relação sexual com um animal;

(c) permitir que um homem tenha relação sexual com outro homem ou permitir que uma mulher tenha relação sexual com outra mulher;

Comete um crime e é condenado à prisão por toda a vida.

Diante de tanta ignorância, intolerância e obscurantismo, é o caso de um homossexual ugandense se perguntar, antes de “pecar”, se vale a pena o prazer que o sexo com um igual lhe proporciona.

Ao espectador de “O JORNAL…”, homossexual ou não, mais aplicado àquele segmento, cabe uma reflexão sobre até onde a pessoa iria, para ser quem ela, realmente, é. Seria capaz de morrer por amor? Teria coragem de enfrentar os tabus e se expor à fúria de uma população “cega” e ensandecida? Manter-se embotado, camuflado, inerme, num casulo, sobre o fio de uma navalha, na expectativa ou iminência de, a qualquer momento, ser denunciado e pagar com a própria vida, por ter nascido “diferente”, ou fugir daquele lugar e viver feliz; ou dar cabo à sua existência?

texto foi escrito por um jovem dramaturgo britânicoCHRIS URCH, que recebeu o Prêmio Bruntwood, seis indicações ao Prêmio Off West End e uma nomeação ao Prêmio Evening Standart. No Brasil, certamente, receberá outras premiações. Pelo menos, merecimento para isso há.

Entre nós, o texto ganhou uma brilhante tradução, de DIEGO TEZA, e vem preencher um espaço muito importante, que merece reflexões e discussões acerca da temática LGBT, ainda, carente de esclarecimentos. Não que os seus praticantes e/ou simpatizantes tenham de dar satisfações de seus atos ou ensinar nada daquele universo a quem ainda teima em não respeitar as igualdades, mas é mais uma porta aberta, para receber os que se deixarem refrescar as cabeças, a fim de um convívio saudável, entre seres humanos irmãos, respeitando as diferenças.

Um excelente depoimento de um dos produtores e diretor da peça, KIKO MASCARENHAS, sobre a montagem e o momento atual: “Quando o TEATRO cria um espelho da atualidade, é preciso prestar atenção e não deixar que o silêncio se transforme em cumplicidade”. E LÁZARO RAMOS, o outro produtor e co-diretor do espetáculo, completa: “Encontrar um roteiro que fale de uma realidade de Uganda, mas, ao mesmo tempo, nos remete a tanto do que vivemos no Brasil é um privilégio. Acima de tudo, ‘O JORNAL’ é uma peça que fala sobre amor”.

Não resta a menor dúvida de que, guardadas as devidíssimas proporçõesUganda é aqui. Por que não? Pode ser, também um outro lugar. E por que aqui, no Brasil?

Porque, em 2016, o número de mortes de LGBTs bateu recorde no Brasil.

Porque o Grupo Gay da Bahia (GGB) provou que o ano de 2016 foi o mais violento, desde 1970, contra pessoas LGBTs. Foram registradas 343 mortes, entre janeiro e dezembro do ano passado. Ou seja, a cada 25 horas, um LGBT foi assassinado, o que faz do Brasil o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. A Bahia ocupa a segunda posição, dentre os estados, com 32 mortes, ficando atrás, apenas, de São Paulo (49 casos). O Rio de Janeiro totalizou 30 casos e o Amazonas28.

Porque a integridade, física e moral, dos indivíduos LGBTs é ameaçada a cada segundo.

Nada mais é necessário, para justificar a importância deste esplendoroso espetáculo, que, além do magnífico texto, conta com uma direção perfeita e um naipe de atores que são motivo de orgulho para nós. Sim, o TEATRO BRASILEIRO está coalhado de grandes diretoresatorestécnicos e profissionais da criação“O JORNAL…” os reuniu.

Um dos maiores méritos desta montagem reside no fato de ela ter sido levantada com recursos próprios de seus produtores, não contando com patrocínios, o que, nos dias atuais, é como se achar uma agulha num palheiro.

