‘O Boca do Inferno’ – Das boas surpresas que o teatro nos proporciona

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Em outubro de 2017, assisti a um ótimo espetáculo, que, por sua excelência, voltou ao cartaz, neste início da temporada teatral de 2018, como alguns outros. Refiro-me a “O BOCA DO INFERNO”, que vem ocupando o Teatro Café Pequeno, desde o último dia 5, de 6ª feira a domingo, sempre às 20h.

Foi uma grande e agradável surpresa.

Mas por que “grande e agradável surpresa”? Porque eu já sabia que se tratava de uma modestíssima produção, em termos materiais, e, infelizmente – com raras exceções – esse tipo de espetáculo, apesar de todo o empenho de quem está envolvido no projeto, costuma ser de qualidade duvidosa. Este “…BOCA…” é uma das raras exceções, uma vez que, conquanto seja bem simples e tenha nascido de um “parto” dificílimo, sem patrocínio, contando, apenas, com alguns apoios, a peça consegue agradar a todos os que assistem a ela. Pelo menos, a mim e ao público que lotou o pequeno Teatro do Parque das Ruínas, na sessão da qual tive o prazer de participar, e, pelo que tenho escutado, vem agradando a outras plateias também. A maior prova disso é que voltou ao cartaz. Não ouvi, até o presente momento, nenhum comentário desabonador. E olha que aquela já era uma segunda temporada, que se estende, agora, numa terceira.

Alguns são os motivos que garantem o fato de a peça agradar tanto.

Comecemos pelo texto, atualíssimo, embora escrito no período do Brasil Colônia, uma vez que aquilo escrito pelo grande poeta brasileiro GREGÓRIO DE MATOS, combatendo os desmandos e o que poderia ser considerado “corrupção”, à época, é, exatamente, o que estamos vivendo, atualmente, neste país em que a impunidade impera, a censura grassa, a corrupção caminha em proporções geométricas e o povo se sente impotente, para lutar contra tantas coisas negativas e tantos bandidos, esfarrapados ou em bem talhados ternos.

Outro motivo seria o excelente trabalho de dramaturgia, de ADAÍLTON MEDEIROS, que, em sua pesquisa sobre a obra de GREGÓRIO, conseguiu pinçar o que havia de melhor da sua obra, para costurar tudo, de forma a mostrar que, da Colônia à (Nova?) República, nada mudou.

Mais motivos há, como a direção e a atuação do trio de atores, que merecerão um comentário mais detalhado, adiante.

Profundamente corajoso, combativo e revolucionário, contra tudo o que julgava torto, GREGÓRIO já trazia a “GUERRA” no próprio nome e dela não pensava em se afastar, até ver a justiça feita, em prol do povo, que já era “cordeirinho”, naquela época, ou – alguns – coniventes com o que estava errado.

SINOPSE

“O BOCA DO INFERNO” é um espetáculo baseado na vida do poeta GREGÓRIO DE MATOS (GUERRA) e se passa no período Barroco do Brasil Colônia.

A peça trata da chegada do poeta à Bahia – aos 47 anos33 deles vividos em Portugal, onde foi educado -, até sua deportação para Angola, mostrando o conflito de um homem em decadência, como fidalgo, e em ascensão, como poeta, desafiando a tudo e a todos, com sua língua ferina e suas sátiras poéticas certeiras, o que lhe valeu o apelido de “BOCA DO INFERNO”.

Na ficção, além de GREGÓRIO (LICURGO), fazem-se presentes mais dois personagens: o amigo CHICO (GILSON DE BARROS) e a prostituta ANA (ANDRÉA MATTAR).


Extraído do “release” da peça, enviado pela assessoria de imprensa“Sua (de GREGÓRIO) personalidade instável e suas contradições são uma constante na narrativa, oscilando entre o sagrado e o profano, o sublime e o grotesco, o amor e o pecado. Conspiração, corrupção, orgulho, vaidade, cobiça e poder amarram os personagens de ‘O BOCA DO INFERNO’ numa trama que culminará numa traição. Quem traiu e quem foi traído? Está aí o mistério que só o público poderá desvendar”.

Com sua língua sempre muito bem afiada, como uma faca, para os cortes mais profundos, os principais alvos de suas criticas e ataques explícitos, sempre exacerbadamente satíricos, eram os políticos da época e a Igreja, como instituição. Aí reside, certamente, um dos grandes porquês do sucesso da peça. A plateia se sente representada e, até certo ponto, vingada, pelo “Poeta Maldito”, quando diz, de peito nu, o que todos gostaríamos de falar sobre os atuais políticos, em todas as esferas e de todos os partidos, sem medo de repressão, e contra não só a Igreja Católica, mas, principalmente, os evangélicos fundamentalistas. Aqui, faço questão de abrir parênteses, para deixar bem claro que não me refiro aos verdadeiros cristãos, nesta ou naquela religião.

