‘O Homem no Espelho” – Um teatro em forma de show

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

No verão de 2008, para cobrir um “furo de pauta”, salvo engano, a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho foi convidada a criar, em tempo recorde, um espetáculo, para durar apenas um mês, ocupando a Arena do SESC Copacabana. Falo de “Beatles Num Céu de Diamantes”, que virou a coqueluche daquele verão, com várias sessões extras, e se transformou num dos maiores fenômenos de bilheteria e crítica do Teatro Brasileiro, utilizando um formato que está mais para um “show” musical do que para um a peça de TEATRO, ainda que conte com um roteiro e seja apresentado como um musicalUma obra-prima!!! Isso é unanimidade!!! Assisti ao espetáculo 58 vezes (até agora).

O que era para durar apenas um mês alçou voos altíssimos e está em cartaz há dez anos, continuando a lotar as salas em que é apresentado, tendo sofrido muitas mudanças no elenco, como é normal, ao longo de uma carreira longeva, com direito a apresentações, inclusive, na França, a convite.

Neste chuvoso início de ano, no verão de 2018, surge um novo candidato ao estrondoso sucesso de “Beatles…”, sem, contudo, a magnitude deste. Falo de “O HOMEM NO ESPELHO”, no mesmo formato, tendo como base as canções do maior ídolo “pop”, individual (Lembrem-se dos Beatles!!!) de todos os tempos: MICHAEL JACKSON.

CRIS FRAGA e NILZA GUIMARÃES, as duas idealizadoras do projeto, convidaram, há cerca de um ano, o talentosíssimo JULES VANDYSTADT, para cuidar da direção musical e escrever todos os arranjos vocais, além de se encarregar do roteiro do espetáculo. JULES ainda está no elenco, ao lado de gente de destaque e do maior gabarito no TEATRO MUSICAL BRASILEIROESTER FREITASEVELYN CASTROGOTTSHA e RAFAEL ROSSATO. Ainda atua, como “stand-in”RAI VALADÃO, que não participou da sessão à qual assisti, a estreia, para convidados.

Dividido em sete blocos, o espetáculo homenageia MICHAEL JACKSON. Conforme o pouco esclarecedor “release” que me foi enviado, “O maior astro ‘pop’ do século XX, uma trajetória genial, conturbada e misteriosa: é disso que vamos tratar e reverenciar”. Os sete blocos são, na ordem em que são apresentados: ABERTURAHUMAN NATUREROCK WITH YOUWHO’S LOVING YOUPRICE OF FAMEHEAL THE WORL e FINALE.

Diz, ainda, o referido (micro) “release” que, durante cerca de 80 minutos, os cinco atores/cantores tecem, “com suas canções, os amores, dores, críticas sociais e políticas, num espetáculo contundente, em que a criança interior luta pra viver num mundo de dissabores. A abordagem da infância aparece, questionando o caos e a violência a que somos submetidos, ao entrar na fase adulta, e permeia a encenação com reflexos distorcidos de nós mesmos. Um jogo entre o real e o faz de conta que tanto nos atravessa diariamente”. Tudo isso embalado ao som de grandes “hits”, como “Billy Jean”“Beat It”“Thriller”“Music and Me”“Ben”“Black or White” e tantas outras canções emblemáticas do repertório de MICHAEL. Antes de qualquer coisa, o espetáculo é um merecidíssimo tributo a MICHAEL JACKSON.

Sinopse

Delineando diferenças, exprimindo desejos e buscando transformação, “O HOMEM NO ESPELHO” vem apresentar as canções do maior ídolo “pop” do século XXMICHAEL JACKSON (Nota minha: Acho discutível, embora faça parte da grande legião de seus admiradores.)

A encenação reflete formas distorcidas, cria sombras e imagens, que permitem, ao público, o passeio por espaços sensíveis e impalpáveis.

As canções ganham novos arranjos, novas interpretações, mas sempre com a marca inconfundível do nosso homenageado.

Por fim, buscamos, no pensamento dele, a mensagem final: viver em paz e harmonia num mundo mais justo!


