‘Num Lago Dourado’ – Da terceira idade, para todas as idades, um magnífico espetáculo

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Fazia tempo, um espetáculo estreado em São Paulo não era tão esperado, no Rio de Janeiro, como “NUM LAGO DOURADO”, em cartaz no Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea.

Há peças que nem precisam de tanto “marketing”, quando se transferem de uma cidade para outra. É o caso aqui. A montagem fez tanto sucesso em São Paulo, onde cumpriu uma longa temporada – coisa raríssima, nos dias de hoje – e traz, no elenco, dois grandes nomes de peso, como protagonistas, ARY FONTOURA, indicado ao Prêmio Shell, de melhor ator, e ANA LÚCIA TORRE, que dispensaria propaganda, uma vez que a melhor de todas, que é a “DE BOCA EM BOCA”, (a forma “boca a boca”, nesta acepção, está incorreta) já seria suficiente para lotar o Teatro, em todas as sessões, como vem ocorrendo, desde a sua estreia em território carioca.

Ao contrário do que se pode pensar, o espetáculo não é uma versão, para o TEATRO, de um filme que alcançou grande sucesso, na época de seu lançamento (1981) e, até hoje, é bastante comentado; o filme é que foi uma adaptação, para as telas, com roteiro feito por ERNEST THOMPSON, também autor da peça. O caso é que o texto teatral chegou até nós depois, numa montagem que contou com Paulo Gracindo e Nathália Thimberg, como protagonistas; o filme veio antes.

No Brasil, na atual montagem, o texto ganhou tradução de ELOÍSA CANTON e versão de CÉLIA REGINA FORTE, com direção de ELIAS ANDREATO.

A sinopse “reduzida”, o que constitui um pleonasmo, vai aqui transcrita, enviada pela assessoria de imprensa (BARATA COMUNICAÇÃO):

                                                                                   SINOPSE

Um casal de terceira idade vai para sua casa de campo, em férias, e recebe a visita inesperada da filha, com quem o pai tem uma relação cheia de conflitos.

A filha e o namorado pretendem viajar pela Europa e deixar o enteado, adolescente, sob os cuidados dos pais.

Mais “reduzida” do que isso só se, sobre “Romeu e Julieta”, por exemplo, se dissesse que é a “história de um casal jovem, que se ama, o que não é aceito pelas famílias”. Ou, sobre “Édipo Rei”, que é a “história de um filho que mata o pai e se casa com a mãe”.

Pilhérias à parte, ampliando a sinopse, com texto, também, extraído do já citado “release”, “…‘NUM LAGO DOURADO’ conta a história de NORMAN THAYER (ARY FONTOURA), um professor aposentado, que, prestes a completar 80 anos, vai, com sua esposa, ETHEL THAYER (ANA LUCIA TORRE), passar as férias em sua casa de verão, às margens do paradisíaco ‘Lago Dourado’, o que faziam havia 48 anos (aquele é o ‘verão de número 48’), e onde a única visita que recebem é a do carteiro CHARLIE (FABIANO AUGUSTO).

Depois de alguns dias, chega CHELSEA (TATIANA DE MARCA), a filha do casal, que sempre manteve uma relação muito tensa com o pai, em companhia de seu futuro marido BILL RAY (ANDRÉ GAROLLI) e de seu enteado BILLY RAY JR (LUCAS ABDO).

Inicialmente, NORMAN se incomoda com a presença do jovem, mas, em pouco tempo, o garoto se torna o filho que ele nunca teve.

Não se percebem comentários negativos de ninguém que sai do Teatro dos Quatro, acerca da peça; muito pelo contrário, só elogios. E não poderia ser de outra forma, uma vez que o texto é primoroso e a montagem, em si, é impecável, em todos os aspectos.

A peça faz muito sucesso, porque aborda um tema considerado meio tabu, que é o amor na terceira idade, além de, principalmente, “ressaltar a importância dos valores familiares e do encontro real. A redescoberta do amor entre pai e filha, a busca incessante pelo diálogo e pelo entendimento, o saber ouvir e ser ouvido. No meio desse turbilhão de sentimentos e emoções, um garoto ensina a todos o valor de uma grande amizade. E como o amor não tem idade…”.

