‘O Frenético Dancin’ Days’ – Um musical que resgata a alegria de ser carioca

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Durante um bom tempo, desde que foi anunciada a montagem de um musical que se propunha a contar a história da “FRENETIC DANCIN’ DAYS DISCOTHEQUE”, a ser produzido e apresentado no Rio de Janeiro, o público que ama TEATRO e, principalmente, os que adoram TEATRO MUSICAL, como eu, ficou em polvorosa, ansioso, numa grande expectativa, pois todos sabíamos que poderíamos esperar algo muito bom no pedaço.

Depois de alguns meses, da pré-produção à estreia, finalmente, o Teatro Bradesco – Rio abriu suas portas para que um público, ávido de boas produções musicaisabrisse as suas asas e soltasse as suas feras, público este que vem enchendo aquele Teatro, desde a noite da primeira sessão, aberta a convidados e ao público em geral, uma excelente ideia da produçãoTudo junto e misturado. Bem democrático, como o salão da emblemática discoteca, que recebia, ao mesmo tempo, gente da alta sociedade carioca, artistas e seus funcionários. O pessoal do “jet set” esbarrava, na pista, com suas copeiras, cozinheiras e motoristas. Patrões e empregados, nivelados pela alegria contagiante da música, pela agitação dos passos, pelas “viagens”, produzidas pelas luzes inebriantes e por “otras cositas mas”… E o espetáculo vem se mantendo com sessões extras e lotação esgotada em todas elas. E não vejo a hora de assistir a ele pela terceira vez, pela quarta, pela quinta…

Não direi que o musical é despretensioso, mas ele só tem duas intenções, e já bastam, uma vez que são completamente atingidas: divertir muito os que viveram a época daquela discoteca e os que têm curiosidade em conhecer a sua história e resgatar o que podemos chamar de “a era de ouro da noite carioca”, muito distante da violência e de todos os percalços com os quais convivemos hoje, o que nos impede, até mesmo, de sair de casa e buscar a felicidade e a alegria, no entretenimento, fora dos muros de nossas fortificações.

Não esperem uma fabulosa dramaturgia (a do primeiro ato é melhor), o que, em musicais, já é, via de regra, coisa rara de ser encontrada, mas tenham a certeza de que a que nos oferecem NELSON MOTTA e PATRÍCIA ANDRADE é bem boa, corresponde aos objetivos da peça e nos faz travar contato com a verdadeira história de uma casa de espetáculo que marcou a vida carioca, ainda que com uma duração meteórica (apenas quatro meses), surgida de um fracasso e fruto da coragem, ou loucura, de cinco inseparáveis amigos: o próprio NELSON MOTTAjornalista; a também jovem jornalista SCARLET MOON (DE CHEVALIER); o produtor teatral DJALMA LIMONGI, recém-falecido; o ator, que também estava trocando o palco pelos bastidores, LEONARDO NETTO (o LÉO, que não deve ser confundido com seu homônimo, atordiretor e dramaturgo, ainda, felizmente, em atividade); e o DJ DOM PEPE, que, antes, era chamado de discotecário.

 

SINOPSE

 

O consagrado templo da música dançante carioca, o “Frenetic Dancing’ Days Discotheque”, surgiu de um grande fracasso.

NELSON MOTTA (BRUNO FRAGA), que já havia produzido, com sucesso, o primeiro “Hollywood Rock”, foi o mesmo que inventou um evento, em Saquarema, em 1976, chamado “Som, Sol e Surf”, um festival de rock, que, devido a vários erros, acabou se tornando o maior prejuízo para seus organizadores. Houve muita chuva; a invasão de “hippies”, que pulavam os muros; muita gente entrando, sem pagar pelo ingresso; o contratante, um certo Silveirinha, que fugiu, para Lisboa, com o borderô…

Completamente falidos e sem saber como saldar as dívidas, NELSINHO e seus quatro amigos, SCARLET (LARISSA VENTURINI)DJALMA (CADU FÁVERO)LÉO (FRANCO KUSTER) e DOM PEPE (ANDRÉ RAMIRO) se lançaram a procurar um meio de salvação, até que foram convidados, na figura do dono de uma imobiliária, o IGNÁCIO (GABRIEL MANITA), da Imobiliária Santo Ignácio, pela direção do Shopping da Gávea, em final de construção, um empreendimento ainda “estranho” para as pessoas, para o funcionamento de uma casa noturna naquele lugar, como se os cinco fossem “do ramo”.

