‘No Pirex’ é um deleite de originalidade e exploração de linguagens

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no CCBB, “No Pirex” é uma peça diferente de tudo o que você vai ver. E por “diferente”, entenda “diferentona” mesmo, original, excêntrica. Ao mesmo tempo, lembra uma série de referências; a principal, para mim, foi “A Família Addams”, pelo caráter mórbido da comicidade que propõe.

O enredo é relativamente simples: dois personagens são servidos por dois garçons e uma cozinheira. Não fica claro quem são, o lugar onde estão ou a natureza de sua relação, apenas os papéis que desempenham naquele contexto específico, estabelecido ao redor de uma mesa onde três são empregados, e dois são patrões/clientes.

A cargo da companhia mineira Armatrux em parceria com o diretor Eid Ribeiro, “No Pirex” não faz uso de palavras: compõe-se inteiramente de pantomima e de uma comicidade que se vale de expedientes mais tradicionais (como o exagero, a paródia e a insinuação sexual), mas também do estranhamento (um homem que come louças e corta a boca repetidamente, saindo de cena sangrando) e de elementos circenses ligeiramente torcidos.

Como podemos ver, nada é absolutamente novo, mas a questão é como o espetáculo manipula cada uma das linguagens da qual faz uso. Por exemplo: os garçons entram em cena equilibrando um sem número de louças, entre xícaras, pires, bules e pratos (algo completamente estranho, uma vez que há apenas dois clientes na mesa). Em uma coreografia circense que joga com a possibilidade da falha (um daqueles objetos cair, quebrar, ou machucar um dos atores), os garçons desequilibram-se de um lado a outro do palco, empilham mais louças, arremessam xícaras a serem recebidas pelo outro. Em determinado momento, uma quebra, outra é arremessada ao chão por um dos personagens, outras caem do teto do teatro, espatifando-se no chão do palco.

Em suma, “No Pirex” transforma o que poderia ser uma narrativa clássica de relação patrão/empregado em uma pantomima riquíssima, que não apenas congrega diferentes linguagens como explora suas lacunas e faz com que apontem na mesma direção. Um presente do teatro mineiro e da companhia Armatrux (com 27 anos de pesquisa) para o circuito carioca!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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