Merece uma divulgação o processo que levou à seleção do elenco da peça.  “Para escalar os atores, LÁZARO idealizou uma oficina, que contou com apoio da Rede Globo e que mobilizou diversos profissionais, para um processo de escolha de elenco criativo e único. O resultado foram 5.000 inscritos, até se afunilar para 70 atores, de sete estados diferentes do país. Na sequência, 15 dias intensos de aulas de dança e canto, em jogos de improviso, ministrados pela dupla de diretores, com a ajuda essencial do coreógrafo ZEBRA e do preparador vocal WLADIMIR PINHEIRO. No fim, cinco destes candidatos integram o elenco de seis atores (…)”. Apenas DANILO FERREIRA não participou da oficina, tendo entrado para o grupo via teste.

Sobre a direção a quatro mãos, KIKO e LÁZARO imprimem, ao espetáculo, um ritmo que já começa agitado, com as cenas, sucessivamente, ganhando mais aceleração e provocando, na plateia, uma angústia e um clima de tensão, que assusta, pois todos sabemos que aquele rio vai desaguar num oceano encapelado.

Deve ter sido, mesmo, interessantíssima a oficina, de onde surgiu o elenco, em quase sua totalidade, a julgar pelo que se vê em cena.

Muito me agradam textos que tratam de alguns temas polêmicos, sem puxar para o viés da conversão, sem adotar tons panfletários nem procurar “fazer cabeças”. O enredo poderia, muito bem, caminhar por esse atalho, mas não o faz e os diretores entenderam muito bem a proposta do dramaturgo e a honraram.

Há, no espetáculo, momentos que são verdadeiros achados da direção, considerando-se, também, é óbvio, o talento dos atores.

Ao adentrar o auditório, o espectador já trava o primeiro contato com o elenco, uma ideia já tão usada e desgastada, em muitos casos, o que não ocorre aqui. É como se o público fosse saudado, ao som de uma bela canção africana, começando a se interessar pela história, ao ver ser traçado, no piso, um grande círculo, dentro do qual se passam quase todas as cenas da peça. Decodifiquei, naquele espaço, Uganda, como um microcosmo de um universo doente.

Duas das mais belas cenas do espetáculo reúnem, dentro do círculo, os personagens DEMBE e SAM. Uma, quando ambos estão no lago, dentro de um barco, admirando o céu e tentando adivinhar quem ou o que seriam cada estrela e cada nuvem. A outra é quando os dois se encontram, no apartamento de SAM, na cama, após uma noite de prazer, e trocam juras de amor, como uma triste e pressentida despedida.

Outra cena genial é quando DEMBE e WUMMIE conversam sobre a infância e reproduzem, com movimentos corporais, a subida numa mangueira. Solução simples, criativa e extremamente linda.

A ideia de um final aberto serve de consolo para o público, que, ao longo dos 90 minutos de duração da peça, torce por aquele amor impossível, totalmente cúmplice dos dois amantes.

Falar sobre o elenco do espetáculo não requer muito tempo nem tantas palavras. Num só adjetivo, caberiam todos: MAGNÍFICOS!!! Apesar da presença de dois protagonistasDEMBE e SAM, os outros quatro personagens coadjuvantes atraem, totalmente, a atenção do espectador, por sua força e pelas brilhantes interpretações de todos. Aos seis componentes do elenco, um grito em uníssono: BRAVI!!! 

ANDRÉ LUIZ MIRANDA, o mais conhecido de todos, por seus trabalhos na TV, desde menino, compõe um personagem (JOE), que se vê empoderado, quando se torna o pastor de uma comunidade, ao mesmo tempo que tal posição faz dele um ser sufocado pela distância que há entre a palavra e a ação. Como “chefe religioso” de uma tribo, tem de seguir os ditames daquela cultura arcaica, de uma gente ignorante e intolerante, princípios nos quais ele também acredita, porém se vê na corda bamba, quando a sua pregação se torna vulnerável, com um irmão “gay” sob o mesmo teto.