IGNÁCIO se ofereceu, “sem motivo aparente”, para financiar o início da empreitada. MOTTA topou e embarcou, de primeira classe, para Nova Iorque, onde morava uma prima riquíssima, para conhecer a grande sensação, do momento, no campo do entretenimento, naquela megalópole, representada pelas discotecas. Com o dinheiro do investidor, NELSINHO só teve dois dias para comprar o básico para a montagem de uma discoteca dentro do Shopping da Gávea, mas que já estava com os dias contados, uma vez que só poderia durarquatro meses, ao fim dos quais o local deveria ser entregue aos proprietários do que viria a ser o atual Teatro dos Quatro. Seria uma estratégia de “marketing”, para divulgar o “shopping” e incentivar a venda de suas lojas. Na mala, NELSINHO trouxe 100 LPs dos artistas que estavam “bombando”, na cidade que nunca dorme, os grandes “hits” do momento, e, para passar com eles, pela Alfândega, sem que houvesse o pagamento de alguma taxa de importação, fabricou um carimbo (NOT FOR SALE = NÃO ESTÁ À VENDA). E o truque deu certo. (“Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo.”.)

Misturando realidade e ficção, os dramaturgos contam a trajetória daquela casa noturna, com muito bom humor, tudo regado, como não poderia deixar de ser, a boa música, a mesma que nos alegrou nos embalos, não só de sábado à noite, mas de todos os dias, de 2ª feira a domingo, naquele ano de 1976.

Asas abertasferas soltas, o Rio de Janeiro era uma festa. E não havia lugar mais adequado para celebrar a vida do que o “Frenetic Dancing´Days Discotheque”E por que não resgatar esse tempo, quando o carioca era feliz e sabia? Os dias de alegria estão de volta!

A noite carioca fervia nos anos 70, quando a casa foi criada, inaugurada em 5 de agosto de 1976, e marcou a chegada da discoteca no país. Lady Zu,Banda Black RioTim Maia…; a pista da boate fervia. Na casa, apresentaram-se grandes nomes de sucesso, como Rita Lee (ainda com o Tutti-Frutti), Raul SeixasGilberto Gil… Mas nada causou mais sensação do que o grupo As Frenéticas, seis moças, contratadas para trabalhar como garçonetes, as quais, porém, em pouco tempo, foram alçadas ao topo do sucesso, graças ao seu enorme talento musical. São elas: DHU MORAES (ESTER FEITAS); EDYR DE CASTRO (CAROL RANGEL), com quem tive o prazer de ter trabalhado, na primeira versão do musical “HAIR”, em 1970, atualmente vivendo no Retiro dos Artistas; LEILOCA (LARISSA CARNEIRO)LIDOKA (INGRID GAIGHER),falecida em 2016; REGINA CHAVES (JULIA GORMAN); e SANDRA PÊRA (LUDMILA BRANDÃO). Em função do sucesso, na boate, o grupo foi contratado, pela multinacional Warner, gravadora iniciando suas atividades no Brasil, para gravar um LP, que dominou, por muito tempo, as paradas de sucesso e as vendas e execução, graças a “hits”, como “Dancin’ Days”“Perigosa” e “O Preto Que Satisfaz”, principalmente.

Apesar de ter funcionado, apenas, durante quatro meses, a boatecelebrava um Rio e um país que conseguiam ser “livres”, apesar da ditadura militar. O local reunia famosos e anônimos, “hippies” e comunistas; todas as tribos, com o único objetivo, o de celebrar a vida.

O sucesso foi tamanho, que a casa foi, posteriormente, reaberta, no Morro da Urca, e inspirou a novela “Dancin’ Days”, de Gilberto Braga, que tinha a música homônima, das Frenéticas,como tema de abertura. O país inteirou caiu na gandaia e entrou na festa, como pode fazer agora, no Teatro Bradesco – Rio de Janeiro.

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espetáculo só está dando certo, e tem tudo para ficar muito tempo em cartaz e viajar em turnês, em função de uma excelente e oportuna ideia e de uma ficha técnica invejável, de primeiro mundo, que é responsável pelo fato de tudo acontecer dentro do melhor padrão de qualidade, em todas as áreas, não permitindo que o espectador observe uma única falha, em se tratando de um musical.

