“O Cego e o Louco” – A arte de cada um saber a dor e a delícia (ou não) de ser quem se é

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

69 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Para uma curtíssima temporada, de um mês, apenas, que precisa se multiplicar em outras, por sua incrível excelência, está em cartaz, na Sala Multiuso do SESC Copacabana, o espetáculo “O CEGO E O LOUCO”, que já se credencia a ser apontado como um dos melhores, na atual temporada teatral de 2019.

peça, escrita por CLÁUDIA BARRAL, com direção de  GUSTAVO WABNER, trazendo ALEXANDRE LINO e DANIEL DIAS DA SILVA, como protagonistas, e únicos no elenco, apresentou LOTAÇÃO ESGOTADA, com antecedência, nas três primeiras sessões da temporada. E assim deverá ocorrer até o seu final.

“O CEGO E O LOUCO” é daqueles espetáculos que surgem sem grande alarde, na mídia, e que não precisam de muito espaço nela, para lotar um Teatro e fazer muita gente se frustrar, tendo de voltar para casa, sem ter assistido à peça. A divulgação de boca em boca basta para isso.

 

SINOPSE

 

NESTOR (ALEXANDRE LINO) é um pintor, cego, de personalidade muito forte.

Apesar da deficiência, ele é um homem vigoroso e domina o frágil e taciturno irmão LÁZARO (DANIEL DIAS DA SILVA), o caçula.

Entre eles, estabelece-se uma dinâmica eventualmente perversa, em que o cuidado fraterno cede lugar ao rancor desenfreado.

A relação é testada com a possibilidade da chegada de uma vizinha nova, ao prédio, a quem convidam para tomar chá. Esse fato interfere no delicado equilíbrio entre os irmãos, que dividem o mesmo apartamento.

montagem se concentra nessa noite de espera, uma longa espera, quando os traumas do passado vêm à tona, embalados por delírios, sonhos e culpas, caminhando para um final totalmente inesperado, surpreendente e genial.


Um espetáculo se destaca e cai no gosto do público e da crítica especializada, quando consegue concentrar vários motivos, como é o deste caso. Ao lado de um precioso e bem escrito texto, temos uma correta direçãodois esplêndidos atores em cena, uma ambientação, reunindo cenografia e iluminação impecáveis, assim como uma formidável trilha sonora. O que vem além é lucro. Aliás, tudo é lucro e “luxo”, no sentido conotativo do segundo substantivo.

LUNÁTICA COMPANHIA DE TEATRO é a responsável pela apresentação deste espetáculo, o primeiro de dramaturgia nacional, das quatro peças em seu currículo. As anteriores, todas igualmente excelentes, impactantes e provocativas, foram: “O Princípio de Arquimedes” (2017)“Esse Vazio” (2016) e “Matador” (2012). O que há em comum, entre os quatro textos, é “a presença de autores contemporâneos perspicazes no exercício de refletir as questões do mundo onde vivemos”, segundo o “release” da peça, enviado por LU NABUCO (ASSESSORIA DE IMPRENSA).

montagem só foi possível graças a uma parceria entre a TERRITÓRIOS PRODUÇÕES e a CINETEATRO PRODUÇÕES.

E pensar que um magnífico texto, como o desta da peça, apesar de premiado, na época em que surgiu, possa ter sido escrito em 2000 e, só quase duas décadas depois, esteja ao alcance do público!!! Apesar disso, ele é atualíssimo, visto que é atemporal, por tratar de relações humanas, mais propriamente das que existem entre dois irmãos “que moram juntos e dividem, há anos, o mesmo cotidiano solitário”“Tão longe de mim distante”. Tão perto, fisicamente, um do outro, e tão distantes, por dentro, sem contar a solidão, comum aos dois. Mas que dois? É preciso assistir à peça e não piscar um segundo, sempre atento ao que se ouve e se vê, para “não voltar algumas casas e se perder”, nesse “jogo” instigante.

texto é de uma riqueza e de uma originalidade incomensuráveis. O espectador é conduzido por um caminho muito claro e objetivo, por uma “linha-guia”, para compreender o dia a dia de duas pessoas, aparentemente amigas e, como qualquer dupla de irmãos, com suas afinidades e momentos de instabilidade emocional. Os dois alternam diálogos mais afetivos com outros ácidos e agressivos, passando a tomar um rumo mais sério a partir do convite, feito por um dos irmãos, a uma nova vizinha, Lúcia, como achava este ser o seu nome, para um chá, logo após o jantar dos dois.

Tudo vai sendo conduzido de forma a despertar, no espectador, muitas possibilidades de um fim para aquela trama, entretanto JAMAIS (Eu disse “JAMAIS”) alguém da plateia poderá imaginar o que irá ver e saber, o que deixa o público perplexo, levado a aplaudir, freneticamente, a encenação, após seu término. E não sem motivo.

Penso ser interessante dizer que tudo o que gera esse estado de ânimo, na plateia, se dá apenas na última cena, em cerca de dois ou três minutos, talvez, e que não pode ser passado, por meio de palavras de terceiros, a quem ainda não assistiu à peça. De minha parte, tal “spoiler” não será revelado, nem nas conversas com amigos mais íntimos. Seria uma deslealdade, pois lhes tiraria o agradabilíssimo prazer da surpresa.

Com relação a esse tipo de coisa, qual seja o de ter de segurar o queixo, para evitar um deslocamento do maxilar, além de conter o choro, eu julgava que o maior “soco na boca do estômago” com o qual já me atingiram havia acontecido na obra-prima “Incêndios”, nos cinco ou seis minutos finais da peça, aproximadamente, quando se dá uma chocante revelação. Em “O CEGO E O LOUCO”, a intensidade do golpe foi maior. DUVIDO de que alguém, que não conheça o texto, evidentemente, possa imaginar um final para a peça como o que irá ver!!!

