‘Mordidas’ – Uma das melhores comédias a que já assisti em toda a minha vida

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Já inicio esta crítica, dizendo que este espetáculo é IMPERDÍVEL!!!

Está em cartaz, no Teatro Fashion Mall, uma deliciosa comédia, chamada “MORDIDAS”.

Não sei que rumo tomará o meu discurso, mas pode ser, até mesmo, que esta análise não seja tão longa e detalhada, como, de costume, são as minhas críticas, O que ocorre, na verdade, é que tão bom é o espetáculo, que, talvez, me faltem palavras, para traduzir o que senti, na noite do dia 08/04/2018, quando assisti à peça. Só mesmo vendo a montagem, para se ter uma ideia de sua superior qualidade, em todos os sentidos.

Trata-se de uma comédia satírica, do argentino GONZALO DEMARIA, com versão brasileira de MIGUEL FALABELLA, direção de VICTOR GARCIA PERALTA e uma ficha técnica invejável.

Argentina nos tem feito travar conhecimento com uma dramaturgia de ponta, nos últimos anos, principalmente, e o autor de “MORDIDAS” (“TARASCONES”, no original) está inserido nessa safra de bons dramaturgos. Eu diria, para fazer justiça, que o texto de DEMARIA é ótimo, o que vem se tornando, cada vez mais, raro, em se tratando de comédia. Esta, certamente, é uma das melhores a que já assisti em toda a minha vida de “rato de TEATRO”.

Além de dramaturgoGONZALO DEMARIA é roteiristaescritorcompositor e diretor teatral. Nascido em Buenos Aires, é um dos artistas mais renomados do teatro argentino, tendo peças montadas na sua cidade natal e em Paris. Fez versões, em espanhol, de musicais americanos, tais como: “Chicago”“Zorba” e “Cabaré”. Em 2010, publicou seu primeiro romance: “The Pochoeaters”.

É a primeira vez que o texto é apresentado no Brasil. Estreou em Buenos Aires, em 2016, sucesso absoluto de público e de crítica, como deverá acontecer, ao longo desta temporada, no Rio de Janeiro e por onde mais a peça passar. “Por ela, GONZALO DEMARIA recebeu o Prêmio ACE 2016/2017 (Asociación de Cronistas del Espectáculo), na categoria de melhor texto. Em 2017, a montagem fez turnê pelo interior da Argentina e retornou, para nova temporada, em Buenos Aires, sempre com o mesmo êxito. ‘MORDIDAS’ foi montada, também, no Uruguai e tornou-se, mais uma vez, grande sucesso de público e de crítica”, como está no “release”, que me foi enviado por STELLA PONTES (JSPONTES – ASSESSORIA DE IMPRENSA).

 

SINOPSE

 

As amigas STELA (LUCIANA BRAGA), MARTITA (ZÉLIA DUNCAN), ZULMA (ANA BEATRIZ NOGUEIRA) e RAQUEL (REGINA BRAGA), mulheres sofisticadas e elegantes, sempre se reúnem, para jogar cartas e tomar chá.

Numa desses encontros, na casa de RAQUEL, acontece a morte de Bola de Neve, cachorrinho de estimação desta.

Inconformadas, decidem promover um julgamento nonsense”, em que a criada é acusada pelo “assassinato”, sem estar presente no local da “audiência”, visto que fora presa num quarto, e sem direito a defesa.

O que se vê, na verdade, é o julgamento que cada uma faz sobre a outra, numa sucessão de acusações bizarras, as quais revelam a verdadeira face de cada uma.

RAQUEL, de temperamento trágico e exagerado, pretende emanar uma certa nobreza e superioridade.

ZULMA não larga o copo e está sempre algumas doses à frente das amigas, mas suas palavras são lúcidas e cheias de ironia.

MARTITA, exaltada, quer opinar sobre todos os assuntos, é a “sabe-tudo” do grupo.

STELA quer parecer viajada e exótica, cultivando conversas sobre mistérios do mundo e tentando impressionar as amigas com a sua experiência.

No final do “julgamento”, o público é surpreendido com uma revelação, que encerra, nas entrelinhas, muitos detalhes bem sutis.


Não é tarefa fácil escrever comédia. Provocar o riso, da forma mais espontânea, inteligente e original possível, é da competência de poucos. No caso da peça em tela, não só o texto original é ótimo, como, igualmente, é a versão de MIGUEL FALABELLA, criada, especialmente, para esta montagem, cuja idealização é de ANA BEATRIZ NOGUEIRA, que adquiriu os direitos do texto, esteve na Argentina, assistindo à montagem local, e está produzindo a peça, integralmente, com recursos próprios, o que é digo de todos os louvores. ANA acreditou na empreitada, cercou-se de excelentes profissionais e o resultado já pode ser conferido, em apenas dois finais de semana em exibição, visto que a estreia, no Teatro Fashion Mall se deu no dia 7, sábado.