“O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS” tem tudo o que um bom musical precisa ter. Além do texto, sobre o qual nem precisaria falar mais, vem, à frente do pelotão de profissionais envolvidos no projeto, um nome da dança contemporânea, respeitado até no exterior, que se arvora – porque sabe que podia fazê-lo -, pela primeira vez, a dirigir um espetáculo musical. E o fez como muitos veteranos tarimbados não o conseguem, às vezes. Conhecida pelo rigor, à procura da excelência para os seus trabalhos, o que é, antes de tudo, respeito a si mesma, aos profissionais com os quais divide o palco e, principalmente, ao público, DEBORAH COLKER acerta, em cheio, a mão, na condução dos seus comandados, com muita disciplina, criatividade e bom gosto, deixando tudo muito claro e fluente, sem mistérios, para a compreensão do público. DEBORAH, paradoxalmente, facilita tudo, procurando, e atingindo, a simplicidade, por meio da complexidade. Suas marcações são excelentes, assim como (E NÃO SERIA PRECISO DIZER) as magníficas coreografias, aqui, generosamente, divididas com JACQUELINE MOTTA. São todas admiráveis e contagiantes, seguindo os passos da época, incrementados com novas e mirabolantes ideias da dupla de coreógrafas.

Eu e DEBORAH temos muitos amigos comuns, alguns dos quais trabalham ou já trabalharam com ela, que não poupam elogios à sua quase “obsessão” (no bom sentido, não seria exagero) pela perfeição, o que a faz se cercar dos melhores profissionais, para integrar a sua equipe, como ocorre nesta produção, o que, positivamente, representa a garantia de todos os seus sucessos.

Tudo é grandioso, em cenaTudo salta aos olhosTudo tem sua razão de estar no palco. O que pode parecer, a alguns, megalomania, a julgar pelos números e proporções do que se vê em cena, nada mais é do que o caminho encontrado pela direção, para tentar passar a ideia de grandiosidade que representou, para o Rio de Janeiro, na década de 70, o “evento” “DANCIN’ DAYS”. Sim! Aquilo foi um evento e se transformou numa lenda real. LINDA, LEVE E SOLTA!!!

“São 16 excelentes atores em cena, acompanhados de sete magníficos bailarinos, os quais realizam, com muito talento, aquilo que um musical exige: personagens definidos, canto de primeira linha e números de dança com coreografias e atuações jamais vistas em palcos brasileiros. Para afirmar a história de uma discoteca, a opção foi desenhar números que brinquem com a forma de dançar na época, mas transformem o palco em um espetáculo de ‘ballet’, digno dos grandes conjuntos, pelo impressionante entrosamento do grupo”.(Extraído do “release”, enviado por ALAN DINIZ – XAVANTE COMUNICAÇÃO – ASSESSORIA DE IMPRENSA).

Alguns excelentes detalhes, do texto e a da direção, não poderiam deixar de ser, aqui, lembrados, já que funcionam harmoniosamente, como a inserção, no texto, de uma célebre frase, dita por NELSON MOTTA“O sucesso é muito bom, mas não ensina nada; é com o fracasso que se aprende.”, justificativa para o sucesso do “DANCIN’ DAYS”. Ainda com relação ao texto, os autores não se furtam a fazer críticas a problemas atuais, principalmente do ano de 2016 até os dias de hoje, tais como alusões aos políticos corruptos, à discriminação racial e à homofobia. A corrupção, o câncer verde-amarelo também se faz presente na exigência que um bombeiro, o soldado CATARINO (GABRIEL MANITA) faz, para a liberação do alvará de funcionamento da casa, da compra de um determinado dispositivo antifogo, vendido somente pela empresa de um oficial do Corpo de Bombeiros, o que ocorre, descaradamente, até hoje. E a corrupção não para por aí, uma vez que SCARLET, com todo o seu charme, seduz o bravo soldado do fogo, cantando “Light My Fire”, ao que ele, não resistindo à tentação (E quem haveria de?), responde, num dueto, cantando “Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo”. E tudo fica, ali mesmo, resolvido. É ou não é a cara do Brasil?

Um toque nostálgico, em todo o espetáculo, mais evidente e delicioso, se revela nas projeções de imagens daquela Festival “abortado”, em Saquarema, e de frequentadores do Píer de Ipanema, o grande “point” do verão carioca, à época.