Na posição de mais velho dos três irmãos, incumbe-se de proteger a família, após a morte do pai, e tentar administrar não só a sua vida, como a dos outros dois irmãos. Demonstra um caráter e um temperamento fortes e definidos, mas também nos passa uma leve doçura.

É a primeira vez que o vejo pisando o palco, entretanto posso dizer, com convicção, que, apesar de ter apenas 30 anos, o ator demonstra muita segurança em cena e nada fica a dever a muitos veteranos.

Sobre DANILO FERREIRA, o que dizer? Para mim, uma gratíssima revelação, em que pese o fato de eu só tê-lo visto atuando num recente musical infantojuvenil, daqueles que nos causam arrependimento, por ter saído de casa. DANILO, aqui, se redime daquele musical e de qualquer outra atuação que, porventura, não lhe tenha sido muito favorável, em sua breve e promissora carreira. Que presença de cena! Que poder de convencimento tem este ator, a ponto de ganhar, o personagem, a comiseração de uma plateia inteira, tal é seu envolvimento emocional com DEMBE e sua competência no ofício da representação! Quero ver em muitos outros trabalhos esse ator, além de que vou rever “O JORNAL…”.

HELOÍSA JORGE foi “presenteada” (para falar como os atores globais, nas entrevistas) com uma grande personagem, que exige muito da atriz e que ela representa “de olhos fechados”. Sua MAMA é fantástica! Um misto de antiga vizinha e tia postiça, que, metaforicamente falando, é uma caixa de linda embalagem, de presente, dentro da qual há uma cascavel, das mais venenosas. Como passar uma imagem e ser outra pessoa? Sua atuação é brilhante, porque exige uma constante atenção na construção da personagem. Ela engana os demais em cena, mas, em pouco tempo, o espectador mais atento vai começando a desconfiar de sua verdadeira identidade.

MAMA não “morde e sopra”; ela faz o contrário. Angolana de nascimento, a atriz é a única, no sexteto, que fala com um leve sotaque e seu desempenho ganha força, por conta dessa maneira peculiar de falar, pelo impressionante trabalho de corpo, que lhe confere uma postura de onipotência e dona da verdade, e de sua maneira de se expressar com os olhos. Ela associa, com extrema sincronia, som e imagem, em suas participações.

Por pura conveniência (se eu disser o porquê, serei um “estraga-prazeres”), tem uma fixação em casar sua filha, NAOME, com DEMBE, no que conta com a concordância dos irmãos do rapaz. Quase ao final da história, o espectador irá compreender o motivo de tal desejo.

Ela interfere, com sua influência, na nomeação de JOE, como pastor, para que este fique preso às suas teias, e consegue minar o rapaz, fazendo dele um grande combatente dos homossexuais. Há, também, por trás dessa “força”, interesses financeiros.

Guarda a esperança de que JOE possa curar NAOME, fazendo-a voltar a falar e é ela quem revela à família de DEMBE sua condição de homossexual, após ter visto a foto do pobre rapaz estampada no pasquim. É uma delatora, já tendo, mesmo, exercido tal papel no episódio da morte de DAVID MUKISA, antigo namorado de NAOME, personagem importante na trama, que não aparece, porém, em cena. MUKISA, colega de sala de aula de DEMBE, aparece morto, com a cabeça esfacelada, ele, que nem era “gay”, mas tivera seu nome numa das listas do “ROLLING STONE”. Quantos inocentes, como ele, se considerássemos um erro a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo, também não sucumbiram nessa caça às bruxas, dos nossos tempos? A perseguição era tão vultosa, que, quando JOE se recusou a presidir a cerimônia fúnebre de DAVID MUKISA, por considerá-lo impuro e indigno de tais préstimos, o reverendo Amós (creio ser esse o nome) aceitou substituí-lo, o que atraiu dúvidas sobre a sexualidade deste.

