No Dia da Mulher, Gaby Haviaras fala de teatro e exalta sua personagem em ‘220 Cartas de Amor’: ‘À frente do tempo’

Luiz Maurício Monteiro

Gaby é catarinense de Florianópolis Foto: Léo Ornelas/Divulgação

Este Dia Internacional das Mulheres, celebrado nesta quinta (08), está sendo mais especial do que de costume para Gaby Haviaras. Afinal, é a véspera do início da temporada carioca de “220 Cartas de Amor”, espetáculo no qual ela dá vida a uma figura feminina a quem é só elogios. No palco do Sesc Tijuca, a catarinense de Florianópolis, de 39 anos, vai voltar a interpretar Maria de Lourdes, mãe de seu parceiro de cena Renato Faria, cujo acervo de mais de 300 cartas trocadas com o falecido marido entre 1956 e 1962 – enquanto ainda eram namorados – deu origem ao texto da peça.

Gaby, que conhece Maria de Lourdes pessoalmente, explica sua admiração por aquela que inspirou seu papel na montagem da Cia. Teatro Íntimo. Em meados do século passado, de acordo com as cartas, Maria de Lourdes, assim como a maioria das mulheres da época, precisou conviver com um machismo muito mais censurador do que hoje.

Apesar de romântico, seu Lourenço não se intimidava ao privar a então namorada de atividades banais, como a prática de esportes ou então ensaios de balé. Racional, Maria, apesar dos costumes da época, já mostrava uma porção feminista na maneira de contornar a situação.

— Ela casou aos 21 anos e já dava uma aula de maturidade, de mulher que sabe se colocar. Ele estava dentro do machismo da época, que era menos velado do que hoje, com muitos tabus, e ela era à frente do seu tempo. Ele chegou a proibi-la de jogar vôlei, basquete, de dançar balé. E mesmo dentro disso, ela soube contornar, até abrindo mão algumas vezes. Mas hoje, com 70, ela está nadando, curtindo… Vai até à nossa estreia – se diverte Gaby, que também é bailarina.

Tanta admiração pela personagem, porém, não significa que “220 Cartas de Amor” seja a peça mais marcante dentre as 21 da carreira de mais de 20 anos de Gaby. A propósito, por falar em carreira, ela admite que já pensou em desistir do teatro, mas nada que quisesse realmente levar adiante. Até porque falta ainda realizar um sonho nos palcos. Todas estas particularidades da atriz, você pode conferir na conversa abaixo que a Gaby teve com o RIO ENCENA para a seção “Perfis”.

A peça nasceu a partir de mais de 300 cartas trocadas entre os pais de Renato Farias, enquanto eram namorados

Espetáculo mais marcante da carreira?
“Adélia”, que ficou em cartaz de 2010 a 2016. Não tem como não ser essa a primeira a vir à cabeça porque a própria (poetisa mineira) Adélia foi nos assistir, a peça ficou em cartaz por mais de seis anos… Essa é a mais marcante.

Um fracasso?
“Fome em Três atos”, que apresentamos em Floripa, em 2001. Foi um fracasso no sentido de frustração, porque éramos recém-formados, estávamos com todo aquele gás de quem acabou de sair da faculdade, com todo o amor do mundo e fracassamos no sentido de não entender como pegar uma coisa artística e torná-la num produto. Com aquela visão romântica, não conseguimos fazer isso.

Maria de Lourdes é interpretada por Gaby no palco Foto: Arquivo pessoal

Trabalho dos sonhos?
Quero fazer uma tragédia grega. Não sei qual, mas quero (risos). Tipo uma Jocasta, uma Medeia… Tenho origem grega, então esse lugar do teatro, de arena, de local aberto, me faria tocar nas minhas origens. É um sonho!

Não se vê em que tipo de trabalho?
Não faria stand-up comedy. Não tenho o mínimo de talento (risos). E acho que para fazer, é preciso ter muito talento. Eu acho divertido, não tenho essa cara de pau.

Como recebe as críticas em geral?
Eu paro para refletir, eu gosto. Respeito o ponto de vista de quem avaliou porque é bom ter um outro ponto de vista. Por mais que eu não vá fazer aquilo que a pessoa acha que devo fazer, acho interessante saber como essa pessoa me vê. Agora, quando quando são críticas deslocadas para estética, tipo “você é grande demais” ou “você é gorda para esse personagem”, aí não. Teatro é o lugar das possibilidades, onde um homem pode fazer o papel de uma mulher e vice-versa. Faz parte do lúdico trabalhar com possibilidades. Este tipo de crítica crua, “porque você vai fazer este personagem?”, não acho legal. Esse tipo de coisa não pode ser questionável.

Uma referência no teatro?
Temos vários grandes nomes do antigo teatro, inclusive, acabamos de perder a Tônia Carrero (falecida no último dia 03). Pessoas que abriram caminhos, numa época diferente. Mas para hoje, o pessoal que está vivendo e ralando no teatro, admiro muito a Juliana Galdino.

Um gênero de preferência?
Gosto bastante de drama e musical. Tanto para assistir, como para trabalhar.

Maior desafio na carreira de um artista de teatro?
O grande desafio é achar o sentido do ofício. Nem sempre é a gente que escolhe a vida de artista, digo no sentido amplo, incluindo cenógrafos, iluminadores… Nem smepre, a gente começa entendendo o sentido daquilo. E muitas vezes se termina a carreira sem entender. Então, o grande desafio eu penso que é entender o porquê de se fazer arte, de como a sua arte transforma o outro. Entender o lugar onde isso acontece. Por que muita gente vai para o lado da arte para se autoconhecer, por vaidade… Isso acontece muito. Mas acho que o mais interessante é conseguir sentir o sentido desse ofício.

“220 Cartaz de Amor” será apresentado no RJ pela primeira vez Fotos: Jessica Barbosa/Divulgação

Já pensou em desistir da carreira?
Já. Não foi por nenhum acontecimento fatal, mas já pensei em desistir da carreira pelo acúmulo de frustrações que acontecem em torno dela. Hoje, século XXI, além do ofício, temos que produzir, encarar questões burocráticas, entender de lei… Isso dá um cansaço grande, porque você nem sempre tem esse conhecimento. Aí você manda cinco editais, não passa nenhum, e ninguém explica o porquê. Não dão nem retorno. Aí fica parecendo que você está trabalhando à toa. Isso dá um cansaço, e esse cansaço frustra, a ponto de você pensar “O que eu estou fazendo?”.

Se não trabalhasse com teatro, seria…
Digo que minha criança era inteligente. Quando me perguntavam o quê eu, que sou filha de médica, ia querer ser quando crescesse, eu, em vez de dizer “médica”, respondia que queria ser feliz (risos). Mas, se eu não fosse atriz, seria jornalista. E romanticamente pensando, gostaria de ser astronauta.

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