Ao serem apresentadas, para a contratação, as Frenéticas o fazem cantando e falando, o que considero uma excelente ideia, da mesma forma como aprovo a decisão de cada um dos protagonistas se apresentar, logo no início da peça, para que o público se situe, quanto ao enredo. É um toque quase didático, sem ser enfadonho, dentro da dramaturgia.

A cena que mais arranca risadas da plateia é quando LÉO (FRANCO KUSTER)“abre a porta do armário” para o fiscal (de não sei o quê, da Gávea) GERALDO, impagável atuação de GABRIEL MANITA, e dois militares, o TENENTE MOELLER (ROMULO VLAD) e o CAPITÃO MATOSO (ELIO BARBE), os quais, “gays enrustidos”, foram ao “DANCIN” DAYS”, com a missão de fechar a boate, atendendo ao não cumprimento das exigências para o seu funcionamento e a reclamações da vizinhança. A cena se reveste de muito humor, com a lenta transformação do trio “gay”“soltando as suas feras”, incluindo a hilária troca de figurinos, ao som do clássico “Y.M.C.A.”, cantado por LÉO.

Já que a personagem DONA DAYSE é ficcional, por que não atribuir a ela a tentativa de fazer algumas modificações na estrutura de funcionamento da casa? Os autores fogem, totalmente, à ideia da discoteca e mostram a personagem de STELLA MIRANDA tentando incluir, no “cardápio artístico”, números de musicais da Broadway, com passagens, de “Sweet Charity”“The Rocky Horror Picture Show” e “West Side Story”, três grandes clássicos do TEATRO MUSICAL. Um pouco de metalinguagem não faz mal a ninguém. É tudo fora do contexto da peça, mas acaba funcionando bem, ainda mais quando conseguimos perceber que se trata, quase com certeza, de uma forma de os autores homenagearem a grande atriz STELLA MIRANDA. A personagem também, num ataque de “estrelismo”, já de visual totalmente modificado e sócia da boate, no segundo ato, sugere a troca do nome da casa para “Dancin’ Dayse”.

Também faz muito bem, aos olhos e aos ouvidos, a cena, no segundo ato, de um concurso de danças, que serve para os atores/bailarinos demonstrarem o seu potencial na pista de danças. É muito interessante e instigante; um verdadeiro “show” de coreografias.

elenco, à exceção de STELLA MIRANDA, que foi convidada para o papel de DONA DAYSE, foi escolhido em função de exaustivos testes, durante os quais “competência profissional e resistência física foram avaliadas”. Todos, além de uma boa atuação, são excelentes cantores e dançarinos.

BRUNO FRAGA interpreta bem um NELSON MOTTA muito próximo ao que conhecemos do consagrado jornalista e homem de muitas facetas profissionais: “inquieto na arte, no trabalho e na vida afetiva”, que vivia oferecendo sociedade, participações nos lucros ou facilidades a quem se colocasse contra o ousado projeto. Vi, em cena, o mesmo NELSINHO que imaginei, ao ler seu delicioso livro “Noites Tropicais”, no qual a história do “DANCIN” DAYS” é lembrada. BRUNO atua com discrição, conseguindo, mesmo assim, porque faz um bom trabalho, marcar grande presença em cena, e seus números musicais são ótimos. Na ficção (Será que só nela?), o personagem, quando exagerava na dose dos “comprimidinhos”, tinha alucinações, com a escultural e belíssima personagem BÁRBARA, esposa deIGNÁCIO. Numa delas, no primeiro ato, assim que chega a Nova Iorque, ele a “vê”, numa cena no Empire State Building, para a qual foi criada uma excelente coreografia, das várias que ainda viriam. Ainda no primeiro ato, em outra alucinação, ele interpreta, magistralmente, uma linda canção, “Feeling Good”, num arranjo musical esplendoroso, que arrancou, de mim, um grito de “BRAVO!”, nas duas vezes em que assisti ao musical, enquanto BÁRBARA (NATASHA JASCALEVICH)executa uma dança erótica, numa espécie de “pole dancing”, que é de tirar o fôlego. Certamente, é uma das melhores cenas do espetáculo. No segundo ato, durante outra alucinação, BRUNO capricha numa versão, para o português, de “Can’t Take My Eyes Of You”, que também provoca grande ovação da plateia, mais uma vez com NATASHA se exibindo, maravilhosamente e da forma mais “sexy” possível, trepada numa enorme bola de espelhos.