Os quinze próximos parágrafos foram extraídos, na íntergra ou adaptados, da Wikepédia, para que se tenha uma visão panorâmica do ídolo que motivou o espetáculo:

Tão genial artista quanto polêmico ser humano, MICHAEL JOSEPH JACKSON (Gary, 29 de agosto de 1958 – Los Angeles, 25 de junho de 2009), além de grande cantor, intérprete, “performer” e “hit maker”, foi um compositor, dançarino, produtor, empresário e arranjador vocal.

Embora tão contestado, como pessoa, era um filantropo, pacifista e ativista norte-americano.

Segundo a revista “Rolling Stone”, faturou, em vida, cerca de sete bilhões de dólares, o que fez dele o artista mais rico de toda a história, e, um ano após sua morte, faturou cerca de um bilhão de dólares, e ainda fatura bastante até hoje, oito anos após seu falecimento.

Começou a cantar e a dançar aos cinco anos de idade, iniciando-se na carreira profissional aos onze, como vocalista dos “Jackson 5”, formado por ele e seus irmãos. Começou, logo depois, uma carreira solo, em 1971, permanecendo como membro do grupo. Reconhecido nos anos seguintes como “Rei do Pop”, cinco de seus álbuns de estúdio se tornaram os mais vendidos, mundialmente, de todos os tempos: “Off The Wall” (1979), o fantástico “Thriller” (1982), o álbum mais vendido e popular da história, “Bad” (1987)“Dangerous” (1991) e “HIStory” (1995).

Lançou-se em carreira solo no início da década de 1970, ainda pela Motown, gravadora responsável pelo sucesso do grupo formado por ele e os irmãos.

No início dos anos 1980, tornou-se uma figura dominante na música popular e o primeiro cantor afro-americano a receber exibição constante na MTV. A popularidade de seus vídeos musicais, transmitidos pela emissora, como “Beat It”“Billy Jean” e “Thriller”, são creditados como a causa da transformação do videoclipe em forma de promoção musical e também de ter tornado o, então, novo canal famoso.

Foi o criador de um estilo totalmente novo de dança, utilizando especialmente os pés. Com suas performances no palco e clipes, JACKSON popularizou uma série de complexas técnicas de dança, como o “Robot”, o “The Lean” (inclinação de 45 graus) e o famoso “Moonwalk”.

Seu estilo diferente e único de cantar e dançar bem como a sonoridade de suas canções influenciaram uma série de artistas nos ramos do “hip hop”, “pop”, “R&B” e “rock”.

Outros aspectos, no entanto, da sua vida pessoal, como a mudança de sua aparência, principalmente a da cor de pele, devido ao vitiligo, geraram controvérsias significantes, a ponto de prejudicar sua imagem pública. Em 1993, foi acusado de abuso infantil, mas a investigação foi arquivada, devido à falta de provas e JACKSON não chegou a ir ao tribunal.

Depois, casou-se e foi pai de três filhos, todos os quais envoltos em mistério, criado pela mídia, principalmente a chamada imprensa “marrom”. Em 2005, foi julgado e absolvido das alegações de abuso infantil. Enquanto se preparava para uma nova turnê, intitulada “This Is It”MICHAEL morreu de intoxicação aguda do anestésico propofol, em 25 de junho de 2009, após sofrer uma parada cardíaca.

Tribunal de Justiça de Los Angeles considerou sua morte um homicídio, e seu médico pessoal, o Dr. Conrad Murray, foi condenado por homicídio culposo. Sua morte teve uma repercussão internacional instantânea, sendo motivo de comoção por parte dos fãs em muitas partes do mundo. Estima-se que até dois bilhões de pessoas tenham assistido ao funeral pela televisão, já que emissoras do mundo todo transmitiram o evento ao vivo. Em março de 2010, a Sony Music Entertainment assinou um contrato de US$ 250 milhões, com o espólio de JACKSON, para reter os direitos autorais de distribuição para suas gravações, até 2017, e lançando cerca de sete álbuns póstumos na década seguinte a sua morte.

