Nota única e dependente da História desgasta impacto de ‘Meus 200 filhos’

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Planetário da Gávea e no Centro Cultural Midrash, no Leblon, “Meus 200 filhos”, de Miriam Halfim e direção de Ary Coslov, narra a trajetória verídica de Janusz Korczak, educador judeu polonês que acompanhou as crianças de seu orfanato no Gueto de Varsóvia para o campo de extermínio de Treblinka, durante a Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, esta descrição inicial e a emoção que a peça suscita por conta de seu tema resumem o quadro geral da encenação: mesmo com suas qualidades, a montagem não consegue ir além da comoção gerada pelo fato da história ser real.

Se esquecermos o aspecto histórico, a narrativa também não se desenvolve para além do quadro inicial que apresenta: a estrada percorrida é a de uma desgraça progressiva. A exceção, e ponto alto do espetáculo, é o começo voltado para a convivência dentro do orfanato, os julgamentos realizados por e entre crianças, a ideia de igualdade, enfim, o viés educador de Korczak. Uma vez que este lado, original, pouco conhecido da maior parte do público e de extrema importância para a história da pedagogia, sai de cena, ele não volta mais, e daí em diante o que vemos é o horror do nazismo, tema relativamente comum e de comoção popular independentemente da peça ou de Janusz Korczak.

O cenário de Ary Coslov é composto por uma mesa e uma cadeira, que são realocadas de modo a formarem as mais variadas imagens, sugerindo diversos ambientes e situações. É muito bom! Uma aula de como ressignificar objetos cotidianos. Existem projeções também, em sua maioria com imagens dos ambientes reais, o que traz uma contextualização histórica interessante, sobretudo do ponto de vista do que parece ser a proposta da montagem.

A iluminação de Paulo César Medeiros é o elemento que consegue colorir a narrativa marcada por uma nota forte. São diversos focos e estilos de enquadramento, que remetem a ambientes mais claustrofóbicos, mais amplos, mais frios, mais casuais, enfim.

A atuação/condução de Marcelo Aquino segue a digital proposta pela encenação de um modo geral: é visceral, dramática, hipersensível.

É louvável conseguir traduzir cenicamente um conjunto de emoções associadas a uma experiência real. De modo que não é pouca coisa o que a peça faz. O ponto para mim é que toda a encenação trabalha na direção de sublinhar o que já sabemos. Sem nuances e com um objeto recorrente, a peça cansa.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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