Como não havia assistido ao filme, mas, pelos comentários ouvidos sobre ele, confesso que esperava ver algo puxado para o melodramático e que sairia do espetáculo “para baixo”, à procura de algo que me distraísse. Estava eu redondamente enganado, já que a peça comove, sim, é claro, pela temática, contudo também nos faz rir muito; aquele riso que é um sinal, uma chamada para uma boa reflexão. No fundo, estamos diante de uma linda história de amor, que também é didática, para os que se permitem tocar pelas verdades ditas no texto.

A primeira coisa que impacta o espectador, tão logo adentra a sala de espetáculo, é o belo e fidelíssimo cenário, de MARCO LIMA. Um primor de obra de arte. O cenógrafo recriou a sala de uma casa de campo, à margem de um plácido lago americano. Até aí, nenhuma novidade. O que ressalta, nesse trabalho, são os objetos de cena e os mínimos detalhes expostos, o que, certamente, é fruto de um profundo trabalho de pesquisa do artista, para atingir o universo do “american way of life”. Um dos mais belos cenários que já vi, ajudando a criar, perfeitamente, o ambiente propício ao desenvolvimento da trama.

No início da peça, alguns móveis e peças de decoração estão cobertos por lençóis, o que se entenderá com o decorrer do espetáculo. O fundo do cenário apresenta um janelão aberto, que deixa à mostra uma linda pintura, retratando toda a beleza do lago.

Não tenho como avaliar a tradução e a versão do texto, sob o aspecto da fidelidade ao original, uma vez que não conheço este, mas tenho plena certeza de que HELOÍSA e CÉLIA marcaram dois gols de placa, porque a história flui, durante noventa minutos, sem permitir um cochilo do espectador. É daqueles textos que, tal um ímã, atraem o espectador ao palco, da primeira à última cena, em função da excelente carpintaria textual dramática, das palavras certas, medidas, colocadas na boca de cada personagem, em todas as cenas. Não há desperdício de nada. Não há o que enxugar nesses excelente texto.

ELIAS ANDREATO executou um belo trabalho de direção, percebendo, e valorizando, todas as nuances das entrelinhas, sugeridas pelo autor. É claro que levou vantagem, considerando o excelente elenco de que dispunha.

Ainda que a trama esteja centralizada numa família classe média alta americana, podemos dizer que o tema é universal, uma vez que a peça trata de conflitos entre pais e filhos, o que ocorre em qualquer localização geográfica e entre famílias de diferentes classes sociais, credos ou qualquer outro diferencial. ANDREATO manteve o clima original da peça, mas permite que todos os espectadores possam se identificar com o que veem representado em cena. Por mais tenso e sério que seja o tema, o diretor abre válvulas para o escape dessa tensão, com excelentes momentos de bom humor, sarcástico, na maioria das vezes.

Há um quase nivelamento total, no elenco, com, evidentemente, um destaque para ARY FONTOURA e ANA LUCIA TORRE. O “quase” fica por conta da atuação de TATIANA DE MARCA, que, a meu juízo, alterna bons momentos com outros não muito felizes, em que deixa escapar a oportunidade de defender melhor sua personagem. Na cena em que protagoniza uma “DR” com o pai, trazendo, lá da infância, suas memórias, que a tornaram uma criatura meio frustrada, a atriz está excelente, porém, em outras cenas, não se permite valorizar o texto e, consequentemente, a sua CHELSEA. No somatório, não é ruim o seu trabalho.

ARY FONTOURA, do alto dos seus 84 anos e uma vida dedicada à arte de representar, está inteiro e intenso, em cena, numa de suas melhores criações. Parece um jovem em precoce auge profissional. Seu personagem exige muito do ator, mas ele não nega fogo.

NORMAN é uma pessoa de muito difícil convivência. Com fixação na morte (sempre acha que ela, a qualquer momento, baterá em sua porta), é um sujeito inconveniente, por conta de ser tão “autêntico” (sinceridade em excesso torna-se falta de educação), ranzinza, rabugento e irônico; este traço é elevado a uma altíssima potência. A impressão que se tem é de que tais características de sua personalidade, que são mais aplicáveis a pessoas idosas, eles já as traz de há muito, se é que não nasceu com elas. Difícil é entender como o seu casamento com ETHEL (ANA LUCIA TORRE) possa ter resistido por 48 anos, parecendo que só terá fim com a morte de um dos dois.

