‘O Choro de Pixinguinha’ – Uma bela e justa homenagem a um gênio da música popular brasileira

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Para comemorar 25 anos de produção teatral, a LÚDICO PRODUÇÕES escolheu prestar uma homenagem a um dos maiores músicos da Música Popular Brasileira, cujo nome verdadeiro, Alfredo da Rocha Vianna Filho, não representa tanto. Provavelmente, poucos saberão de quem se trata. Quando, porém, a referência se dá com relação a um dos seus apelidos, o mais célebre, não há quem não o conheça e admire: PIXINGUINHA.

Antes de qualquer outro comentário, quero registrar a minha homenagem e o meu agradecimento, em nome do público de TEATRO, a ANA VELLOSO e VERA NOVELLO, irmãs e sócias, na LÚDICO PRODUÇÕES, por insistirem, sempre com grande sucesso e aceitação, em investir na Música Popular Brasileira, associada ao TEATRO infantojuvenil, para levá-la aos pequenos, com o objetivo de informá-los acerca da riqueza da nossa música popular e de manter viva a obra de seus grandes mestres, como também o fazem Pedro Henrique Lopes e Diego Morais (Projeto “Grandes Músicos Para Pequenos”.), além de outros criadores.

ANA e VERA já nos presentearam com deliciosas e belas produções, superpremiadas, como “Sambinha”Bossa Novinha” e “Forró Miudinho”, dedicadas a crianças e adolescentes. Agora, começam a apostar numa nova trilogia, iniciada por “O CHORO DE PIXINGUINHA”, que deverá ser seguida por “O Piano da Chiquinha” (homenagem a Chiquinha Gonzaga) e “Viva Nelson Cavaquinho” (um preito a Nelson Cavaquinho).

O dito popular diz que “Não se deve mexer em time que está ganhando.”. Com base nele e nos frutos colhidos nas três últimas produções no gênero TEATRO infantojuvenil, as duas produtorasANA e VERA, mantiveram o mesmo elenco que atuou naquelas produções, assim como os demais da equipe. Além das duas, como atrizes, estão presentes, nesta, ÉDIO NUNESMÍLTON FILHO e PATRÍCIA COSTA.

 

SINOPSE

 

No musical “O CHORO DE PIXINGUINHA”, os meninos JÚNIOR (ÉDIO NUNES), MARILU (ANA VELLOSO), BETO (MILTON FILHO), BIANCA (VERA NOVELLO) e LUCINHA (PATRÍCIA COSTA) – personagens da trilogia anterior – voltam à cena.

Desta vez, MARILU e BIANCA, colegas de turma, na escola, estão empenhadas em seu trabalho da aula de música, cujo tema é nada mais, nada menos que PIXINGUINHA.

As meninas, muito estudiosas, não se contentam em fazer apenas uma redação ou um cartaz. Então, chamam os amigos para ajudar a encenar uma “peça” sobre o genial músico, compositor, arranjador e maestro brasileiro.

A partir daí, a garotada pesquisa as histórias e os sons do Moleque Pizindin” (apelido que, na língua natal de sua avó, africana, significava “menino bom”).

Vai surgindo, então, aos olhos da plateia, um “espetáculo”, elaborado por “crianças”, sobre PIXINGUINHA, apresentando histórias, músicas e arranjos desse grande artista. O TEATRO dentro do TEATRO. A metalinguagem a serviço do TEATRO.


De acordo com o “release” deste musical infantojuvenil, enviado por ALESSANDRA COSTA (DUETO – ASSESSORIA DE IMPRENSA E COMUNICAÇÃO), o espetáculo proporciona, “(…) um ‘mergulho’ no universo da MPB, dessa vez, tendo, como inspiração, a obra de PIXINGUINHA”, um “iluminado musical”, que, desde tenra idade, se dedicou à música. “Aos 12 anos, tocava cavaquinho; aos 13, passou ao bombardino e à flauta. Mais velho, trocaria a flauta pelo saxofone. Aos 17 anos, gravou suas primeiras instrumentações e, aos 18, suas primeiras composições, nada menos que ‘Rosa’ (‘TU ÉS DIVINA E GRACIOSA / ESTÁTUA MAJESTOSA DO AMOR, / POR DEUS ESCULTURADA / E FORMADA COM ARDOR / DA ALMA DA MAIS LINDA FLOR / DE MAIS ATIVO OLOR, / QUE, NA VIDA, É PREFERIDA PELO BEIJA-FLOR…’) Sofres Porque Queres’ (‘EU SEMPRE FUI CARINHOSA CONTIGO / E TE PROVEI QUE ERA TEU MEU AMOR. / SEM QUE HOUVESSE UM MOTIVO, / FOSTE EMBORA E, AGORA, SEI QUE / ANDAS DIZENDO QUE ÉS MEU INIMIGO. / NEM PROCURAS SABER COMO EU FICO, / MAS NÃO FAZ MAL / AINDA ÉS, PRA MIM, O MEU IDEAL.’)”.