“‘MORDIDAS’ é uma comédia satírica, que faz uma crítica contundente à sociedade contemporânea e suas contradições entre o que queremos parecer ser e o que somos, de fato, convidando o espectador a pensar sobre o modo como estabelecemos as relações humanas nos dias de hoje”.

O público emenda uma gargalhada na outra, embora, na verdade, esteja diante de frases e atitudes as mais bizarras possíveis, inadmissíveis, ouvindo barbaridades, das bocas das quatro protagonistas. Então, de que e por que ri? Ri do patético diante do qual está e porque tudo o que é dito provoca uma reação de não aceitação de tanta maldade. No fundo, no fundo, é um riso nervoso, de quem se questiona: NÃO É POSSÍVEL QUE EU ESTEJA OUVINDO E VENDO ISSO!!! Ou COMO PODE EXISTIR GENTE COMO ESSAS QUATRO LOUCAS?! E o pior é que existe!!!

texto torna-se mais valorizado, ainda, pelo fato de ter sido escrito em versos, uma maneira, talvez, de o autor “camuflar” o verdadeiro sentido das falas e aguçar a inteligência do espectador. E, antes que alguém pense que um texto em versos possa ser enfadonho ou dificultar o seu entendimento, afirmo, com a maior convicção, que não. E, muito acertadamente, FALABELLA manteve a estrutura original, na sua adaptação, sem uma preocupação com as rimas externas. Muitas vezes, elas ocorrem internamente, apenas. Não houve tanta preocupação com a forma, mas, sim, com o conteúdo. O fato de ter sido escrito nesse formato também é interessante, porque o público fica sempre na expectativa do que vai ser dito, em função da sintaxe utilizada na construção dos versos, cheia de hipérbatos, inversões e anástrofes, bem diversa da que é empregada na prosa. É diferente de um texto dramático tradicional, em que, no decorrer da fala, mais ou menos, é criada uma expectativa em torno do que virá em seguida a cada palavra ou locução utilizada.

Segundo apurei, com o brilhante diretorVICTOR GARCIA PERALTA, a montagem brasileira, em muito, se diferencia da original, o que agradou bastante ao autor da peça, o qual veio ao Rio de Janeiro, para a estreia carioca. Na montagem portenha, as personagens eram “tortas”, interna e externamente. Sob a ótica de PERALTA, houve a preocupação de mostrar o lado podre de cada uma das personagens, como pessoas, mas, “o invólucro não corresponde ao produto que vem dentro da embalagem”. Aqui, as quatro são mulheres bonitas, elegantíssimas, e isso estabelece o contraste entre o ser e o parecer, robustece o que o texto pretende passar, uma vez que “perfeitas”, por fora, todas dizem e cometem as maiores atrocidades; são “monstros” por dentro.

humor empregado por DEMARIA, e preservado por FALABELLA, é fino, profundo e sarcástico. Há um deboche, praticado entre as quatro “amigas” (as aspas não foram empregadas por acaso), que não fica claro se é decodificado por cada uma ou se fingem não entender, uma à outra. O quarteto se equivale em maldade, superficialidade, mesquinhez, afinado no mesmo diapasão.

Extraído do já citado “release”“O diretor, VICTOR GARCIA PERALTA, conta: ‘Fui inspirado por uma fala do autor, no programa argentino da peça, quando ele diz que, entre os animais, não existem fascistas. Já, entre os homens, pode existir isso, ou coisa pior, e, muitas vezes, sob uma aparente beleza ou perfeição. Como na Alemanha nazista e sua arquitetura bela e triunfante, pano de fundo das maiores atrocidades da humanidade. Acho importante, neste momento em que o mundo testemunha a volta de pensamentos e posições tão intolerantes, falar dessas mulheres ou pessoas que podemos encontrar em qualquer lugar, perto de nós, aparentando um refinamento, que, na verdade, esconde uma natureza preconceituosa e sedenta de poder’.”

Penso que grande parte do sucesso da montagem brasileira cabe a essa inspiração de PERALTA. Com tal postura, na direção, ele põe em relevo a personalidade de cada uma daquelas mulheres e nos alerta para o fato de estarmos rodeados de gente como elas, sem que nos demos conta disso. Muitas pessoas representam extremamente bem, na vida real, dentro de um belo figurino e inseridas num cenário de luxo e bom gosto.