Além de tudo isso, CLÁUDIA BARRAL, de quem, salvo engano ou fraqueza de memória, eu não conhecia algum texto anteriormente, tem um estilo muito simples, uma maneira bem natural de escrever seus diálogos, ficando tudo ao alcance de qualquer espectador, até, no máximo, na prateleira do meio. E nem precisava colocar nada na última, na mais alta. O que tem de ser alcançado, a qualidade da dramaturgia, fica ao alcance de todos. E ela vai nos envolvendo, com o desenrolar das conversas, e criando expectativas.

Aplaudo a ótima direção, de GUSTAVO WABNER, que tinha, nas mãos, uma pedra preciosíssima, em estado bruto (Será?), com a função de lapidá-la, saindo-se, como em trabalhos anteriores, um ótimo lapidador, além do bom ator que é. Entra, aqui, aquela teoria, tão discutível, e defendida por muitos, de que, para ser um bom diretor, é preciso, antes, ser ator. Isso acontece bastante, mas não parei para fazer estatísticas. Cada um que chegue à sua conclusão! Pode não ser, de todo, verdadeira a máxima, contudo que ajuda, lá isso ajuda. Creio que a grande sensibilidade, que tem de ser inerente a todo ator, é um “up” no trabalho de um bom diretorWABNER soube dosar e equilibrar os momentos de lirismo e de maior tensão do texto, conseguindo manter uma linha coerente de direção, da primeira à última cena.

Para falar do trabalho de ALEXANDRE LINO e DANIEL DIAS DA SILVA, é preciso que eu me policie, para não ser repetitivo nem me alongar nos comentários. Falar, realmente, o que penso do rendimento de cada um, da maneira como ambos se entregaram aos seus personagens, faria, de mim, um ser prolixo e nada do que eu dissesse iria atingir os que me leem, como a experiência de ver, na sua frente, a formidável (Nelson Rodrigues adorava esse adjetivo, e Dona Fernandona também o emprega muito.) atuação dos dois.

LINO e DANI são dois dos melhores atores de sua geração, o que já provaram em tantas produções anteriores a esta. Aqui, os talentos se juntam, numa química perfeita, num equilíbrio de forças, as quais se unem e nunca se opõem. Os dois procuram atingir a maturidade de seus personagens de forma natural e sem apagar o brilho do outro companheiro de cena. Um lança, para que o outro marque o gol. E o jogo termina empatado, com uma goleada.

DANIEL assume, de forma brilhante, a fraqueza de seu LÁZARO, a sua submissão, a sua timidez, a sua falta de coragem, tudo, até certo ponto, questionável, e é, por assim dizer, o detentor da grande surpresa final, a “virada de mesa”.

E o que dizer de LINO, na difícil e desafiadora tarefa de representar um deficiente visual? Para um ator (atriz), é, talvez, uma das mais incríveis experiências. Não é a primeira vez que ele interpreta um deficiente visual; já o fizera, na peça “Asilo Paraíso”, em 2004. Também já havia sido bem introduzido, no universo dos cegos, quando dirigiu, com muito mérito, a peça “Volúpia da Cegueira”, de Daniel Porto, em 2016, misturando atores que enxergavam com outros desprovidos do sentido da visão, sem os identificar, uma vez que todos os personagens eram cegos. Aqui, ele não poupa energia e talento, na composição de seu misterioso, autoritário, debochado e irreverente NESTOR.

A título de curiosidade, e para mexer com a sua, acho pertinente, falar da origem dos nomes dos personagens, com a devida parcimônia. Não sei até que ponto foram escolhidos propositalmente, mas HEITOR significa “aquele que guarda” ou “aquele que retém o inimigo”. A raiz da palavra quer dizer “possuo, tenho em meu poder”. Já LÁZARO é “aquele que tem lepra, pústulas, chagas” ou “aquele que Deus socorreu”. Agora, exercitem-se!

Ambas as atuações são, por demais, envolventes, emocionantes, impactantes.        

Para aguçar, mais ainda, a curiosidade dos que me leem e que, com certeza, irão, correndo, garantir seus ingressos para o espetáculo, transcrevo uma declaração de DANIEL DIAS DA SILVA, retirada do já citado “release”“Me chama a atenção como a peça fala de coisas profundas sobre a vida, sobre o desejo de romper as barreiras da rotina. Ao mesmo tempo, traz reviravoltas instigantes, que aprofundam a questão”.

cenografia, de SÉRGIO MARIMBA, está em comunhão com a obra. Cada detalhe, na decoração do apartamento, que também já serviu de atelier, revela traços das personalidades dos protagonistas, ao mesmo tempo que o todo transmite um quase caos externo, refletindo o interior de HEITOR e LÁZAROExcelente trabalho!

Também contam ponto, para o sucesso desta montagem, a ótima iluminação (MANTOVANILUZ), a fantástica e adequada direção musical (TIBOR FITTEL) – prestem atenção à última canção, “La Llorona”, interpretada pela magnífica (ADORO!!!) banda Beirut, cuja letra tem a ver com a revelação final -, assim como o bom trabalho de direção de movimento, assinado por SUELI GUERRA, responsável por uma das cenas mais lindas da peça (NÃO VOU REVELAR!!!) e os ajustados figurinos, de VICTOR GUEDES.

“O CEGO E O LOUCO” é o prenúncio de um bom ano teatral, sem dúvida, motivo pelo qual recomendo, com o maior empenho, o espetáculo, o qual espero rever em outro Teatro, numa segunda temporada.

Que os DEUSES DO TEATRO digam “AMÉM!”!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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