Se vivo fosse, teria completado 121 anos de idade, no ano em curso (2018). Por muito tempo, acreditou-se que ele teria nascido no dia 23 de abril de 1897, a ponto de esse dia (23 de abril) passar a ser conhecido, a partir do ano 2000, como o “Dia do Choro”, em homenagem ao “chorão”. Mais recentemente, o pesquisador e músico Alexandre Dias, em profundo trabalho de pesquisa, sobre a obra de PIXINGUINHA, descobriu, no cartório em que o menino fora batizado, que sua verdadeira data de nascimento é 4 de maio daquele mesmo ano de 1897. Faleceu no dia 17 de fevereiro de 1973, aos 75 anos de idade, bastante debilitado, enquanto participava, como padrinho, do batizado do filho de um amigo, na Igreja de Nossa Senhora da Paz, em IpanemaRio de Janeiro. Era um sábado, à tarde, duas semanas antes do carnaval daquele ano, chovia muito e a famosa Banda de Ipanema fazia seu tradicional primeiro desfile do ano. Ao passar diante daquela Igreja, em sinal de respeito e em homenagem ao grande gênio musical, o cordão carnavalesco, liderado pelo jornalista Albino Pinheiro, que soubera da notícia, mas não a divulgara, até então, fez uma parada, um minuto de silêncio e, em seguida, tocou o maior sucesso do consagrado homenageado e, certamente, uma das canções mais lindas e emblemáticas da MPB“Carinhoso”, tendo sido acompanhada por uma multidão, a qual entoava, emocionada, a canção, então em ritmo de marcha-rancho, com letra, feita, posteriormente à composição da melodia, por João de Barro, o Braguinha. Não se sabe a data exata de sua composição, porém, certamente, ela se deu entre 1916 e 1917. Na época, sofreu críticas, pois muitos achavam que a canção teria uma inaceitável e indesejada influência do “jazz”, o que aconteceria, mais tarde, também, com o movimento da bossa-nova, Hoje, “Carinhoso” é considerada uma composição de vanguarda, para aquela época.

Em seus últimos anos de vida, morou no bairro de Ramos, subúrbio carioca, que ele adorava, e passava grande parte do dia sentado no “Bar da Portuguesa”, muitas vezes, na companhia de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos) e João da Baiana (João Machado Guedes), outros grandes expoentes da MPB, ambos falecidos em 1974. Ao lado desse bar, morava uma amiga minha, de colégio, Cristina, de saudosa memória, que me avisava quando os três estavam reunidos e, por diversas vezes, fui até lá, para testemunhar tal efeméride e, apesar de muito jovem, em torno dos 20 anos, algumas vezes, o trio me convidava a participar da conversa. Música, só muito raramente, mas essa recordação ficou, para sempre, na minha mente e no meu coração. Em 2016PIXINGUINHA ganhou uma estátua nesse Bar, na forma como ele passou os últimos anos de sua vida, feliz e de pijamas, numa das mesas daquele estabelecimento comercial.

O espetáculo em tela é um dos melhores, no gênero, surgidos neste ano, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma produção muito bem cuidada, atenta às exigências do público-alvo.

texto apresenta uma dramaturgia que não foge muito ao convencional, nesse tipo de espetáculobiográfico, conseguindo, entretanto, ser didático, sem ser maçante, sem muita preocupação com a cronologia da vida do biografado, sustentando-se, predominantemente, nos seus feitos mais importantes, naquilo que marcou a sua vida, como ser humano e artista. Gosto, quando a arquitetura textual não apresenta grandes novidades, porém consegue despertar o interesse do público e prender sua atenção para o que vem depois do depois, do depois, do depois… Longe de achar falhas imperdoáveis na dramaturgia, prefiro vê-la com algo, intencionalmente escrito, para informar e entreter, objetivos amplamente alcançados.

SERGIO MÓDENA assina uma boa direção, valendo-se de alguns aspectos, sem os quais a montagem poderia, talvez, não agradar tanto, a começar pela divisão do espaço cênico em duas partes, por meio de um telão transparente, que deixa à mostra os músicos e que serve para dividir as cenas entre o trabalho de pesquisa dos meninos e as suas ações mais concretas. Acerta o diretor, ao fazer seus atores, adultos, representarem crianças, sem os infantilizar a ponto de idiotizá-los. Não se vê, em cena, o que muito encontramos por aí, ou seja, adultos representando, de forma caricata, crianças. O tom de interpretação proposto pelo diretor, e seguido pelo excelente elenco, é feito com muita naturalidade e atinge o nível correto do que a peça exige.

