Mostra pelos 25 anos da Atores de Laura atesta renovação de público, e ator explica: ‘Bem quistos por alunos de teatro’

Luiz Maurício Monteiro

Charles Fricks ganhou os prêmios Shell e Aptr pelo solo “O Filho Eterno” Foto: Dalton Valério/Divulgação

Além de celebrar 1/4 de século com atividades ininterruptas, a Mostra Atores de Laura – 25 anos, em cartaz desde o fim de setembro no Teatro Laura Alvim, tem comprovado algo que o próprio grupo vem notando ao longo dos anos. Pelo tempo de estrada, seria até natural que a plateia das montagens da companhia fosse ocupada majoritariamente por espectadores de mais idade, mas, de acordo com o ator Charles Fricks, o que se tem visto é uma presença maciça de jovens. E a explicação para esta renovação, é ele próprio quem dá.

Ainda de acordo com Fricks, a cia. é muito visada por professores e alunos de teatro. A  favor desta renovação, inclusive, tem sido fundamental o fato de a trupe administrar há cerca de 15 anos o Teatro Miguel Falabella, onde são realizados alguns cursos.

– Somos muito bem quistos por alunos de teatro – ressalta o ator, em entrevista ao RIO ENCENA, completando: – Um dos orgulhos de administrar o Miguel Falabella é esse retorno que temos dos alunos.

Sem dúvida, muitos destes jovens, independentemente da época em que começaram a estudar teatro, têm uma preferência no repertório de quase 20 peças da Atores de Laura: “As Artimanhas de Scapino”, montada em 2001, a partir do clássico de Moliére, e ganhadora de prêmios como Shell (melhor figurino) e Qualidade Brasil (melhor Espetáculo e direção). Após 13 anos em cartaz, e alguns pequenos reparos no figurino, ela voltou para abrir a mostra, muito por conta de um esforço particular de Fricks.

– Eu até fiquei com medo de fazer “Scapino”, porque estou com duas hérnias – comenta o ator, de 45 anos, que é muito exigido fisicamente pelos movimentos corporais do personagem do título.

Ainda sobre “Scapino”, Fricks admite que é um dos que tem esta como uma de suas peças preferidas da cia.. A outra é “O Filho Eterno”, com a qual ganhou os prêmios Shell e Aptr de melhor ator; e viajou por praticamente todas as capitais brasileiras – restando só Macapá, no Amapá. O solo, aliás, será apresentado até o dia 21 na ocupação, deixando este momento ainda mais especial para Fricks.

Afinal, ele chegou ao grupo em 1993, um ano após a fundação na própria Casa de Cultura Laura Alvim – daí o nome da cia. – e viveu diversos episódios especiais ao lado dos outros integrantes, os atores Ana Paula Secco, Leandro Castilho, Luiz André Alvim, Marcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis, além do diretor Daniel Herz, fundador ao lado de Susanna Kruger.

O ator interpreta o malandro Scapino desde 2001 Foto: Lucas Rocha/Divulgação

Fricks ainda nos adiantou que em novembro será realizada mais uma mostra no Teatro Cesgranrio, no Rio Comprido. Com os mesmos seis espetáculos que estão na Laura Alvim, essa nova ocupação vai encerrar as comemorações pelos 25 anos de trajetória, que, diga-se, nem os próprios integrantes imaginavam alcançar, como admite o ator na entrevista abaixo:

Que balanço você faz dessa ocupação?
De crítica especializada, não tem muita coisa, porque são espetáculos que já foram apresentados. Sobre o público, está sendo muito bacana pelo o que conseguimos fazer. Montamos esta mostra na raça, com um patrocínio da Fundação Cesgranrio para fazer montagens e desmontagens, custos com material… Inclusive, eu queria agradecer à fundação, ao professor Carlos Alberto Serpa, sem esse patrocínio, seria impossível fazer essa ocupação. E agradecer também ao pessoal que colaborou na vaquinha virtual que fizemos. Muitos fizeram doação anônima, sem querer nada em troca. Foi incrível! Mas ainda sobre o público, a crise e a violência também influenciam, os bares e restaurantes estão fechando mais cedo. Mas, pesar disso, estamos recendo um público bem bacana. E, no geral, estamos felizes por estarmos na Laura Alvim, porque foi lá onde tudo começou há 25 anos, a maioria de nós se conheceu lá. É significativo fazer essa mostra lá, e eu fiquei emocionado na estreia, porque veio tanta coisa na cabeça. Eu, agora com 45 anos, pisando no mesmo palco. Fiquei emocionado mesmo.

