Na pele de um gay, Armando Babaioff estreia drama ‘Tom na Fazenda’ e fala sobre violência em cena: ‘Um recurso’

Luiz Maurício Monteiro

Os personagens de Gustavo Vaz (E) e Armando Babaioff entram em sérios conflitos durante o espetáculo

Quem olha a foto acima, divulgada pela assessoria de imprensa, pode até pensar que “Tom na Fazenda”, drama que estreia nessa quinta-feira (23), às 20h, no Oi Futuro Flamengo, é um espetáculo recheado de cenas que remetam à violência, talvez até a ponto de chocar aqueles mais sensíveis. No entanto, em entrevista ao RIO ENCENA, Armando Babaioff, idealizador do projeto e tradutor do texto original (Tom à la Farme) do renomado autor canadense Michel Marc Bouchard, ressalta que não é bem assim. Intérprete de um homossexual vítima de agressões, ele minimiza as cenas de maior truculência, explicando que trata-se de apenas de mais um ingrediente da trama.

– Tem o Francis (personagem de Gustavo Vaz, seu sócio no projeto e na produtora ABGV), que é solitário, vive na fazenda, tem traços de violência e submete meu personagem nesse lugar. Mas não é só isso! Há uma coisa por trás da violência. Talvez num primeiro momento, cause mais estranheza do que qualquer outra coisa. Mas serve para contar a história, é um recurso. Tem muitas outras coisas – esclarece.

Estas “muitas outras coisas” vão sendo reveladas ao público a partir do momento em que Tom (Babaioff) perde seu companheiro e viaja até à fazenda da família para o funeral. Porém, ao chegar lá, é surpreendido pela sogra que garante nunca ter ouvido falar nele e muito menos sabido que o filho era gay. Acuado num ambiente hostil, o protagonista ainda é alvo de uma perigosa rede de mentiras costurada pelo irmão do falecido, responsável maior pelos momentos de truculência.

A partir daí, Tom se vê numa tensa relação de dependência com os anfitriões, que quanto mais próximos se mostram, mais contraditórios parecem. Sobre a reação do público à trama, que fala sobre a inabilidade do homem para lidar com o preconceito, a impotência, a violência e o fracasso, o ator diz que só saberá após a estreia da peça inédita no Brasil, que tem direção de Rodrigo Prtella e ainda atuações de Kelzy Ecard e Camila Nhary.

Armando Babaioff em cena com Kelzy Ecard Fotos: Renato Mangolin/Divulgação

– Engraçado isso! Temos nossas reações na sala de ensaio, mas não pensei na reação da plateia. É uma história que, se as pessoas tiverem um mínimo de sensibilidade, vão se identificar. Na verdade, não espero nada. Só quero contar uma história, é óbvio que queremos que as pessoas se envolvam e saiam emocionadas, mas nenhuma pretensão além disso. Não sei responder a essa pergunta (risos) – confessa.

Se sobram dúvidas quanto à reação da plateia, o mesmo pode dizer da certeza do ator sobre o envolvimento com a montagem. Do tipo que precisa estar altamente motivado para encabeçar um projeto, Babaioff estava há quase quatro anos ausente dos teatros, quando numa conversa com um amigo soube do “Tom na Fazenda” (2013) baseado na peça homônima dirigida pelo franco-canadense Xavier Dolan (premiado no Festival de Cannes por “Mommy” em 2014). Sem nem assistir ao longa, apenas por pesquisas na Internet, ele se encantou pela obra e logo começou a traduzi-la.

– Essa peça fala da necessidade de ser compreendido, de se assumir quem se é, da covardia que a gente tem para encarar a própria vida. Isso me chamou atenção logo de cara. E também fala sobre homofobia, um momento esquisito da nossa história, de perseguição a quem não participa dessa normatividade da sociedade – lista.

E com tal envolvimento, Babaioff conheceu o próprio Bouchard, que, inclusive, vem para a estreia e também para um bate-papo com o público a convite do brasileiro.

– Fui ao Festival de Cinema de Montreal, e o autor me escreveu. Foi engrandecedor e deixou o projeto mais nobre. No nosso primeiro papo, ele falava muito sobre o Brasil, queria entender como a sociedade encara o casamento gay, a questão da violência… No Canadá, os direitos são mais equivalentes. O preconceito é mais trabalhado, as pessoas menos resistentes, andam nas ruas sem pudor em esconder sexualidade. Eu achava engraçado o fato de ele querer montar a peça no Brasil. E ele está curioso para saber como isso vai bater aqui no Rio – conclui.