No Mês da Consciência Negra, artistas reclamam mais destaque para os negros no teatro: ‘Somos a maioria’

Luiz Maurício Monteiro

Sentido horário: “Dona Ivone”, “Kondima”, “Mercedes”, “Contos”, “Grande Circo” e “Lima Barreto” Fotos: Divulgação

Lugar de voz, discussão, reflexão e empoderamento, o teatro não poderia deixar de dar a sua contribuição no Mês da Consciência Negra. Ao longo de novembro – quando, desde 2003, é celebrado no dia 20 o dia da consciência propriamente dito – estarão em cartaz no Rio de Janeiro cerca de seis espetáculos que colocam o negro em posição de destaque. Um número razoável, mas que ainda está longe de representar uma proporção nivelada.

Cumprem temporada neste mês montagens que exaltam o negro de diferentes formas: resgatando as trajetórias de figuras ilustres como, “Mercedes”“Dona Ivone Lara, um Sorriso Negro – O Musical” e “Traga-me a Cabeça de Lima Barreto”; contando histórias de quem sofre na pele um histórico de vulnerabilidade social no Brasil e no Mundo – e a pele é a grande razão para isso – como “Kondima” e “Contos Negreiros do Brasil”; falando de representatividade como “O Grande Circo dos Sonhos”.

Em todos estes casos, o artista negro assume o papel principal, realidade esta que muda consideravelmente quando a temática não é negra. Num papo com o RIO ENCENA, Sol Miranda, protagonista e idealizadora de “Mercedes”, e Rodrigo França, diretor de produção de “O Grande Circo” e ator de “Contos Negreiros”, recorreram às estatísticas para falar em desigualdade nos palcos.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) divulgada em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira em 2016 chegava a 205,5 milhões de habitantes. Deste total, pardos e negros somados chegavam a 54,9%, enquanto que os brancos ficavam com 44,1%. Para Sol, tal proporção não se reflete nas artes cênicas, assim como nos demais setores sociais do país.

Sol e Rodrigo citam números para falar em desigualdade Fotos: Diogo Nunes e Reprodução/Facebook

— Ainda há um longo caminho para chegarmos ao que seria ideal, não só no teatro, mas em todos os setores para negros e negras. Somos muitos artistas negros em plena produção. A diferença é que enfrentamos um contexto de forte inviabilização e somos alocados em nichos de diversidade enquanto, na verdade, somos maioria. Deveríamos ter a possibilidade de estarmos em produções diversas. Seguimos trabalhando para contribuir com essa construção. Muitos vieram antes de nós, esse é o nosso momento de continuar a luta e abrir caminho para os que ainda virão – ressalta Sol, ganhando o complemento de Rodrigo: — E não é por falta de talento. O teatro brasileiro segue a estrutura excludente dos demais setores da sociedade. Isso pegando bem leve na reflexão.

E se o presente não reserva o espaço esperado aos negros na cultura, o futuro pouco anima Sol.

— Esse número (de peças em cartaz com protagonismo negro) poderia ser bem maior, mas o contexto não é animador para a cena de modo geral. O Brasil vive um momento de avanço do conservadorismo, de ataque ao livre pensar e principalmente às artes. É também o momento onde a arte ganha ainda mais importância, pois é o espaço do diálogo, da crítica e da expressão de novas possibilidades de se olhar o mundo. Toda arte é política. Todos perdem com o cerceamento da liberdade de expressão. Mas nós, artistas negros, que já produzimos em condições de maior precariedade pelas profundas marcas históricas de desigualdade racial no país, sentiremos ainda mais na carne qualquer tipo de retrocesso.

Entretanto, a decepção e a frustração dão hoje lugar a outros sentimentos para Rodrigo e Sol. Para a dupla, estar em cartaz em pleno Mês da Consciência Negra, mesmo com crise e desigualdade, é uma importante contribuição para deixar esta balança social mais equilibrada.

— Resistência. Basta olhar para quem tem os grandes patrocínios. Mesmo sendo 54% da população brasileira, este quantitativo não se encontra nos palcos brasileiros — destaca Rodrigo.

— Compromisso. Devemos celebrar essa importante conquista do movimento negro de celebrar no mês de novembro a memória de Zumbi dos Palmares e cada vez mais de Dandara dos Palmares também. É um mês de muito trabalho e maior visibilidade das questões da população negra principalmente nas escolas, nas artes e na cultura de forma geral. O Grupo Emú desenvolve ações para que artistas negros da cena e dos bastidores possam trabalhar ao longo de todo o ano. Precisamos exaltar a contribuição fundamental da população negra para o desenvolvimento das artes e da cultura brasileira 365 dias por ano.

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