‘No Escuro’: direção, cenografia e figurino vão além do texto na homenagem ao teatro

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

32 anos, é doutor em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Clara Nunes, “No Escuro ou O que faz uma Mariposa sem uma Lâmpada” faz uma homenagem ao teatro a começar pelo nome, que retoma uma prática do século XIX de expor dois títulos, separados por “ou”.

O enredo gira em torno de Laura, que após uma estreia traumática na juventude, desiste de seu sonho de ser atriz. Décadas depois, ela reencontra um amigo que a estimula a retornar aos palcos. Entre sua vida “anterior” e “futura”, ela tranca-se no quarto, angustiada, ansiosa, isolando-se do mundo – que se impõe à atriz quando o marido entra e começa a conversar com ela (o início da peça).

A cenografia de Taísa Magalhães mergulha lindamente neste choque de realidades, o universo teatral e o cotidiano, que até certo ponto embatem-se, até certo ponto misturam-se. A maneira como o cenário consegue mostrar ambas as relações (a de oposição e a de interseção), ao mesmo tempo em que compõe nichos que parecem representar ambientes reais e outros que parecem remeter à imaginação de Laura, é realmente impressionante.

Os figurinos de Arlete Rua provocam o mesmo efeito de maneira mais evidente e bastante engraçada, pois instauram em cena uma camada de realidade inevitável à Laura: sutiã, touca… aquelas peças indispensáveis para a prática do ofício teatral que tiram o glamour forçosa e repetidamente imposto por ela, a si e ao marido. Este, simultaneamente, com sua roupa cotidiana, parece estar mais à vontade do que aquela que se apoderou do ambiente, transformando-o em reduto de sua imaginação.

A montagem dirigida por Jefferson Almeida soma ao texto de Jau Sant’Angelo uma homenagem própria ao teatro, com depoimentos em off de atores como Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Bibi Ferreira (que faleceu esta semana), uma digital elegante, sensível, que não assume o primeiro plano e caminha lado a lado ao que parece ser a proposta de Jau.

Por fim, os atores tentam dar conta do encontro de dois mundos, mas acabam não saindo da camada mais superficial dessa oposição: o delírio de Laura e a insistência do marido para que ela encontre a plenitude fora do mundo que criou para si. Alguns momentos cômicos chegam a emergir, mas não por uma inversão de situações ou expectativas, e sim devido a um exagero desta mesma acentuação. Com a ressalva que assisti ao espetáculo em sua estreia (uma covardia com os atores…), acredito ser esta a razão que me deixou com a impressão de que a peça rumina sua ideia inicial. Felizmente, direção, cenário e figurino ampliam este escopo.

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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