ANA BEATRIZ NOGUEIRA complementa: “Fui procurar a alma da personagem, o mundo interior, e não achei nada.  Não havia mundo interior! É uma aventura inédita e muito instigante.”. E está coberta de razão. Não só a sua ZULMA, mas também as outras três personagens trazem uma história, um passado e uma prática presente de vida completamente sem sentido. Não são úteis nem a si mesmas; ou, talvez, a elas, sim. Todas se alimentam de ódio, preconceitos, desejo de vingança, futilidades…

Em outras mãos, STELA, MARTITA, ZULMA e RAQUEL poderiam se tornar caricatas, independentemente das atrizes que as representassem, porém a direção se preocupou em “investir na humanidade das personagens, para chegar ao humor e à potência do texto (…).

PERALTA dirige na velocidade permitida e desejável, com excelentes resoluções cênicas e de marcação, como, por exemplo, a apresentação do enredo, feita por LUCIANA BRAGA, quando as luzes se acendem, como que a preparar o público para uma sucessão de bizarrices. Por essa cena, já se pode esperar por muita coisa boa, como uma em que MARTITA, deitada num sofá, faz severas críticas ao marido, dirigindo-se a ZULMA, esta sentada num sofá, sem largar o copo, já meio embriagada, de costas para a outra, sem lhe dar a menor atenção. A cena, ou melhor, a marcação, de forma proposital, remete o espectador à tradicional imagem de um cliente no divã de seu/sua psicanalista.

Outra cena hilária, patética e impossível de ser esquecida é a do cortejo fúnebre, que adentra a requintada sala. Imaginem as quatro mulheres, enfileiradas, em procissão, num tom bastante cerimonioso, entrando em cena, com STELA à frente, empurrando um carrinho de chá, servindo de “coche”, sobre o qual vai uma caixa de sapato, com o corpo de falecido cão. E, para emoldurar tal bizzaria, as quatro entoam, com toda a pompa, uma antiga canção, gravada pelo grupo “Os Mutantes” (Que saudade!), chamada “Vida de Cachorro”, cuja letra aqui reproduzo, para que possam imaginar bem o insólito da cena. Por oportuno, para os que não conhecem a canção, sugiro ouvi-la e que percebam a distância que há entre a belíssima melodia, lembrando uma canção medieval, e o teor escrachado da letra; não se coadunam as duas e é o que dá destaque à canção, dentro da proposta do grupo que a compôs e gravou.

VIDA DE CACHORRO

(Os Mutantes)

Vamos embora companheiro, vamos!

Eles estão por fora do que eu sinto por você.

Me dê sua pata peluda, vamos passear,

Sentindo o cheiro da rua.

Me lamba o rosto, meu querido, lamba

E diga que também você me ama.

Eu quero ver seu rabo abanando,

Vamos ficar sem coleira.

Vamos ter cinco lindos cachorrinhos,

Até que a morte nos separe, meu amor.

Com relação ao elenco, não me atrevo a destacar qualquer atuação, uma vez que, ali, não há uma única estrela; em cena, vemos o brilho de uma constelação. Todas defendem suas personagens da forma mais correta e perfeita possível, cada uma deixando bem a sua marca, descrita na sinopse. Já esperava aquelas luminosas interpretações, com exceção de ZÉLIA DUNCAN, cujo trabalho, como atriz, eu não tivera, antes, o prazer de conhecer (Até então, uma incógnita para mim. E Ela é fantástica!), já que, embora com formação de atriz, pouco atuou. Salvo engano, só participou de duas peças, ambas encenadas em São Paulo, às quais, infelizmente, não assisti.

De acordo com a proposta da direção, o cenário e os figurinos tinham de ser bem bonitos. Quanto a isso, DINA SALEM LEVY (cenógrafa) e CARLA GARAN (figurinista) fizeram trabalhos impecáveis, para revelar o universo aparente das quatro mulheres.

cenário é uma bela e moderna sala, dividida em dois ambientes (estar e jantar), com móveis requintados e tudo em tons pastéis. São lindos  e bem confeccionados os trajes do quarteto.

WAGNER AZEVEDO assina uma bela iluminação e MIRNA RUBIN, na direção de movimento, também fazem parte desta competente equipe.

Pelos DEUSES DO TEATRO!!! Agora foi que percebi o rumo que a minha prosa tomou. Pensei escrever pouco, mas não consegui domar a fúria dos meus dedos no teclado do computador e o desejo de expressar quão feliz fiquei por ter assistido a esta deliciosa comédia, que voltarei a ver, muito em breve.

É preciso dizer que todos devem correr ao Teatro Fashion Mall?

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

COMPARTILHEM ESTA CRÍTICA, PARA QUE POSSAMOS DIVULGAR, CADA VEZ MAIS, O BOM TEATRO BRASILEIRO!!!  

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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