Em seu primeiro trabalho num musicalLARISSA VENTURINI veio para ocupar um lugar de destaque no seleto grupo das cantrizes. Além de boa atrizcanta e dança com perfeição, sem falar que, por meio de um belo trabalho de visagismo, parecia a própria SCARLET MOON no palco. Na voz, na postura corporal, nos gestos, no andar, no comportamento, nas frases feitas, como “É um prazer inenarrável!”… SCARLET foi uma mulher à frente de seu tempo, corajosa, destemida, uma “mulher livre, libertária, de esquerda”, que faleceu, infelizmente, muito jovem, mas que soube aproveitar bem a vida. O trabalho de LARISSA é excelente!

Também gostei muito da participação de FRANCO KUSTER (LÉO), veterano, apesar de jovem, em musicais e que interpreta um personagem “gay”, na medida certa, nada caricatural. Sai de sua boca a frase “Boi preto conhece boi preto”., dita, várias vezes, pelo estilista, já falecido, Clodovil Hernandez, homossexual assumido, quando queria dizer a alguém que vivia “no armário”, mas que ele, com seu “faro”, reconhecia como pertencente, também, à “confraria”, que ninguém o enganava, quanto à sua sexualidade. Com essa frase, LÉO salva a boate de ser fechada, quando a ameaça surgiu, por parte de um “fiscal” e dois militares. Não sei se o fato é verídico ou se é fruto da imaginação da dupla de dramaturgos (tem tudo para ser ficcional), mas a cena é hilária. Aliás, esse aspecto da mistura do real com a ficção é uma das melhores sacadas do texto. O espectador nunca sabe, com certeza, se o fato ocorreu ou não, e isso é, por demais, delicioso.

É impressionante a excelente interpretação de CADU FÁVERO, para o personagem DJALMA, o “produtor comunista, o belo lado racional e corajoso do quinteto, e que, durante muitos anos, os mais de vinte últimos de sua vida (faleceu muito recentemente), foi uma espécie de “relações públicas” do restaurante “La Fiorentina”, no LemeRio de Janeiro, local de encontro da classe teatral cariocaDJALMA, o “administrador”, sempre fechado, emburrado, mal-humorado, era o contraponto para os arroubos de “criatividade” e de loucura dos outros quatro. Completamente “careta”, era ele quem os trazia para o chão, merecendo, por várias vezes, uma reprovação do quarteto: “DJALMA, você é chato pra caralho!”, ao que ele, sem se alterar a voz, retrucava: “Realista! Eu sou realista!”CADU, que conheceu bem DJALMA, na vida real, estudou-lhe os hábitos e tiques nervosos, reproduzindo-os em cena, o que, no dia em que assisti, pela primeira vez, ao espetáculo, emocionou muito as filhas do homenageado. Um belíssimo trabalho de composição de personagem!

ANDRÉ RAMIRO, cujo atuação, salvo engano, eu só conhecia no cinema e na TV, completa o quinteto de amigos e protagonistas, se é que há protagonistas nesta peça (Acho que todos o somos!). Além de um bom ator, também canta e dançacorretamente, interpretando o famoso DJ DOM PEPE“a carioquice em pessoa,‘swing sangue bom’”.

O grupo das seis atrizes que interpretam as FRENÉTICAS executa um ótimo trabalho, em qualquer das áreas de atuação e é muito agradável a combinação de suas vozes, lembrando bastante a formação original do grupo, quando surgiu. Muitos aplausos para, na ordem alfabética, CAROL RANGEL (EDYR DE CASTRO)ESTER FREITAS (DHU MORAES)INGRID GAIGHER (LIDOKA)JULIA GORMAN (REGINA CHAVES)LARISSA CARNEIRO (LEILOCA) e LUDMILA BRANDÃO (SANDRA PÊRA).

Eu não me perdoaria se não desse um destaque a NATASHA JASCALEVICH (BÁRBARA), por sua marcante presença em todas as cenas de que participa, quer como atriz, quer como excelente cantora e dançarina, agregando, ainda, sua formação de acrobata e contorcionista, atividades já exibidas e apreciadas em outros musicais, como “O Grande Circo Místico” e “Ayrton Senna – O Musical”. Há muito, sou um grande observador e admirador de seu trabalho.