MAMA se mostra com um discurso de ódio contra os homoafetivos e consegue contaminar JOE com esse discurso. E nós nos perguntamos: Onde fica o Cristianismo nisso?

Que atriz fantástica é INDIRA NASCIMENTO! WUMMIE, sua personagem, tem uma relação mais próxima com DEMBE, motivo que a faz sofrer tanto, ao descobrir a orientação sexual do rapaz. Uma cumplicidade se forma entre eles, o que é facilitado, em cena, pela grande afinidade que existe entre as atuações de ambos, INDIRA e DANILO. As cenas entre os dois se revestem de uma ternura que nos encanta.

WUMMIE é a única que tem noção do perigo que corre a família, além de DEMBE. Ela briga com JOE, porque ele vende os pertences do seu pai, recém-falecido, com o objetivo de desocupar o quarto e poder alugá-lo, para melhorar a situação financeira da família. Nesse gesto, percebe-se quão apegada aos valores familiares é a personagem.

Ela se sacrifica pela felicidade de DEMBE, a ponto de desistir do seu sonho de estudar, indo trabalhar, como faxineira, num hotel, para que o irmão possa concluir seus estudos. Cabe a ela interromper JOE, durante um inflamado discurso contra os homossexuais, durante um culto, para mostrar-lhe a foto de DEMBE, estampada no “ROLLING STONE”, como pederasta, o que gera uma grande decepção, em JOE, fazendo-o partir para uma agressão, verbal e física, contra DEMBE. Durante toda a longa cena da pregação, nota-se, na audiência da Igreja, o desconforto de DEMBE, um excelente momento da atuação de DANILO FERREIRA, que consegue expressar tanta angústia, medo e vergonha, sem dizer uma só palavra. Como última tentativa de “salvar” o agredido, WUMMIE implora a JOE que o “cure”, mas DEMBE se recusa a ser “curado” do que não reconhece como uma doença.

Quando JOE propõe a DEMBE que fuja, para não ser massacrado, WUMMIE entrega a este uma cruz, espécie de amuleto, que pertencera ao pai dos três, um objeto emblemático naquela família.

SAM, o namorado de DEMBE, é brilhantemente representado por MARCOS GUIAN, um jovem, porém ótimo, ator. Mestiço, filho de pai irlandês (branco) e mãe ugandense (negra) SAM foi educado na Europa e se tornou médico, indo parar em Uganda, para trabalhar. É ateu, o que lhe dificultava, mais ainda, compreender o porquê daquele ódio aos homossexuais, orquestrado pela religião.

A condição de meio-europeu fecha-lhe, um pouco, os olhos para o verdadeiro perigo que ele e DEMBE correm, por sua condição homossexual. Ele representa o contraste entre dois modos de pensar, de ver o mundo; uma total oposição cultural entre Europa e África. Busca uma tentativa de “iluminar” um pouco a escuridão daquela gente, sem, infelizmente, condições de atingir seu objetivo. Eles são muitos (não os objetivos, mas as pessoas).

O momento em que o personagem parece levar mais a sério a iminência de uma delação é quando se surpreende, ao ver que alguém, na sua ausência, invadira seu apartamento e pichou, numa das paredes de seu banheiro, a palavra “KUCHU”, vocábulo de origem swahili, uma forma de se referir aos homossexuais, em Uganda“Veado” seria a melhor tradução.

SAM demonstra amar muito DEMBE, a ponto de ir procurá-lo, na casa do namorado, após um período de sumiço deste, tendo sido recebido por WUMMIE, a quem, acaba confessando o relacionamento entre os dois.

SAM propõe a DEMBE uma fuga para a Inglaterra, onde poderiam ser felizes, longe daquela perseguição. Teria o projeto ido adiante? Veja a peça e tire suas conclusões!