Por falar em público, existe uma renovação na plateia da Cia. Ou o perfil ainda é da galera que acompanhou o início de vocês?
Somos muito bem quistos por alunos de teatro. Os próprios professores da CAL (Casa das Artes de Laranjeiras) e da Unirio, por exemplo, mandam os estudantes nos assistir. Isso ajuda a dar uma renovada no nosso público. Claro que tem os quarentões, mas tem os jovens de teatro que ouvem falar de nós. Tenho visto mensagens em redes sociais, “vi ‘O Filho Eterno’, agora vou no ‘Scapino’”… Então, o pessoal está ouvindo falar, está assistindo e voltando. Inclusive, um dos orgulhos de administrar o Teatro Miguel Falabella é esse retorno que temos dos alunos. A gente sente que está contribuindo de alguma forma para a formação a pessoa.

Esperavam chegar a 25 anos de companhia?
Quando fizemos 20 anos, só nos demos conta na época. Numa reunião é que fomos ter noção. Aí fizemos uma mostra também lá na Laura Alvim. Tem que comemorar! E eu, particularmente, não sou de planejar datas. Aquela pergunta de entrevista de emprego: “Como você se imagina daqui a tantos anos?”. Não faço ideia (risos). Nem sei se isso é bom ou ruim. E com a Cia. Foi assim também. A gente foi fazendo. Entrei um ano depois do início, mas aí o Daniel e o grupo já estavam com uma peça, foram chamados para uma temporada, depois eles fez outro texto… E foi assim. A vida passa rápido, então quando chega os 25 anos, a gente nem percebe. Temos que aproveitar, realizar, mas não nos programamos nesse sentido. O que programamos é a próxima peça, temos essa ansiedade, mas não pensamos em quantos anos, quantas peças… Não somos tão cartesianos.

Qual foi o critério para a escolhas das peças apresentadas na mostra?
Tínhamos uma limitação financeira. Conseguimos a pauta, mas estávamos sem dinheiro, até o patrocínio da Cesgranrio. Então, pensamos em cinco ou seis peças. Eu até fiquei com medo de fazer “Scapino”, porque estou com duas hérnias. Mas queríamos mostrar o que a Cia. Faz de melhor, que é a criação coletiva. Temos essa tendência. “Romeu e Isolda”, “O Enxoval”, “Adultério”… Então, a primeira opção foi mostrar essa criação coletiva. E os outros espetáculo foram escolhidos por uma outra característica nossa, que é a adaptação de obras, casos de “O Filho Eterno”, que ganhou prêmios, viajou para varias capitais do Brasil; e “Scapino”, que é o grande sucesso da Cia. Ficou em cartaz por 13 anos.

Já que você citou estas duas peças, são elas as suas preferidas no repertório da Atores de Laura?
Sem dúvida. Estou muito presente nestas duas. “O Filho Eterno” foi uma indicação de um amigo meu, o Pablo Sanábio. Comentei que estava querendo fazer um solo, e ele, com uma generosidade incrível, me indicou o livro, que se você olhar, não diz que pode virar teatro. Mas eu peguei, levei para o grupo, e fizemos. E o “Scapino” pela alegria que proporciona. As reações nesta mostra foram parecidas com as da época quando estreamos, porque baixa uma alegria de criança em todo mundo, no público, no elenco… Os atores continuam rindo das mesmas coisas até hoje, e ainda surge coisa nova. É incrível!