Comporta-se com muita competência e num amálgama perfeito o quinteto de atores, afinadíssimos, entrosamento “nota DEZ”, não só porque já estão acostumados a trabalhar juntos, mas também porque, individualmente, cada um é um ótimo profissional. Admirador do talento dos cinco, não consigo estabelecer um critério de valores, capaz de de posicioná-los, de um 1 a 5, por ordem de importância e de excelência de atuação, no palco. Todos defendem, com bastante correção, seus personagens, sendo que, vez por outra, o próprio texto permite que cada um alce um voo mais alto. No frigir dos ovos, os mesmos aplausos para todos, por ordem alfabética: ANA VELLOSO (MARILU)ÉDIO NUNES (JÚNIOR)MILTON FILHO (BETO), PATRÍCIA COSTA (LUCINHA) e VERA NOVELLO (BIANCA).

cenário da peça, criado por MARCELO MARQUES, não apresenta grandes complexidades; ao contrário, é simples, mas consegue ser um atrativo para o público, em função das proporções dos objetos em cena, grandes caixas, em forma de livros (os da pesquisa), de dentro das quais saem objetos de cena. É um cenário simples, porém bonito e bastante funcional. Além desses elementos, há o já citado telão, que se reveste de grande importância no decorrer da trama. MARCELO também assina os figurinos, todos em tons pastéis, seguindo a mesma linha da simplicidade e vestindo os personagens dentro das exigências do texto.

Sempre acertando a mão naquilo em que se mete, conseguindo dar realce e funcionalidade às cenas, merece um destaque o desenho de luz proposto por AURÉLIO DE SIMONI. É muito importante esse elemento técnico, nesta montagem, para evidenciar a presença e atuação dos músicos, atrás do telão, e para ocultá-los, quando o que merece foco é o que se passa na parte anterior do palco, incluindo o proscênio.

Este espetáculo deve muito ao trabalho de direção musical, a cargo de RICARDO RENTE, responsável pelos arranjos musicais, muito próximos à sonoridade da época de Pixinguinha. Atentem para este detalhe: não se trata de cópia; é, sim, fruto de um belo trabalho de pesquisa de RICARDO, o qual, além te fazer parte da banda, tocando o instrumento que imortalizou PIXINGUINHA, o sax, ainda conta com outros excelentes profissionais, tocando, ao vivo, com ele: FELIPE PEDRO SANTOS (cavaquinho)ANDRÉ RENTE (violão)JÉFERSON SILVA (flauta)ANDRÉ VERCELINO (percussão).

Ainda no campo musical, um aplauso especial para as autoras do texto, que souberam selecionar bem as canções do repertório de PIXINGUINHA, fazendo com que elas fossem bem encaixadas na dramaturgia, como deve ser num musical, sem artificialismos e “forçação de barra”, o que significa que nenhuma canção “caiu de paraquedas”, no espetáculo; todas têm relação com as cenas às quais estão atreladas. Fazem parte deste riquíssimo “set list”, as seguintes composições: CASCATINHA (Pixinguinha), JÁ TE DIGO (Pixinguinha e Octávio Vianna “China”), O MUNDO MELHOR DE PIXINGUINHA (Evaldo Gouveia, Jair Amorim e Velha), YAÔ (Pixinguinha e Gastão Viana), BENGUELÊ (Pixinguinha e Gastão Viana), NAQUELE TEMPO (Pixinguinha e Benedito Lacerda), URUBATAN (Pixinguinha e Benedito Lacerda), INGÊNUO (Pixinguinha, Benedito Lacerda e Paulo César Pinheiro), O GATO E O CANÁRIO (Pixinguinha e Benedito Lacerda), UM A ZERO (Pixinguinha e Benedito Lacerda), OS OITO BATUTAS (Pixinguinha e Benedito Lacerda), COCHICHANDO (Pixinguinha, João de Barro e Alberto Ribeiro), LES BATUTAS (Os Batutas) (Pixinguinha e Duque), DESCENDO A SERRA (Pixinguinha e Benedito Lacerda), GAVIÃO CALÇUDO (Pixinguinha e Cícero de Almeida), PATRÃO, PRENDA SEU GADO (Pixinguinha, Donga e João da Baiana), CARINHOSO (arranjo vocal de Tim Rescala) (Pixinguinha e João de Barro), LAMENTO (Lamentos) (Pixinguinha e Vinícius de Moraes), ROSA (Pixinguinha, Octávio de Souza e Cândido das Neves), ATÉ A LUA GOSTOU (Djalma Esteves, Milton de Oliveira e Raul Resende), LINDA MORENA (Lamartine Babo), CHIQUITA BACANA (Alberto Ribeiro e João de Barro), MINHA TERRA TEM PALMEIRAS (Alberto Ribeiro e João de Barro).

Profissionais que também devem ter seus nomes citados, nesta apreciação crítica, já que também deram sua valiosa participação neste vitorioso projetoDÉBORA GARCIA (preparação vocal), ÉDIO NUNES (coreografia), ADERSON LAGO (direção de imagem) e CACAU GONDOMAR (programação visual).

“O CHORO DE PINXIGUINHA” é um espetáculo, originalmente, voltado a um nicho específico de público de TEATRO, o infantojuvenil, que, porém, é muito bem recebido pelos adultos de qualquer idade. É um daqueles espetáculos que costumamos dizer que conseguem agradar do netinho ao vovô. Em suma, um espetáculo para a família, bastante divertido, de muito com gosto, que merece ser visto e bastante divulgado.

Recomendo bastante esta obra.

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO

TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

PUBLICIDADE