O personagem NORMAN tem uma relação conflituosa com a filha, CHELSEA, e, toda vez em que tem de fazer referência a ela, em diálogos com a mulher, não se refere à filha pelo nome; vive repetindo “a sua filha”. Esta, por sua vez, jamais chama NORMAN de “pai”; sempre o trata pelo nome, enquanto utiliza, normalmente, a palavra “mamãe”, quando se dirige a (ou fala com) ETHEL.

ANA LÚCIA TORRE também deve ser incensada, neste trabalho, ela, que é, sem dúvida, uma das nossas damas do TEATRO. Sou seu fã ardoroso e não perco nenhuma de suas atuações.

ANA construiu uma ETHEL de forma, quero crer, muito verdadeira e cercada de amor. A personagem, ainda que velha, guarda um espírito que não acompanhou o envelhecimento e o desgaste do corpo. Ela é otimista, doce, delicada, paciente, entretanto, quando necessário, também lança as sua farpinhas irônicas.
Afinal, são 48 anos de aprendizado com um grande mestre do sarcasmo. Um inesquecível trabalho de ANA LUCIA!!!

Completam o elenco FABIANO AUGUSTO, o carteiro CHARLIE, que parece um membro da família, de tão íntimo que é do casal. É ele o responsável por manter NORMAN e ETHEL informados do que passa no mundo, durante o tempo que dura aquela estação de veraneio.
Funciona como um elo entre duas realidades. É um sujeito bastante simpático e, ligeiramente, sem-noção, meio abobalhado, passando uma pureza incrível. Sempre foi apaixonado por CHELSEA e jamais perdeu a esperança de desposá-la, até que ela aparece com o seu já quase marido, o dentista BILL RAY, interpretado por ANDRÉ GAROLLI, com quem a personagem se casa, na França, durante uma rápida viagem.

Ambos, FABIANO e ANDRÉ, têm excelentes atuações; mais o primeiro, por conta de seu personagem e por ter uma maior participação em cena.

Por último, restou o comentário sobre BILLY RAY JR (LUCAS ABDO), o enteado de CHELSEA, um adolescente, de 15 anos, que chega à casa do Lago, para “causar”.

Trata-se de um jovem como qualquer um de sua idade, com gostos e interesses totalmente opostos aos de NORMAN, o qual, a princípio, não gosta nem um pouco da ideia de ficarem, ele e ETHEL, com a responsabilidade de cuidar do jovem, enquanto o casal CHELSEA e BILL passeiam pela Europa.

De início, como não poderia deixar de se esperar, verificam-se pequenos atritos, entre NORMAN e BILLY, com diálogos, às vezes, perto da fronteira entre o compreensível e o “nonsense”, muito por conta do vocabulário limitado e das gírias do adolescente, além de sua falta de cultura geral, em virtude de sua pouca idade e aversão à leitura.

Aos poucos, vai sendo estabelecida uma enorme empatia entre os dois e a relação final, entre eles, é comovente.

Para não cometer nenhum “spoiller”, vou parando por aqui, acrescentando que muito me agradou a atuação do jovem ator LUCAS ABDO.

Não poderia terminar esta análise, sem falar dos lindos e elegantes figurinos, de muito bom gosto, desenhados por FAUSE HATEN, nem da belíssima luz, que leva a assinatura de WAGNER FREIRE, que marca, com precisão, as variações de tempo, por exemplo, assim como a pertinente trilha sonora original, de MIGUEL BRIAMONTE. Todos esses elementos também são de suma importância nesta montagem.

O encerramento da temporada está previsto para o término do ano teatral de 2017, porém não duvido nada de que a peça possa continuar em cartaz, em 2018, por sua excelente qualidade e aceitação, pelo público e pela crítica especializada.

Oxalá eu seja ouvido pelos DEUSES DO TEATRO!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS OS TEATROS!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.