Também merece uma palavra de destaque a atriz ARIANE SOUZA (MADALENA), a cozinheira que “ganhou o emprego de DONA”, ao ser admitida, como sócia, na boate e que “entende bem as armadilhas do capitalismo”. Além de ser boa atriz cômica, responsável por momentos de bastante humor e descontração, na peça, ela também é detentora de uma bela e possante voz, que nos encanta a todos.

GABRIEL MANITA, já há algum tempo, vinha merecendo uma oportunidade de mostrar, com mais evidência, o seu trabalho de atorcantor e dançarino, momento que, finalmente, chegou. E ele soube se prender à oportunidade e defende, com bastante competência, os pequenos personagens que interpreta e valoriza, marcando sua passagem pelo palco (IGNÁCIO, CATARINO e GERALDO).

E quanto à “performance” de STELLA MIRANDA, nem é preciso dizer muita coisa. A atriz é uma veterana em musicais e, aqui, interpreta a personagem ficcionalDONA DAYSE, vizinha, do prédio ao lado, do “shopping”, a qual invade a boate, vinda da plateia, ao final do primeiro ato, em roupas de dormir, numa caracterização hilária, para reclamar do absurdo do barulho que extrapolava os limites da danceteria. Acaba por mudar de ideia, tão logo a “generosidade” de NELSON MOTTA lhe oferece sociedade na casa. A personagem não existiu, na vida real, e é um dos achados da peçaSTELLA, cuja veia cômica é mais do que conhecida e apreciada, rouba algumas das cenas de que participa. Não posso, entretanto, deixar de registrar que DONA DAYSE comporta-se, em tudo, como a Dona Álvara, do seriado “Toma Lá, Dá Cá”, exibido, durante anos, pela TV Globo. Não vejam nisto, porém, uma crítica negativa, principalmente porque sempre achei a personagem muito engraçada e considero bem válida a proposta. Essa primeira participação de DONA DAYSE encerra o primeiro ato, bem no alto, como deve ocorrer em todos os musicaiscom intervalo (a grande maioria), para que o espectador sinta vontade de que a interrupção passe logo, para o prosseguimento do espetáculoTermina o primeiro ato e o público fica com aquela vontade de “quero mais”.

Imaginem se uma profissional do porte de DEBORAH COLKER iria errar na escolha dos/das bailarinos (as)! São de uma excelência acima do normal, sendo que todos têm oportunidade de se destacar em pequenos solos e chamar a atenção da plateia, como o faz, por exemplo, ROGGER CASTRO, capaz de manobras radicalíssimas, em termos de dança, na pele, ficcional, de TONY MANERO, alguém que era um frequentador assíduo da boate e que, quando adentrava o salão, todos paravam de dançar para admirá-lo e aplaudi-lo. Também não fica claro se o personagem existiu, realmente, mas parece que sim, tendo, inclusive, pedido a mão de MADALENA em casamento (Aí, já me parece não ser verdade.).

Já falei, acima, sobre o caráter grandioso, em termos de proporção, dos elementos em cena, a começar pelo fantástico cenário, de GRINGO CARDIA, que também assina toda a direção de arte do musical.

GRINGO procurou deixar o espaço cênico o mais livre possível, para a execução das coreografias, principalmente, e se limitou a projetar uma réplica da famosa boate, além de utilizar elementos cenográficos móveis, que entram e saem, de acordo com a exigência da cena, como cadeiras, poltronas e “chaises” com detalhes de neon; um gigantesco “scarpin” vermelho, em pedrarias e espelhos, uma espécie de ícone da boate; uma pequena réplica do Empire State Building(alucinação em Nova York); e uma gigantesca cabeça de veado, toda revestida de cacos de espelho (cena da “saída do armário” do fiscal e dos dois militares).

Os figurinos, assinados por FERNANDO COZENDEY, se destacam pelo exotismo, pelo psicodelismo, pelo colorido, propositalmente exagerado, e pela criatividade, acrescentando alegria a todas as cenas.

É impossível alguém se esquecer da frenética iluminação, desenhada por MANECO QUINDERÉ, a qual superlativa todas as cenas, sem qualquer exceção. MANECO abusa das cores e das intensidades de luz, para criar o ambiente necessário ao desenrolar do roteiro, sem falar na “orgia de laser”, que tem tudo a ver com o espetáculoO público vai à loucura com os sons e as luzes.

Não poderia ficar de fora, para completar o tom exigido por esta produção, o excelente visagismo de MAX WEBER, que mergulhou, profundamente, no elemento exótico, para caracterizar a “tribo” que frequentava a danceteria.