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA (Salvador, 1636 – Recife, 1696), mais conhecido como “Boca do Inferno” ou “Boca de Brasa”, foi advogado e poeta do Brasil Colônia. Sem dúvida, o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial, mas também produziu belos poemas de fundo lírico e religioso.

O poeta nasceu numa família abastada, de empreiteiros de obras e funcionários administrativos (Será que as críticas já começariam dentro da própria família? Olha o momento atual aí! Piada pronta? Quem sabe?). Assim como todos os brasileiros de sua época, ainda que nascido na Bahia, sua nacionalidade era portuguesa, pois o Brasil só se tornaria independente no século XIXTodos os cidadãos nascidos antes da independência eram luso-brasileiros.

Com 14 anos, foi para Portugal, país que lhe deu sua educação, tendo ingressado na Universidade de Coimbra, onde estudou Direito.

Em 1663, foi nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal.

Em 27 de janeiro de 1668, representou a Bahia nas Cortes de Lisboa.

Em 1672, o Senado da Câmara da Bahia outorgou-lhe o cargo de procurador.

20 de janeiro de 1674 foi, novamente, representante da Bahia nas cortes. Foi, contudo, destituído do cargo de procurador. 

Voltou de Portugal, em 1679 (ou 1681 – há controvérsias), nomeado pelo arcebispo Gaspar Barata de MendonçaDesembargador da Relação Eclesiástica da Bahia, embora não fosse padre e levasse uma vida boêmia, quase mundana.

Em 1682D. Pedro IIRei de Portugal, nomeou-o como Tesoureiro-Mor da Sé, um ano depois de ter exercido outras importantes funções administrativas. Talvez, ou quase com certeza, tivessem sido tentativas de fazê-lo calar, suavizar seus versos críticos, já que, ainda em Portugal, já ganhara a reputação de poeta satírico e improvisador. Sua língua ferina, virulenta, era uma metralhadora, atirando em todas as direções. Criou, por isso, terríveis inimigos, embora contasse com a proteção, a princípio, do Padre Vieira, de reputação ilibada.

Foi destituído dos cargos pelo novo arcebispo, Frei João da Madre de Deus, por sua rebeldia: recusava-se a usar batina e, também, não aceitava a imposição das ordens maiores, de forma a estar apto para as funções a que tinha sido incumbido.

Começou, então, a satirizar os costumes do povo de todas as classes sociais baianas, as quais passou a chamar de “canalha infernal”, ou aos nobres, aos quais apelidara de “caramurus”. Sua poesia se tornou, predominantemente, mais corrosiva e erótica, quase, ou mesmo, pornográfica.

Em 1685, o promotor eclesiástico da Bahia denunciou os seus costumes livres ao Tribunal da Inquisição. Ele foi acusado, por exemplo, de “difamar Jesus Cristo e de não mostrar reverência, tirando o barrete da cabeça, ao passar por uma procissão”. Era mesmo “da pá virada”, o rapaz, como se dizia antigamente. A acusação não teve seguimento, entretanto, as inimizades cresceram, em relação direta com os poemas que escrevia.

Em 1694, por suas críticas às autoridades da Bahia, com acusações vindas de vários lados, dos políticos e dos religiosos, e correndo o risco de ser assassinado, acabou sendo deportado para Angola, de onde voltou em 1695, como recompensa por ter ajudado o governo local a combater uma conspiração militar, com a condição de não ir para a Bahia. Foi, então, viver em RecifePernambuco, onde continua sua vida, embora proibido de fazer versos, tal era o temor de suas sátiras ferinas. Faleceu arrependido e reconciliado com a igreja. Na hora da morte, causada por uma febre, contraída na África, compôs um pequeno soneto, do qual extraí três significativos versos:

 

“Essa razão me obriga a confiar, 

Que por mais que pequei, neste conflito, 

Espero em vosso amor de me salvar.”

 

Foi considerado o primeiro “poeta maldito” brasileiro e há quem diga que “as primeiras representações da homossexualidade, na literatura brasileira, das quais se tem conhecimento estão em alguns poemas satíricos de GREGÓRIO DE MATOS”.

Apesar de ter deixado uma vasta obra, não teve nenhum livro publicado em vida. São todas publicações “post mortem”.

Numa montagem modesta, em geral, os elementos técnicos são bem franciscanos, como acontece com este “…BOCA…”, entretanto são “detalhes” que não fazem muita falta, para que o público veja um ótimo espetáculo.