JACKSON recebeu centenas de prêmios, que fizeram dele o artista mais premiado da história da música popular. Sua vida, constantemente nos jornais, somada à sua carreira de sucesso, como “popstar” fez dele parte da história da cultura popular mundial. Nos últimos anos, foi citado como “a pessoa mais famosa e conhecida do mundo”, o que considero um certo exagero.

O nome do espetáculo aqui analisado é a tradução literal de “Man in the Mirror”, um “single” extraído do álbum “Bad”, em 1988. Foi interpretada, pela primeira vez, ao vivo, no “Grammy Awards 1988. A canção esteve no topo da parada da “Billboard Hot 100” por duas semanas consecutivas.

letra da canção, composta por Glen Ballard e Siedah Garrett, foi escrita por aquele, quando estava indo para o estúdio, a fim de gravar “I Just Can’t Stop Loving You”, e viu seu rosto no espelho do carro, surgindo, daí, a inspiração. A letra fala que a mudança que queremos ver no mundo tem que começar por nós mesmos. A canção, que mistura “música pop” com “gospell”, fez parta do encerramento do funeral de JACKSON.

Passemos, agora, à análise do espetáculo, que, de saída, já recomendo, com muito empenho.

Foram muito felizes os envolvidos no projeto, em sua concepção.

Erguido sob muito sacrifício e empenho, “O HOMEM NO ESPELHO” chama a atenção por vários motivos, a começar pela boa escolha do “set list”, que compõe o roteiro do espetáculo, ainda que, como já fosse de se esperar, muitos “hits” tenham ficado de fora, uma vez que alongariam bastante o seu tempo de duração.

cenário, assinado por TECA FICHINSKI, já causa um certo impacto no espectador. O fundo do palco é formado por várias placas de metal, fazendo as vezes de espelhos, que são utilizadas, até mesmo, como instrumento de percussão. Elas refletem as imagens de forma distorcida, longe de sua realidade, como se sugerissem que a nossa imagem, refletida, a que cada um vê, de si mesmo, não corresponde à nossa real identidade (É preciso que nos modifiquemos, antes, para modificarmos o mundo.) O resultado plástico é lindo, principalmente porque amplia e reflete os efeitos do excelente desenho de luz, de PAULO CÉSAR MEDEIROS, que criou uma iluminação para um “show”“comme Il faut”. Ainda podem ser vistos, no cenário, alguns praticáveis, de formas e alturas diferentes, e os instrumentos musicais da ótima banda, que permanece em cena o tempo todo, dando aquele toque de “show”, da qual fazem parte HEBERTH SOUZA (teclado, guitarra, violão e regência)NAIFE SIMÕES (bateria, percussão e beatbox)MATIAS CORRÊA (contrabaixo) e THAÍS FERREIRA (violoncelo).

TECA FICHINSKI também é a responsável pelo simples, belo e funcional figurino, todo trabalhado em matizes de preto, branco e cinza, com estampas do rosto de MICHAEL nas variadas peças. Posso estar embarcando numa “viagem”, sem alucinógenos, mas senti uma certa intenção de se fazer referência às cores da pele do grande astro, que nasceu preto (negro) e, por ser portador de vitiligo, fez de tudo para se tornar branco.

O espetáculo não conta com uma dramaturgia, clássica no formato, o que exige da diretoraKIKA FREIRE, um trabalho mais voltado para a emoção que deve ser cobrada dos intérpretes, de acordo com as letras das canções, e a movimentação destes em cena, o que funciona corretamente, sem maiores destaques. Quanto ao que merece realce, na direção, dentre outras, está a cena em que os atores cantam, segurando espelhos redondos, o que, em função da incidência de luz e dos movimentos dos cinco, gera um belo efeito plástico. Não é novidade, mas é bonito e funciona.

Na cena inicial e em outra, num solo de GOTTSHA, para “Music and Me”, é utilizado um bonequinho de marionete, confeccionado por ALEXANDRE GUIMARÃES, representando o cantor, manipulado por RAPHAEL ROSSATO, creio que em melhor “performance” e justificativa, sob todos os aspectos, na primeira vez, abrindo o espetáculo.