Um dos maiores nomes que colaboram para a consagração do espetáculo é o de ALEXANDRE ELIAS, à frente da competentíssima e desafiadora direção musical, na qual se destacam a brilhante trilha sonora, o fantástico trabalho de arranjos musicais e vocais e, a gravação de todos os “playbacks”. Sim, não há músicos ao vivo, da mesma forma como ocorria no “DANCIN’ DAYS” e nas discotecas que a sucederam. Isso foi uma opção do próprio ELIAS, partindo de uma ideia de uma das produtoras do espetáculoJOANA MOTTA. Assim, ele e sua equipe desenvolveram um trabalho de pesquisa, que durou três anos, uma “direção musical que não precisasse de uma banda ao vivo (…), mas que, ao mesmo tempo, eu (ALEXANDRE ELIAS) pudesse criar arranjos novos e ter uma música viva, que pulsasse junto com o espetáculo e com a direção desafiadora das leis da física e do óbvio (…). O resultado é um trabalho com arranjos criados a partir de uma tecnologia de ponta, em edição e manipulação de ‘samples’ e ‘loopings’. (…) Compramos a licença, para samplearmos alguns dos maiores músicos do mundo (…). Esses músicos entraram no Bunker Studios, em Nova Iorque, e gravaram horas e horas de ‘grooves’ de ‘disco music’, ‘funk’, ‘soul’ e ‘rock’. Não gravaram qualquer música específica; somente levadas, improvisos, ‘jam sessions’. Recebemos essas gravações, em forma de ‘samples’, em áudio de altíssima qualidade, e, a partir daí, eu fui manipulando e editando esse material sonoro, para poder recriar os arranjos das músicas que NELSON MOTTA escolheu. Durante o espetáculo, esses arranjos são operados em um ‘software’ de última geração, que permite que o operador faça com que a música acompanhe a pulsação dos atores e bailarinos, como se fosse uma banda ao vivo. São dois computadores interligados e trabalhando simultaneamente, para que isso aconteça.” (Trecho extraído do depoimento de ALEXANDRE ELIAS, no lindo programa da peça, e que não poderia ser omitido nesta crítica.). A plateia jura que há uma banda em cena. Resumindo: trabalho de um gênio, merecedor de todos os prêmios na categoria “direção musical”.

desenho de som, cujo responsável é TOCKO MICHELAZZO, permite que não se perca o mínimo detalhe projetado para ser ouvido.

Muito do sucesso do espetáculo se deve à seleção do elenco, tarefa das mais importantes, aqui, a cargo de CIBELE SANTA CRUZprodução de elenco.

Tudo o que ainda me resta dizer sobre “O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS” é que estamos diante de uma superproduçãoimperdível! Trata-se de um espetáculo que, sem forçar nenhuma barra, promove uma total interação entre palco e plateia, ficando difícil, para o espectador, de qualquer idade, permanecer imóvel, sem se divertir e se emocionar, durante os 120 minutos de sua duração.

“Nada é realista e, muito longe de ser uma documentação dos anos 70, todos os elementos da linguagem teatral contribuem para fazer aquilo que a discoteca esbanjava: clima, alegria, gente talentosa, um enorme diferencial de outros locais.”.

Chamo a atenção de quem vai assistir ao espetáculo para não se retirar do Teatro, após o primeiro fechamento da cortina, uma vez que uma linda e emocionante surpresa está reservada ao público.

Aproveito, também, para registrar, na plateia, no dia da sessão para convidados, as marcantes presenças de três das originais FrenéticasDHU MORAESLIDOCA e SANDRA PÊRA, o que contribuiu, enormemente, para aumentar a nossa emoção.

“O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS” não é só uma peça de TEATRO“O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS” não é só um ótimo e divertido musical“O FRENÉTICO DANCIN’ DAYS” é muito mais: é um evento, um grande acontecimento, que veio para nos fazer relembrar e celebrar uma época em que os cariocas tínhamos (Aceitem a silepse de pessoa!) orgulho de nossa naturalidade, um tempo em que a gente era feliz, no Rio de Janeiro, e não sabia. Ou será que sabia?

Recomendo muito o espetáculo, ao qual já assisti duas vezes e ainda pretendo ver mais outras.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

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POSSAMOS DIVULGAR O QUE EXISTE DE MELHOR NO

TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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