Os figurinos não são originais, porém atendem, perfeitamente, à proposta do projeto. Vieram do acervo da competentíssima figurinista CAROL LOBATO, garimpados por JANAÍNA WENDLING.

cenário e a iluminação ficaram sob a responsabilidade de PAULO DENIZOT. O cenário se resume a apenas uma mesa de bar, de ferro, dobrável, e meia dúzia de cadeias pretas, de um tipo de plástico, que mudam de posição, constantemente, dando um bom resultado, em termos de dinâmica. Ao fundo, uma tela, para as projeções, no centro, e dois ou três pequenos painéis, com esculturas de corpos humanos nus, masculinos e femininos, em alto-relevo. De longe, pareceram-me confeccionadas em fibra de vidro. Tudo puxado para o bege.

luz é bem variada, acompanhando o deslocamento dos atores em cena, já que ocupam, por vezes, parte da plateia. Por oportuno, é bom esse deslocamento e tudo o que fazem em cena, em termos cinéticos, graças ao trabalho de direção de movimento. Leia-se: VIRGÍNIA MARIA.

Igualmente interessante é o visagismo, assinado por DIEGO NARDES.

direção do espetáculo é de LICURGO, que também atua. Num trabalho, certamente, muito estreito, com o autor da peça, a direção chegou a soluções bem simples, porém interessantes, e achei muito boa e oportuna a utilização de vídeos que mostram manifestações contra os atuais governantes. Uma delas tem como fundo musical uma canção de Caetano Veloso (melodia), cantada por este, da qual muito gosto, cuja letra é do “BOCA DO INFERNO”. Trata-se de “Triste Bahia”, que Caetano interpreta como um lamento, tirando sons pungentes de sua garganta, tendo muito a ver com a letra e, no caso, com o momento político atual. Como a gravação é muito extensa, foi editada e apenas um trecho é executado. Uma pena!!!

 

TRISTE BAHIA

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado
Rico te vejo eu, já tu a mim abundante

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante

A ti tocou-te a máquina mercante
Quem tua larga barra tem entrado
A mim vem me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante

Triste, oh, quão dessemelhante, triste
(…)

direção também foi muito feliz na montagem da última cena, na qual gestos e silêncios dos atores/personagens falam e expressam mais que muitas palavras, principalmente quando a cena tem, ao fundo, a fantástica canção (na íntegra) “Mortal Loucura”, poema de GREGÓRIO, musicado por Zé Miguel Wisnik:

MORTAL LOUCURA

Na oração, que desaterra… a terra

Quer Deus que a quem está o cuidado… dado

Pregue que a vida é emprestado… estado

Mistérios mil que desenterra… enterra

Quem não cuida de si, que é terra… erra

Que o alto Rei, por afamado… amado

É quem lhe assiste ao desvelado… lado

Da morte ao ar não desaferra… aferra

Quem do mundo a mortal loucura… cura

A vontade de Deus sagrada… agrada

Firmar-lhe a vida em atadura… dura

Ó voz zelosa, que dobrada… brada

Já sei que a flor da formosura… usura

Será no fim dessa jornada… nada

 

Convém acrescentar que as duas canções, além de belíssimas, receberam, em ambas as gravações, arranjos impecáveis. Infelizmente, ficarei devendo os nomes de seus autores. Recomendo que as ouçam (YOUTUBE).

Finalmente, os comentários sobre o elenco.

Não precisarei de muitas palavras para enaltecer o trabalho do trio, cada um totalmente vestido de seu personagem.

Os destaques vão para LICURGO e GILSON DE BARROS, pela importância maior de seus personagens na peça.

Aquele encarna um GREGÓRIO totalmente diferente do que eu imaginava, ainda que suas características físicas se assemelhem. Do ponto de vista da personalidade amoral – pode-se até dizer – do protagonista, o ator desenvolve um trabalho que não deixa dúvidas quanto ao caráter e comportamento do personagem fora da ficção. Muito seguro e convincente no papel.

Já este é responsável por uma composição de personagem magnífica. Comovente é sua atuação! GILSON jogou-se, por inteiro, no personagem e é responsável por alguns dos grandes momentos desta montagem.

Mais como personagem coadjuvante (insisto sempre em dizer que “coadjuvante” é o/a personagem, e não o/a ator/atriz), ANDRÉA MATTAR, na pele de ANA, dá um excelente suporte aos dois atores, com uma boa interpretação e uma bela presença em cena. Um perfeito contraponto com os dois.

Surpresas só têm valor se forem boas. Que eu tenha, sempre que for ao TEATRO, sem uma expectativa tão grande, excelentes surpresas como a que representou, para mim, o espetáculo “O BOCA DO INFERNO”, o qual recomendo bastante, como divertimento e pontapé inicial para algumas necessárias reflexões acerca do porquê de estarmos passando pelo triste momento político, de trevas, em está mergulhado o Brasil. Talvez possamos reverter o quadro, se nos tornarmos, também, um pouco “BOCA DO INFERNO”.

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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