“Last, but not least”, vamos falar de MARCELLA GOBATTI, que encarna a jovem NAOME, filha de MAMA, uma personagem enigmática, a qual carrega, ao longo da peça, um segredo, o qual, ao ser revelado, quase aos 45 minutos do segundo tempo (Não serei eu a cometer um “spoiller”.), causa surpresa ao público e indignação com relação à sua mãe. Ela ficou muda, durante seis anos, como consequência de um ato traumático, que, sem sua culpa, vai gerar outro, pior ainda. Seu desejado casamento com DEMBE, por parte de sua mãe, funciona como uma espécie de moeda de troca (Isso é horrível!!!), para consolidar os laços entre as duas famílias, tudo fruto de interesses escusos, por parte de MAMA.

O trabalho de composição da personagem serviu para avaliarmos o imenso grau de competência profissional de MARCELLAQue bela atriz, que tudo diz, sem falar!!! Quanta expressão na sua mudez!!! Quanta expressividade no seu dizer no vácuo!!!

Num momento de fraqueza, numa bela cena, dentro do barco, no lago, DEMBE abre o coração com NAOME e lhe revela sua condição de homossexual, o que acaba sendo o estopim para a sua “explosão”. É possível entender o gesto de NAOME como uma vingança contra o “mal” por que passara havia seis anos, porém do qual nem DEMBE, nem DAVID MUKISA tiveram culpa.

Para encerrar estes comentários, algumas breves palavras sobre os elementos técnicos da montagem.

Apenas dois bancos de madeira e quatro caixotes, vazados, com um lampião dentro de cada um, além de um pequeno “esqueleto” de um barco compõem as peças do simples e totalmente necessário cenário, assinado por MAURO VICENTE FERREIRA. Os bancos e os caixotes servem a várias configurações exigidas por algumas cenas.

Responsável pelos figurinosTEREZA NABUCO trabalhou dentro da discrição que o modo de se vestir daqueles personagens exigia. A cor cinza, uma representação metafórica para aquele ambiente sombrio e conturbado, foi a escolhida para todos os trajes, à exceção da camisa vestida por DEMBE, toda em estamparia africana, abundantemente colorida, o que era motivo de repreensão dos que o cercavam, menos SAM, os quais apontavam seu “mau gosto” em se vestir. Nem poderia ser diferente, uma vez que ele destoava de todos; ele era o “diferente”.

PAULO CÉSAR MEDEIROS, em mais de seus excelentes trabalhos, assina uma ótima luz, que ajuda a ampliar e dimensionar cada cena, dentro das exigências dramáticas.

Não podem ficar de fora desta modesta análise dois elementos. Um deles é a magnífica trilha sonora original, da autoria de um grande músico, WLADIMIR PINHEIRO, debruçada sobre cantos africanos. Como me agrada esse tipo de música! Mesmo quando abordam temas ligados à tristeza, as canções, quando cantadas, possuem uma sonoridade linda e, por estranho que possa parecer, alegre, de um delicioso frescor. O outro é o trabalho de direção de movimento, de responsabilidade de JOSÉ CARLOS ARANDIBA (ZEBRINHA), que explora a elasticidade dos corpos dos atores e cria excelentes momentos de movimentação em cena.

Fico muito feliz, vendo que, em meio ao caos cultural em que os (des)governos afundaram o Brasil, mormente neste ano de 2017, com péssimas previsões para o próximo, principalmente no Rio de Janeiro, alguns corajosos, determinados e bem intencionados produtores não medem esforços e sacrifícios, para nos proporcionar espetáculos do excelente nível de “O JORNAL – ROLLING STONE”. Feliz, também, por ver um espetáculo tão necessário para ampliar as discussões sobre as relações humanas, o respeito ao próximo e à dignidade do Homem, independentemente de cor, credo ou orientação sexual.

Estamos diante de um dos melhores espetáculos, não deste ano, mas dos últimos tempos e que é uma grande prestação de serviço à causa LGBT, merecedora de todo o meu respeito e admiração

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS AS SALAS DE ESPETÁCULO!!!

Dúvidas, críticas e sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.