Na parte relativa ao visagismoUIRANDÊ DE HOLANDA, fez um bom trabalho, ao idealizar parte dos rostos dos artistas pintada de branco, maquiagem que os próprios retiram, em cena, ao final do espetáculo, como que se despedindo do homenageado.

O mérito maior do musical recai sobre a atuação do homogêneo e magnífico elenco, tanto nas interpretações em conjunto ou em duplas como nos solos individuais. Parece, uma “batalha”, no bom sentido da metáfora, com cada um dos cinco querendo demonstrar o maior talento. Que vozes! Que sensibilidade de intérpretes! Que bálsamo para os nossos ouvidos!

ESTER FREITAS, ainda que já tenha participado de outros musicais, parece que, em “O HOMEM NO ESPELHO”, encontrou um terreno fértil, para semear o seu incomensurável talento de cantora, arrancando fortes aplausos com seus solos. Pareceu-me um pouco “apagada”, nos dez ou quinze primeiros minutos, aguardando o momento certo para marcar presença, até o final do musical.

Outra que arrebata o público, em suas incursões individuais, é EVELYN CASTRO, com sua voz possante, de imensa extensão. Além disso, como é atriz, assim como os outros, é de se fazer notar a sua entrega na interpretação do conteúdo das letras das canções selecionadas.

GOTTSHA, a veterana do elenco, com tantos excelentes trabalhos em musicais, é uma espécie de cereja do bolo, em termos de dramaticidade, em suas interpretações, além, é claro, da belíssima voz que Deus lhe deu.

RAPHAEL ROSSATO nos encanta com seu timbre de voz e seu carisma em cena.

Deixei para o final, fugindo à ordem alfabética, o nome de JULES VANDYSTADT, que é o grande mago do espetáculo. JULES vem, há um pouco mais de dez anos, se dedicando aos musicais, tanto como ator como, principalmente, diretor musical e arranjador vocal, funções que acumula aqui.

É digno de premiação o seu trabalho de desconstrução da obra de MICHAEL, substituindo os arranjos originais, incluindo os musicais, de tal forma, a criar verdadeiras joias em forma de música. Ele muda andamentos, transforma canções em outros ritmos, utilizando, até mesmo o tal do “funk” carioca, que eu detesto, em parte do “show”, sem falar da bossa-nova em que ele transformou “I Just Can’t Stop Loving You”.

Foi muito mais ousado, quando criou, assim como ocorreu em “Beatles…”, um “mush-up” (composição criada por mistura de duas ou mais músicas, ambas na mesma pista instrumental). Lá, houve a junção de “Yesterday” com “Let it Be”. Aqui, foram utilizadas “Billy Jean”, cantada por RAPHAEL ROSSATO, acompanhando-se ao violão, e “Remeber The Time”, na voz de ESTER FREITAS.

E a ousadia não para por aí. JULES, corajosamente, incluiu, no espetáculo, um trecho em iorubá, um cântico que reverencia Oxalá Chama-se Oní Sé a Àwúre”, lindamente interpretado por ESTER, sob um gigantesco manto, que nos lembra uma visão de Nossa Senhora de Aparecida. Abusou, favoravelmente, do sincretismo e nos brindou com uma das mais belas cenas do espetáculo.

Ainda houve canções transmutadas para “jazz”, com direito a improvisações. Sem dúvida, os arranjos, vocais de JULES VANDYSTADT valorizam as interpretações de todos, inclusive do próprio, de cuja participação, como cantor, não havia ainda falado. Simplesmente, fantástica!

“O HOMEM NO ESPELHO” merece uma carreira longa, inclusive fora do Rio de Janeiro, no que acredito, piamente, pela excelência do espetáculo, que precisa, no entanto, de um cuidado maior, por parte da produção, para que não voltem a ocorrer os desagradáveis problemas de superlotação, como ocorreu no dia da sessão em que assisti ao musical.

E VAMOS AO TEATRO!!!

E VAMOS OCUPAR TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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